segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Maria

Maria

Nascida no monte
À beira da estrada
Maria
Bebida na fonte
Nas ervas criada

Talvez
Que Maria se espante
De ser tão louvada
Mas não
Quem por ela se prende
De a ver tão prendada

Maria
Nascida do trevo
Criada na trigo
Quem dera
Maria que o trevo
Casara comigo

Prouvera
A Maria sem medo
Crer no que lhe digo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo

Maria
De todas primeira
De todas menina
Maria
Soubera a cigana
Ler a tua sina

Não sei
Se deveras se engana
Quem demais se afina
Maria
Sol da madrugada
Flor de tangerina
Maria
Sol de madrugada
Flor de tangerina
_____________________________

Letra e música de Zeca Afonso
Tema de 1964,
dedicado a Zélia, sua segunda mulher.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Vidro côncavo

Tenho sofrido poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia,
Vidro côncavo a boiar.
Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se vem onda que a levante
Vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais.

António Gedeão

sábado, 28 de novembro de 2009

Baixinho

Eu gosto de te ouvir, oh vento!
mas não andes agora a ramalhar
ao pé de mim.

Um só momento, vento, sossegado!
Deixa-me aqui afogado
no silêncio da mata...

Porque eu sinto a minh'alma a querer falar;
porém tão em segredo fala ela
que se continuas, vento, a ramalhar,
Não consigo entendê-la...

Sebastião da Gama

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Multidão

Esta gente que vai e vem
de cá para lá,
e de lá para cá
que se cruza comigo,
que esbarra comigo,
que tem com certeza
os seus dramas iguais aos meus
as suas esperanças iguais as minhas,
não sabe nada da minha vida,
nem eu sei nada dos seus segredos.
cada um segue absorto em si
como se fosse de olhos fechados
e não tivesse as mãos para dar
e outras mãos desamparadas

Armindo Rodrigues

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

De pedra e cal

De pedra e cal é a cidade
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras.

De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas.

De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas.

Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras.

Caminha devagar
Porque o chão é caiado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 1 de novembro de 2009

Certeza

Sereno o parque espera
Mostra os braços cortados
e sonha com primavera
Com os seus olhos gelados

É um mundo que há-de vir
Naquela fé dormente
Um sonho que há-de abrir
Em ninhos e semente

Basta que um novo sol
Desça de um velho céu
E diga ao rouxinol
Que a vida não morreu.

Miguel Torga

sábado, 31 de outubro de 2009

As pedras falam?

As pedras falam? Pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma historia que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nos?
o que de nos pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como as aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em ponte
que saiba matar a sede

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? Pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.

Maria Alberta Menéres

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Painel

Terra lavrada e pintada
Com a ponta da charrua.
Tela nua
Colorida.
Onde um gesto compassado,
Sagrado,
Semeia a vida.

Miguel Torga

sábado, 24 de outubro de 2009

COMEÇO A CONHECER-ME. NÃO EXISTO

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou a metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelos no corredor...
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo... é um universo barato.

Álvaro de Campos

INSTANTE

A cena é muda e breve:
Num lameiro
Um cordeiro
A pastar ao de leve;

Embevecida
A mãe ovelha deixa de remoer;
E a vida
Pára também, a ver.

Miguel Torga

sábado, 17 de outubro de 2009

NIHIL ET CONSOLAMENTUM

A esponja

O peso de uma esponja aumenta
Proporcionalmente ao número
De gotas de agua que ela
Absorve

Mas nenhuma esponja pode
Absorver
Toda a água deste mundo

Quando uma esponja esta
Saturada
Ninguém pode prever
O comportamento da água
Que ela já não absorve
Nem o comportamento
Do mundo

É preciso imaginar no entanto
Uma esponja que absorveria
Toda a água do mundo

Metê-la-íamos
No lugar do nosso lenço
No bolso do coração
Seria-mos o barco
Seria-mos o sal
Seria-mos
Todos os rios
Do mundo que desaguam
no céu
Uma esponja é
Como uma mala pura
Que conteria todos
Os nossos caminhos
Cada vez que nós
Compramos uma mala
Julgamos que ela
Vai diminuir o peso
Do necessário que
Arrumamos dentro

A mala ideal consiste em
Diminuir
O peso do que nós em ela
Transportamos
Até só pesar o seu
Peso de mala
Ou a vir a ser mais ligeira
Do que era
A partida
A ponto de nem mais existir

Numa esponja ideal
Pode-se
Arrumar inteiro o mar
Se a pomos no
No bolso do coração
Numa mala ideal
Pode-se arrumar todo
O universo
A tropa engolida das
Estrelas
Uma só formiga
Um só amor

Num poema
Pode-se arrumar
Todo futuro
Que desejaríamos
Fazer existir




L’esponga

Lo pés d’una esponga creis
Rapòrt amb la nombre
De gotas d’aiga
Que bèu

Mas cap d’esponga non pòt
Beure
Tota l’aiga del mond

Quand una esponga es
Confla
Degun pòt pás prevéser
L’anar de l’aiga
Que pòt pás mai beure
Ni mai l’anança
Del mond

Pr’aquò cal imaginar
L’esponga que beuriá
Tota l’aiga del mond


La botariam
En la placa del nòstre mocador
Al recanton del còr
Seriam batèl
Seriam sal
Seriam
Totes los flumis
Del mond que dins lo cèl
S’alargan
Una esponga es
Coma una maleta blosa
Que cabriá totes
Los nòstres camins
Cada còp que
Crompam una maleta
Cressem
Que dels afars
Qu’i estremam
Ne dermesirà lo pes

La maleta ideala permet
D’abaissar
Lo pés de çò
Qu’i carrejan
Fins a pesar sonque
Lo pés de la maleta
O de venir mai leugièra de çà
Qu’éra aperabans
Fins
A non pas existir mai

Dins una esponga ideala
Podem estremar
La mar tota
Se la placam dins lo sacon
Del cor
Una maleta ideala
Pòt caber tot
L’univèrs
La sòla aprefondida
De las estrelas
Una formiga soleta
Un sol amor

Dins un poema podem
Estremar
Tot l’avenidor
Que voldriam far
èsser


bâtons et poemes cathares
SERGE PEY
Délit Editions

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A pulga

Um ponto somente
É este animal
Que pouco se vê
E muito se sente

E a gente não gosta
Da pulga
Porquê?
A pulga,
Afinal
Só de animais gosta
E gosta da gente.

A gente que o diga...
Gosta, morde e pica.
Mas que rica amiga!

Pica
Por ser má?
Pica por prazer?
Lá prazer terá.
Sabe-se isso bem...
Mas se a pulga pica,
É para comer,
Não mata ninguém
O pobre animal
Precisa de sangue...
Mas é natural
Que a gente zangue
Quem dera apanha-la
Mordê-la, pisa-la!

Vai a gente ver
E ela
Já se foi...
E sempre a morder.

Será que ela
Julga
Que aquilo não dói?

E assim a pulga
Maluca, malvada,
Mas tão pequenina,
Ladina, rabina,
Que acho engraçada

LEONEL NEVES

domingo, 27 de setembro de 2009

Na minha bicicleta

Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos,
pedalo nas palavras, atravesso as cidades
bato às portas das casas e vêm homens espantados
ouvir o meu canto, ouvir a minha canção.

Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
vem gente para a rua a ver a novidade
como se fosse a chegada
do João que foi a Índia
e era o moço mais galante
que havia nas redondezas
Eu não sou o João que foi à Índia
mas trago todos os soldados que partiram
e as cartas que não escreveram
e as saudades que tiveram
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.

Manuel Alegre

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

de Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é vivida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

sábado, 29 de agosto de 2009

No comboio descendente

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada
Uns por ver rir os outros
E os outros por tudo e por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada

No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Dia feriado

certo dia
ao meio-dia
à hora de ponta
um carro eléctrico
resolveu
fazer feriado
por sua conta...

Estou farto
farto de trabalhar
hoje quero ir passear

Dizem que se esta bem
no jardim de Belém
pois vou até lá
e vou já a correr
sem querer saber
do que possam dizer

nas paragens,
reinava a maior confusão.
seria alguma aflição?
Onde iria um eléctrico vazio
a correr naquele corrupio?

Quando chegou a Belém
o eléctrico
para não dar nas vistas
misturou-se com os turistas.

Visitou os monumentos
e ouviu uma guia
muito apressada
fazer da historia
grande baralhada.

deixou os turistas
e ainda bem
pois foi comer
pastéis de Belém

Comeu meia centena
com açúcar e canela
e depois voltou a passear
e foi ver o mar...
Ao cair a noite
regressou a Lisboa
pela beira-rio
sem um lugar vazio
e muito contente
como toda a gente
que de vez em quando
em vez de trabalhar
vai ler o mar...

Maria Cândida Mendonça

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

Mia Couto

domingo, 23 de agosto de 2009

Caracol

Bato à porta. Ninguém diz:
"Pode entrar", faça favor!"
Não há degrau, não há voz
Nem há fumo nem calor.

É a casa do caracol,
Não esta pintada a cal
E no entanto brilha ao sol
Na sua forma espiral.

Bato à porta, não há porta
Só um buraco profundo
Um túnel que há-de acabar
No centro daquele mundo.

O caracol foi-se embora
Porque mudou de espiral?
Porque foi mudar de casa
Sem recado nem sinal?

Maria Alberta Menéres

sábado, 22 de agosto de 2009

Caminhada

Nessa mata ninguém mata
a pata que vive ali
com duas patas de pata
pata acolá, pata aqui.

Pa ta que gosta de matas
visita as matas vizinhas
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.

E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata.

Sidónio Muralha

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pois eu gosto de crianças

Pois eu gosto de crianças!
Já fui criança também...
Não me lembro de o ter sido;
O que fui sabe-me bem.

É como se de repente
A minha imagem mudasse
No cristal de uma nascente
E tudo o que sou voltasse
À pureza da semente

Miguel Torga

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Afirmação




Hei-de cantar este sol este poente
esta terra lavrada pelo mar
este povo que amassa docemente
o pão espesso e escuro. Hei-de cantar
o eco das origens destas rochas
sólidas e puras. Deste chão em forma
de poema onde a nossa luz nascente
é a voz da manhã tépida e morna


hei-de cantar os búzios e as conchas. Areais
de corpos que se entregam. Acácias carmesim
divinizadas. Que mais
posso cantar?

Talvez o nada que há em mim…





Olinda Beja
in: Água Crioula


__._,_.___

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Jorge de Sena

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos se voltassem.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sem Memória

Haverá para os dias sem memória

outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:
manhã rente às colinas,
a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilases do jardim.
Haverá outro nome para o lugar
onde não há lembrança de ti?

EUGÉNIO DE ANDRADE

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Jacques Prévert

Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa! toda a gente se pode enganar!
disse o pássaro.

Jacques Prévert - Bairro Livre


Trad.: Eugénio de Andrade

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Bêbado Pintor

Alfredo Marceneiro
Composição: Alfredo Marceneiro

Encostado sem brio ao balcão da taberna
De nauseabunda cor e tábua carcomida
O bêbado pintor a lápis desenhou
O retrato fiel duma mulher perdida

Era noite invernosa e o vento desabrido
Num louco galopar ferozmente rugia,
Vergastando os pinhais, pelos campos corria,
Como um triste grilheta ao degredo fugido.
Num antro pestilento, infame e corrompido,
Imagem de bordel, cenário de caverna,
Vendia-se veneno à luz duma lanterna
À turba que se mata, ingerindo aguardente,
Estava um jovem pintor, atrofiando a mente,
Encostado sem brio ao balcão da taberna.


Rameiras das banais, num doido desafio,
Exploravam do artista a sua parca féria,
E ele na embriaguez do vinho e da miséria,
Cedia às tentações daquele mulherio.
Nem mesmo a própria luz nem mesmo o próprio frio,
Daquele vazadouro onde se queima a vida,
Faziam incutir à corja pervertida,
Um sentimento bom dÂ’amor e compaixão,
PÂ’lo ébrio que encostava a fronte ao vil balcão,
De nauseabunda cor e tábua carcomida.


Impudica mulher, perante o vil bulício
De copos tilintando e de boçais gracejos,
Agarrou-se ao rapaz, cobrindo-o de beijos,
Perguntando a sorrir, qual era o seu oficio,
Ele a cambalear, fazendo um sacrifício,
Lhe diz a profissão em que se iniciou,
Ela escutando tal, pedindo-lhe alcançou
Que então lhe desenhasse o rosto provocante,
E num sujo papel, o rosto da bacante
O bêbado pintor com um lápis desenhou.


Retocou o perfil e por baixo escreveu,
Numa legível letra o seu modesto nome,
Que um ébrio esfarrapado, com o rosto cheio de fome,
Com voz rascante e rouca à desgraçada leu,
Esta, louca de dor, para o jovem correu,
E beijando-lhe o rosto, abraço-o de seguida...
Era a mãe do pintor, e a turba comovida,
Pasma ante aquele quadro, original, estranho,
Enquanto o pobre artista amarfanha o desenho:
O retrato fiel duma mulher perdida.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Pedagogia

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser

Miguel Torga

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Que noite serena!

Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.

Meu Deus, que fiz eu da vida?

Que noite serena, etc.

Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...

Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.


Álvaro de Campos

segunda-feira, 15 de junho de 2009

João Cândido da Silva Neto

Olhos que recitam poesias,
Brilho do mar emprestado,
Colibris esvoaçantes
se buscando
Lado a lado.

Visão multicolorida,
Janelas abertas da alma,
O real e o sublime
se defrontando
Na mesma calma.

Espelhos cristalinos prisioneiros
Que à moldura facial encantam;
Líquidos poemas que se transformam
em canção.

Esmeraldas lapidadas
Na singeleza de um sorriso cativante;
Sonhos que partem rumo ao infinito...
Mas retornam.

sábado, 6 de junho de 2009

Antero de Quental

Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vênus de cintura estreita

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortas entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita.

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que se dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino

E como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo

Gosto quando te calas

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.

Pablo Neruda

terça-feira, 19 de maio de 2009

Casa Velha

Rasgões em ameaça à coesão da cal, as plantas invasoras, vingativas, rejeitadas pela placidez dos bosques, as cores decadentes, tumulares, o sossobrar do prumo nas empenas, a desistência da onda nos beirais.

Há quem diga assim a casa velha.

A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.

Há quem diga assim a casa velha.

Licinia Quitério

Adriana Calcanhoto

Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será que você está agora

sábado, 16 de maio de 2009

Elis Regina

Tem dias em que já se acorda cansado...

Do trânsito que não dá trégua.
Do trabalho repetitivo.
De ver na estante os mesmos livros.
De ter mais dívidas do que crédito.
De percorrer o mesmo caminho.
De aceitar as mesmas desculpas.
De acreditar nas mesmas mentiras.
De esperar por algo que não vem.
De ser sutil quando se deveria chutar o balde.
De ver repetidos os mesmos atos.
De seguir a mesma rotina.
De bater na mesma tecla.
De brigar pelos mesmos motivos.
De não jogar e, mesmo assim, perder.
De ser assombrado por fantasmas conhecidos.
De falar e não ser entendido.
De ouvir e entender errado.
De calar e mesmo assim querer ser compreendido.
De correr e continuar a ser perseguido.
De amar e ser gostado.
De achar que detém e ser detido.
De se esconder e nunca ser encontrado.
De escrever e não ser lido.
De ter um nó na garganta tão bem atado.
De conjugar o verbo na pessoa errada.
De se iludir.
De fingir que não entende meias palavras.
De calar a palavra que ofende e se sentir engasgado.
De respeitar todas as leis.
De ver o mesmo velho filme na TV.
De tentar e dar errado.

Tem dias em que se acorda cansado. Mas amanhã isso passa. Sempre passa

Nuno Judice

Quero escrever-te um poema que

tenha um sentido claro como o

que os teus olhos me disseram.

Poderia ser um poema de amor,

tão breve como o instante em

que me deixaste ver os teus olhos.

Mas o que os olhos dizem não cabe

num poema, nem eu sei como se diz

o amor que só os olhos conhecem.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Parabens

BALADA DA SOCIEDADE DE CONSUMO



Eles cantavam nas margens dos grandes rios.



Havia a sociedade de consumo.

Mas eles perguntavam e o homem? É só o que consomem

é só o homem e o seu sumo?

Onde está o homem? O homem? O homem?



E cantavam nas margens dos grandes rios.



Havia automóveis, frigoríficos, televisão

havia sociedades por acções.

Mas eles perguntavam: e o amor? É só solidão?

É só esta mobília a prestações?



E cantavam nas margens dos grandes rios.



Havia o verbo ser e o verbo ter

havia o não haver e o haver demais.

Mas eles perguntavam: e viver?

É só este não ser para ter mais?



E cantavam nas margens dos grandes rios.



Manuel Alegre

desde o 12 de Maio de 1936

segunda-feira, 11 de maio de 2009

ANTONIO GEDEAO

Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.



Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros nada explicam:

Arrefecem



Nesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de outro se refracta,

nehum ser nós se transmite.



Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.



Dão-se os lábios, dão-se os braços

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, e dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.



Mas este íntimo secreto

que no silêncio concreto,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

este ser-se sem disfarçe,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se, e desflorar-se,

é nosso de mais ninguem

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Saudade

Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...

Pablo Neruda

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O adiar

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos

A Minha Saudade tem o Mar Aprisionado

A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

José Jorge Letria

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Silêncio

Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

Octavio Paz

terça-feira, 21 de abril de 2009

(Oscar Wilde, in "De Profundis")

Encontro, algures na minha natureza, alguma coisa que me diz que não há nada no mundo que seja desprovido de sentido, e muito menos o sofrimento. Essa qualquer coisa, escondida no mais fundo de mim, como um tesouro num campo, é a humildade. É a última coisa que me resta, e a melhor (...). Ela veio-me de dentro de mim mesmo e sei que veio no bom momento. Não teria podido vir mais cedo nem mais tarde. Se alguém me tivesse falado dela, tê-la-ia rejeitado. Se ma tivessem oferecido, tê-la-ia rejeitado (...). É a única coisa que contém os elementos da vida, de uma vida nova (...). Entre todas as coisas ela é a mais estranha (...). É somente quando perdemos todas as coisas, que sabemos que a possuímos.

Machado de Assis

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

AMOR VIVO

Amar! mas de um amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
D’uma doída cabeça escandecida...

Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar – delírios e desejos –

Mas amor... dos amores que têm vida...

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?

Antero de Qental

sábado, 18 de abril de 2009

Crespúsculo

É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.

David Mourão Ferreira

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Álvaro de Campos

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.

Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Surdo, Subterrâneo Rio

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 2 de abril de 2009

GRACIAS À LA VIDA

Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto
.
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
.
de Violeta Parra

sábado, 21 de março de 2009

DISSE-TE ADEUS, E MORRI (fado)

Disse-te adeus e morri

E o cais, vazio de ti,

Aceitou novas marés.

Gritos de búzios perdidos

Roubaram dos meus sentidos

A gaivota que tu és.



Gaivota de asas paradas

Que não sente as madrugadas

E acorda à noite a chorar,

Gaivota que faz o ninho

Porque perdeu o caminho

Onde aprendeu a sonhar.



Presa no ventre do mar

O meu triste respirar

Sofre a invenção das horas,

Pois na ausencia que deixaste,

Meu amor, como ficaste,

Meu amor, como demoras!






Autores: Vasco de Lima Couto/ José António Sabrosa

sexta-feira, 20 de março de 2009

Rumo

Rumo


É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra ...


Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!


Vamos, companheiro ...
É tempo!


Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!


Vamos!
que outro oceano nos inflama.. .
Ouves?
É a Terra que nos chama ...
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...


ALDA LARA

quinta-feira, 19 de março de 2009

Eu E Ela

Coberto de folhagem, na verdura,

O teu braço ao redor do meu pescoço,

O teu fato sem ter um só destroço,

O meu braço apertando-te a cintura:



Num mimoso jardim, ó pomba mansa

Sobre um banco de mármore assentados.

Na sombra dos arbustos, que abraçados

Beijarão meigamente a tua trança.



Nós havemos de estar ambos unidos,

Sem gozos sensuais, sem más ideias,

Esquecendo para sempre as nossas ceias

E a loucura dos vinhos atrevidos.



Não teremos então sobre os joelhos

Um livro que nos diga muitas cousas

Dos mistérios que estão para além das lousas

Onde havemos de entrar antes de velhos.



Outras vezes buscando distracção

Leremos bons romances galhofeiros.

Gozaremos assim dias inteiros

Formando unicamente um coração.



Beatos ou pagãos, vida à paxá,

Nós leremos, aceita este meu voto,

O Flos-Sanctorum místico e devoto

E o laxo Cavalheiro de Faublas.

CESARIO VERDE

quarta-feira, 18 de março de 2009

Eugénio de Andrade

As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")

terça-feira, 17 de março de 2009

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos

E sem medo nem dó nos destruímos,

Se morremos em tudo o que sentimos

E podemos cantar, é porque estamos

Nus em sangue, embalando a própria dor

Em frente às madrugadas do amor.

Quando a manhã brilhar refloriremos

E a alma possuirá esse esplendor

Prometido nas formas que perdemos.



Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 15 de março de 2009

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tude se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro

sábado, 14 de março de 2009

DISCURSO DE SALAMANCA

Miguel de UNAMUNO
(12 de octubre del 1936)

Reconstitucion del discurso :

«Voy a ser breve. La verdad es más verdad cuando se manifiesta desnuda, libre de adornos y palabrería. Quisiera comentar el discurso, por llamarlo de algún modo, del general Millán Astray, quien se encuentra entre nosotros. Dejemos aparte el insulto personal que supone la repentina explosión de ofensas contra vascos y catalanes. Yo nací en Bilbao, en medio de los bombardeos de la segunda guerra carlista. Más adelante me case con esta ciudad de Salamanca, tan querida, pero sin olvidar jamás mi ciudad natal... »

(Primera interrupción, « Viva la muerte ! » )
Acabo de oír el grito necrófilo e insensato de “Viva la muerte”! Esto me suena lo mismo que “Muera la vida!” Y yo, que me he pasado toda la vida creando paradojas que provocaron el enojo de quienes no las comprendieron, he de deciros, con autoridad en la materia, que esta ridícula paradoja me parece repelente. Puesto que fue proclamada en homenaje al último orador, entiendo que fue dirigida a él, si bien de una forma excesiva y tortuosa, como testimonio de que él mismo es un símbolo de la muerte. Y otra cosa! [Unamuno comienza a exaltarse con sus propias palabras] El general Millán Astray es un inválido. No es preciso decirlo en un tono más bajo. Es un inválido de guerra.

También lo fue Cervantes. Pero los extremos no sirven como norma. Desgraciadamente hay hoy en día demasiados inválidos. Y pronto habrá más si Dios no nos ayuda.


Me duele pensar que el general Millán Astray pueda dictar las normas de sicología de las masas. Un inválido que carezca de la grandeza espiritual de Cervantes, que era un hombre, no un superhombre, viril y completo a pesar de sus mutilaciones, un inválido como dije, que carezca de esa superioridad del espíritu, suele sentirse aliviado viendo como aumenta el número de mutilados alrededor de él [...]”

(En este momento Millán Astray comienza a gritar “Abajo la inteligencia !”)


“Este es el templo de la inteligencia! Y yo soy su supremo sacerdote! Vosotros estáis profanando su sagrado recinto. Yo siempre he sido, diga lo que diga el proverbio, un profeta en mi propio país. Venceréis, pero no convenceréis. Venceréis porque tenéis sobrada fuerza bruta; pero no convenceréis, porque convencer significa persuadir. Y para persuadir necesitáis algo que os falta: razón y derecho en la lucha. Me parece inútil pediros que penséis en España. He dicho.”

quinta-feira, 12 de março de 2009

António Ramos Rosa





Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

terça-feira, 10 de março de 2009



Auto Retrato
Cecília Meireles por Apard Szènes


Reparei que a poeira se misturava às nuvens
Reparei que a poeira se misturava às nuvens,
e, sem pôr o ouvido na terra,
senti a pressa dos que chegavam.
Disse-me de repente: "Eis que o tropel avança".
Mas todos me olhavam como surdos,
e deixavam-me sem responder nada.
Vi as nuvens tornarem-se vermelhas
e reperti: "Eis que os incêndios se aproximam".
(Mas não havia mais interlocutores.)
"Eles vêm, eles não podem deixar de vir",
balbuciei para a solidão, para o ermo.
E já por detrás dos montes subiam chamas altas;
ou eram estandartes ou eram labaredas.
Perguntei: "Que me avle ter casa, parentes, vida?
Sou a terra que estremece? Ou a multidão que avança?
Ó solidão minha, ó limites da criatura!
Meu nome está em mim? No passado ou no futuro?
Ninguém responde. E o fogo avança para meu pequeno enigma".
Apenas um anjo negro entreabriu seus lábios,
verdadeiramente, como um botão de rosa.
"Death".
DEATH?
Por que me falas nesse idioma?, perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.

Cecília Meireles

segunda-feira, 9 de março de 2009

Arcebispada

Composição: José Afonso

Pregais o Cristo de Braga
Fazeis a guerra na rua
Sempre virados prò céu
Sempre virados prà Virgem
A Santa Cruzada manda
Matar o chivo vermelho
Contra a foice e o martelo
Contra a alfabetização
Curai de ganhar agora
Os vossos novos clientes
Além do pide e do bufo
Amigos do usurário
Além do latifundiário
Amigo do Capelão
"Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação"
"A medicina é ateia
Não cuida da salvação"
Que o diga o facultativo
Que o diga o cirurgião
Que o digam as criancinhas
"Rezas sim, parteiras não"
Se o Pinochet concordasse

Já em Fátima haveria
Mais de trinta mil vermelhos
A arder de noite e de dia
Caridade, a quanto obrigas
Só trinta mil voluntários
"Cristo reina Cristo vinga"
Nos vossos santos ovários
E também nos lampadários
E também nos trintanários
Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação

Ó Carnaval da capela
Ó liturgia do altar
Já lá vem Camilo Torres
Com o seu fusil a sangrar

Igreja dos privilégios
Mataste o Cristo a galope
Também Franco, o assassino
Mandou benzer o garrote

domingo, 8 de março de 2009

(Amor em Dias de Cólera )

... "Melhor seria começar pelo fim. Melhor seria nem começar.
Navegar é preciso, viver não é preciso. Seguindo a barca de Fermina Daza e Florentino Ariza, navegando rio acima e cabeceira abaixo, os atributos da navegação são recuperados (ou seriam do amor?). Um ato em si mesmo, amore fati. Atos irracionais, sentido em si mesmo?
Como um eterno retorno, como se houvesse um ciclo, um tempo próprio, inalterado, único, sempre o mesmo. Vai e vem. São 51 anos, 9 meses e 4 dias. Vai e vem.
Como se fosse um único dia, um único instante... como se nada houvesse passado entre o hoje e o ontem. Como se o tempo tivesse parado. Mas ele sabia que não havia parado porque lembrava cada instante em que viveu sem ela. Cada minuto do que experimentou e que ela não.
Como expressar 51 anos, 9 meses e 4 dias? Como fazê-la entender que viveu e não-viveu por ela? Como fazê-la sentir cada busca de olhar que o alimentava por mais 10 anos? Como compartilhar a experiência de ouvi-la rir, falar, caminhar sem ele durante 51 anos, 9 meses e 4 dias?
Rio abaixo, rio acima.
Gosto de tempo; tempo de velhos, pele seca, enrugada, mal-cheirosa, cheiro de tempo.
Como encantar quem não sabe que foi esperada e que durante todo esse pequeno longo tempo encantou?
Como dizer-lhe que a espera é parte do amor? Que não lhe importa ou incomoda ter esperado 51 anos, 9 meses e 4 dias. Faz parte. Ele esperava por isso.
Como dizer-lhe que não importa a pele, o cheiro... ou melhor, importa sim! Porque afinal esperou e acompanhou cada ruga que teve, cada cheiro que ganhou, cada passo que deu.
Como dizer que esperou por essas rugas? Que amou cada marca e que viveu por acompanhar cada momento? Viveu intensamente esses 51 anos, 9 meses e 4 dias. Junto a ela estava.
A preocupação dele, agora, é como ela vai suportar as marcas dele.
Fermina Daza não tem 51 anos, 9 meses e 4 dias.
Fermina Daza não esperou.
Rio acima, rio abaixo."

quarta-feira, 4 de março de 2009

Antonio Aleixo

São parvos, não rias deles,
deixa-os ser, que não são sós:
Às vezes rimos daqueles,
que valem mais do que nós.

terça-feira, 3 de março de 2009

VI

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putissimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado;

Dido foi puta, e puta de um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c’roa;
Tu, Lucécia com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado;

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh, Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.

Publicado em várias edições em nome de bocage
Este soneto é da autoria de João Vicente Pimentel Maldonado.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Cão como nós

Como nós eras altivo
Fiel mas como nós
Desobediente.
Gostavas de estar connosco a sós
Mas não cativo
E sempre presente-ausente
Como nós
Cão que não querias
Ser cão
E não lembias
A mão
E não respondias
A voz.
Cão
Como nós.

Lisboa, 22-02-2002
Manuel Alegre

domingo, 1 de março de 2009

Mamã negra

(À memória do poeta haitiano Jacques Roumain)

Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!

Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
[dos seringais dos algodoais!...
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos
[das pampas das minas!
Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
Lord God, what will have we done
- Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén...

Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
[amaciando as mais ricas terras do mundo!
Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no "tronco", pendentes da
[forca, caídos por Lynch!
Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos...
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
...do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...

Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos poetas e sábios...

Outras gentes... não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo...

Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo (Oh! se vejo!...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
[olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza...
cintilantemente firme - como a Esperança...
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando -

o dia da humanidade

O DIA DA HUMANIDADE!...

Viriato da Cruz

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A PAVOROSA

EPISTOLA.

Pavorosa illusão da eternidade,
Terror dos vivos, carcere dos mortos,
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Systema da politica oppressora,
Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas;
Dogma funesto, detestavel crença
Que envenenas delicias innocentes,
Taes como aquellas que no céo se fingem.
Furias, cerastes, dragos, centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chamma;
Incompativeis producções do engano,
Do sempiterno horror terrivel quadro
(Só terrivel aos olhos da ignorancia)
Não, não me assombram tuas negras côres:
Dos homens o pincel e a mão conheço.
Trema de ouvir sacrilego ameaço
Quem de um Deos, quando quer, faz um tyranno.
Trema a superstição; lagrimas, preces,
Votos, suspiros, arquejando espalhe;
Cosa as faces co'a terra, os peitos fira:
Vergonhosa piedade, inutil venia.
Espere ás plantas do impostor sagrado,
Q'ora os infernos abre, ora os ferrolha;
Que as leis e propensões da natureza
Eternas, immutaveis, necessarias,
Chama espantosos, voluntarios crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Aborrece nos mais, nos mais fulmina;
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despotica voz á carne arbítra;
E nos ares traçando a futil benção,
Vai do gran'tribunal desenfadar-se
Em sordido prazer, venaes delicias,
Escandalo de amor, que dá, não vende.
Ó Deus! não oppressor, não vingativo,
Não vibrando c'o a dextra o raio ardente
Contra o suave instincto que nos déste;
Não carrancudo, rispido arrojando
Sobre os mortaes a rispida sentença;
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te ama, que te incensa, e crê que és duro:
Monstros de vis paixões, damnados peitos,
Pungidos pelo sofrego interesse,
Alto, impassivel numen, te attribuem
A colera, a vingança, os vicios todos;
Negros enxames, que lhe fervem n'alma.
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror de barbaras cruezas;
Cobrir de véo compacto e venerando,
Atroz satisfação d'antiguos odios,
Que a mira poem no estrago da innocencia:
Ou quer manter asperrimo dominio,
Que os vaivens da razão franqueia e nutre.
Eil-o em sancto furor todo abrasado,
Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,
A maldição na bôcca, o fel na espuma;
Eil-o cheio de um Deus tam mau como elle;
Eil-o citando os horridos exemplos,
Em que aterrada observa a phantasia
Um Deus o algoz, a victima o seu povo.
No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,
Involto em nuvens, em trovões, em raios,
D'Israel o tyranno omnipotente
Lá brama do Sinai, lá treme a terra.
O torvo executor dos seus decretos,
Hypocrita feroz, Moysés astuto
Ouve o terrivel Deus, que assim troveja:
"Vai, ministro fiel dos meus furores,
Corre, vôa a vingar-me, e seja a raiva
D'esfaimados leões menor que a tua.
Meu poder, minhas forças te confio;
Minha tocha invisivel te precede;
Dos impios, dos ingratos, que me offendem
Na rebelde cerviz o ferro ensopa.
Extermina, destroe, reduz a cinzas
Dam a frageis metaes, a deuses surdos.
Sepulta as minhas victimas no inferno;
E treme se a vingança me retardas."
Não lh'a retarda o rabido propheta.
Já corre, já vozeia, já diffunde
Pelos brutos attonitos sequazes
A peste do implacavel fanatismo.
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam.
Que sanha, que furor, que atrocidade!
Foge dos corações a natureza.
Os consortes, os paes, as mães, os filhos,
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricidio.
Os campos de cadaveres se alastram;
Susurra pela terra o sangue em rios.
Ah! barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serêna o phrenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores que derramas
Para fundar o imperio dos tyrannos,
Para deixar-lhe o feio e duro exemplo
D'opprimir seus iguaes com ferreo jugo.
Não profanes, sacrilego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto.
Esse, de quem te ostentas tam valido,
He Deus, do teu furor, Deus do teu genio;
Deus creado por ti, Deus necessario
Aos tyrannos da terra, aos que te imitam,
E áquelles que não crêem que Deus existe.
N'este quadro fatal bem vês, Marilia,
Que, em tenebrosos seculos involta,
Desde aquelles crueis, nefandos tempos,
Dolosa tradição correu aos nossos.
Do coração, da ideia, ah! desarraiga
De astutos mestres a fallaz doutrina,
E de credulos paes preoccupados
As chimeras, visões, phantasmas, sonhos.
Ha Deus; mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pae dos homens, não flagello;
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo;
Que só não leva a bem o abuso d'ellas;
Porque á nossa existencia não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida.
Amor he lei do Eterno, he lei suave:
As mais sam invenções; sam quasi todas
Contrarias á razão e á natureza,
Proprias ao bem de alguns, e ao mal de muitos.
Natureza e razão jámais differem:
Natureza e razão movem, conduzem
A dar soccorro ao pallido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do afflicto,
E a remir a innocencia consternada,
Quando nos debeis, magoados pulsos
Lhe roxeía o vergão de vís algemas.
Natureza e razão jámais approvam
O abuso das paixões, aquella insania
Que, pondo os homens a nivel dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando a nossos iguaes, quando huns aos outros
Traçamos fero damno, injustos males,
Em nossos corações, em nossas mentes
És, ó remorso! o precursor do crime;
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe;
Pois não póde evitar-se o pensamento.
He innocente a mão que se arrepende.
Não vêem só d'um principio acções oppostas,
Taes dimanam de um Deus, e taes do exemplo,
Ou do cego furor, molestia d'alma.
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto
Que te anceiam phantasticos terrores,
Prégados pelo ardil, pelo interesse
Só de infestos mortaes na voz, n'astucia.
A bem da tyrannia está o inferno:
Esse que pintam bárathro de angustias
Sería o galardão, sería o fructo
Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse.
Escuta o coração, Marilia bella,
Escuta o coração, que te não mente;
Mil vezes te dirá; "Se a rigorosa,
Carrancuda oppressão de um pae severo
Te não deixa chegar ao caro amante
Pelo perpetuo nó que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na ideia,
Para tambem de amor dar leis ao mundo;
Se obter não pódes a união solemne,
Que allucina os mortaes; porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que em lagrimas, em ais te estou pedindo?
Reclama o teu poder e os teus direitos
De justiça despotica extorquidos.
Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chamma da ternura os afogueia.
Eia pois, do temor sacode o jugo,
Acanhada donzella, e no teu pejo,
Destra illudindo as vigilantes guardas,
Pelas sombras da noite, a amor propicias,
Demanda os braços do ancioso Elmano;
Ao risonho prazer franqueia os lares.
Consista o laço na união das almas;
Do ditoso hymeneu as venerandas,
Caladas trevas testemunhas sejam;
Seja ministro amor, a terra o templo,
Pois que o templo do Eterno he toda a terra.
Entrega-te depois aos teus transportes,
Os oppressos desejos desaffoga,
Mata o pejo importuno; incita, incita
O que só de prazer merece o nome.
Verás como, involvendo-se as vontades,
Gostos iguaes se dam e se recebem.
Do jubilo ha-de a força amortecer-te;
Do jubilo ha-de a força aviventar-te:
Sentirás suspirar, morrer o amante;
Com os teus confundir os seus suspiros:
Has-de morrer e reviver com elle.
De tam alta ventura, ah! não te prives,
Ah! não prives, insana, a quem te adora."
Eis o que has-de escutar-lhe, ó doce amada!
Se á voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado,
Ás preces que te envia eu uno as minhas.
Ah! faze-me ditoso, e sê ditosa.
Amar he um dever além de um gosto;
Uma necessidade, não um crime
Qual a impostura horrisona pregoa.
Ceos não existem, não existe inferno.
O premio da virtude he a virtude;
He castigo do vicio o proprio vicio.

M. M. B. DU BOCAGE

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Carrasquinho Sentimental

Boby Lapointe

Sentimental bourreau
Paroles et Musique: Boby Lapointe 1969
© Editions Presses Artisanes


Era uma vez
Um lindo carrasquinho
Grande como três nozes
E um quase nada mais gordo
De altas e baixas obras
Executador
e para as baixas obras
estava sempre à boa altura
nunca pedia trégua
ainda menos descanso
em vez de greve
executava conscientemente o seu trabalho

No entanto cortar cabeças
dizia, aborrece-me
é algo idiota
suja o meu cepo
para alimentar a minha mãezinha
sangro Paulo e Pedro
o gesto talvez seja brutal
mas nunca pensando mal
carrasquinho sentimental
Aï, aï, aï,... aï, aï, aï,...

Um dia à sua janela
a mulher do coveiro
Chamou : -Olá, homem das cabeças!
Abriu-lhe o coração
Há muito tempo ressequido
Sem embalo de amor
A si quero-me entregar
Carrasquinho vigoroso!
Deito-lhe uma corda
Do alto do meu balcão
Suba, é uma ordem
Vamos, execução!

Para partilhar o seu leito
A bela o convidou
Em meia dúzia de machadadas
Ele o partilhou
O esposo ouvindo o alarde
Apareceu, algo inquieto
Logo partilhou o marido
Para guardar apenas a sua metade
Como a dama se inquietava
Sugerindo : partamos!
Cortou-lhe a cabeça
Depois cortou o próprio pescoço

Príncipes tomem cuidado
Com a doce Isabel
Não venha ela precisar
Do carinho de um carrasquinho

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O anjo de pedra

Tinha os olhos abertos mas não via.
O corpo era todo saudade
De alguém que o modelara e não sabia
Que o tocara de maio e claridade.

Parava o seu gesto onde pára tudo :
No limiar das coisas por saber
-e ficara surdo e cego e mudo
Para que tudo fosse grave no seu ser

Eugénio de Andrade
As mãos e os frutos

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

NOITE

Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tungurúluas pelos ares!...
..........................................................................
Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...
..........................................................................
Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...
E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...
Por isso as noites são tristes...
Endoidadas, tenebrosas, langorosas,
mas tristes... como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...
É que os meninos brancos...,
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...
Os meninos-brancos... esqueceram!...

ALDA LARA
1948-Outubro (Poemas1966)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Juro que não nasci pra isso, mas vou cumprindo como posso o que represento com minhas somas e perdas. Ando caminhando meus palmos e plumas dentro do que não me pertence, mas que está em mim e que guardo como se guarda um pássaro no vôo. Vou...

(Lau Siqueira )

domingo, 22 de fevereiro de 2009

de Vinicius de Morais

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Fogo e Ritmo

Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.

Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas

Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!

Agostinho Neto

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Mãe Negra

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela …
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro …
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada …
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar? …
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar? …
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar? …
Mãe-Negra não sabe nada …
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra! …
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar …
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar! …
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada.

poema de Alda Lara

PABLO NERUDA




Te recuerdo como eras en el último otoño.
Eras la boina gris y el corazón en calma.
En tus ojos peleaban las llamas del crepúsculo.
Y las hojas caían en el agua de tu alma.

Apegada a mis brazos como una enredadera,
las hojas recogían tu voz lenta y en calma.
Hoguera de estupor en que mi sed ardía.
Dulce jacinto azul torcido sobre mi alma.

Siento viajar tus ojos y es distante el otoño:
boina gris, voz de pájaro y corazón de casa
hacia donde emigraban mis profundos anhelos
y caían mis besos alegres como brasas.

Cielo desde un navío. Campo desde los cerros.
Tu recuerdo es de luz, de humo, de estanque en calma!
Más allá de tus ojos ardían los crepúsculos.
Hojas secas de otoño giraban en tu alma.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

VI





Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
O teu sorriso puro,
A tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
O mesmo bicho sadio
Embriagado na alegria
Da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor me apetece.
Porque o feno amadurece
Nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
Por vê-los nus e suados.

Eugénio de Andrade
In “As mãos e os frutos”

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

In "DIA DO MAR"




Bebido o luar, ébrios de horizontes,
julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem a flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Porquê jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Porquê o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuzes capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 15 de fevereiro de 2009

(Fernando Pessoa)

"Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis."

TROVA DO VENTO QUE PASSA

Perguntei ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.

Adriano Correia de Oliveira

MARIA MADALENA

Quem por amor se perdeu

Não chore, nao tenha pena,

Que uma das santas do céu

Foi Maria Madalena.



Desse amor que nos encanta

Até Cristo padeceu

Para poder tornar santa

Quem por amor se perdeu.



Jesus só nos quis mostrar

Que o amor nao se condena,

Por isso quem sabe amar

Não chore, nao tenha pena.



A Virgem Nossa Senhora

Quando o amor conheceu,

Fez da maior pecadora

Uma das santas do céu.



E de tanta que pecou,

Da maior à mais pequena,

Aquela que mais amou

Foi Maria Madalena.






Autores: Grabriel de Oliveira/Fado Das Horas

sábado, 14 de fevereiro de 2009

FEIRA DA LADRA

Fui à Feira da Ladra, a mais bizarra

Das feiras com a marca do passado,

E vi num ferro-velho uma guitarra

De tampo, sujo, negro, desgrudado.



No fundo uma etiqueta já sem cor

Ocultava um retrato que ficou

E que era de um famoso tocador

Que a morte há muitos anos já levou.



Quatro cordas em rugas de cantigas

Se mais nada fizessem recordar,

Lembravam quatro décimas antigas

À volta de uma quadra popular.



Comprei aquela jóia que se encuadra

Em tudo o que são velhas raridades,

Inda é preciso haver Feira da Ladra

P’ra nos mostrar o preço das saudades.





Autores: Carlos Conde/Fado Zé Grande

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

"Pingos de Chuva"

"Pingos de Chuva"

O cacau está em flor
o café está em flor
a vida toda está em flor

a ilha verde-esmeralda é agora um lago de cristal
onde as lágrimas da chuva ganham brancas asas
na vastidão das noites
que meus avós derramaram nos mares da escravatura
que disso sabem também Simão Andreza
Amador
Yon-Gato
Lázaro
Adão Prata
Duarte Amarroco
e tantos
tantos outros a quem a vida
decepou a esperança
na tela da sua juventude.

Passavam por vezes nos portos das gaivotas navios negreiros
transportando peças humanas
escalando enseadas de outras terras virginais...
não eram corações que iam dentro dos navios
eram apenas eles
os sem nome e sem história
arrancados brutalmente
à palpitação do ventre natal
seguindo destino ignoto onde
um cortejo infindável de sofrimento e dor
caminhava a passos largos
para dentro do seu peito
que tinha nascido livre.

Levavam nada mais que a robustez e a força
para fazerem giraras rodas dos engenhos
levantarem palácios e monumentos
construírem estradas e pontes
roças e fazendas.

Quem já se lembrou de lhes erigir uma estátua?

E meus avós plantados nas escarpas do cacau
acenavam ansiosos aos rostos de ébano que como eles
murmuravam em uníssono
cânticos hossânicos
aos deuses esquecidos das terras de Mãe-África.
Nunca viajaram
só os olhos se perderam nas caravelas impossíveis
da sua insularidade
construindo astrolábios de ternura
nos quadrantes de uma sensualidade recalcada.

Olinda Beja in "Pingos de Chuva"

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O que é bom...




deve-se partilhar.

Uma onda vai



Outras ondas vêm...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O que une a fidelidade à paixão é uma luz invisível
no centro de um rosto, filigranas, telas de uma memoria

difícil. O que une a fidelidade à fidelidade da

paixão é o limite em que se adormece. Mas não

se desperta dessa luz. Se me prendes, eu fujo no

mar, corro nas falésias, nos perigos da morte e do entardecer.
Se eu te prendo, morro repentinamente

sem dizer toda a verdade sobre o que o mar oculta.

Francisco José Viegas

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Espremendo quem trabalha se "ceba" quem desperdiça




Finalmente é sempre dos mesmos que se apertam as porcas...

Foto de François Kollar dans "La France travaille"

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Descaminhos

Me perdoa essa falta de tempo
Que por vezes chega a me desesperar
Esse meu desatino, nossos descaminhos
E a vontade louca de ficar.

Me perdoa essa falta de sono
Que por vezes chega a me desanimar
Queria te encontrar nesse meu abandono
E não ter que depois desapegar.

Te queria sem pressa, sem medo
Na loucura de um dia qualquer
Te tragar no silêncio da noite
Nos teus braços me sentir mulher.

Mas a falta de tempo é tamanha
Que essa ausência de mim te devora
Me perdoa esse jeito cigano
De partir sempre antes da hora.

Te queria sem pressa, sem medo
Na loucura de um dia qualquer
Te tragar no silêncio da noite
Nos teus braços me sentir mulher.

Mas a falta de tempo é tamanha
Que essa ausência de mim te devora
Me perdoa esse jeito cigano
De partir sempre antes da hora.



Joanna

sábado, 7 de fevereiro de 2009

PROFANA CONFISSÃO

Eu
Pecadora
Me confesso

Sim
É verdade
Quebrei todos os votos
Que te fiz por amor
Num impulso de fraqueza
Que me inquietou a alma...

As promessas
A dedicação plena
De só a ti pertencer

Desculpa-me Senhor
Mas não consegui

A tentação foi maior
E rendi-me ao desejo
Pois queria tanto conhecer
O paladar do pecado
Queria tanto saber
Se era doce ou amargo
Ousei
Provei
E... gostei!

Juro-te que falo a verdade
Nem sequer
Te rogo o meu perdão

Pois se pequei
Se vendi a alma ao Diabo
Num acesso de loucura
E paixão
Castiga-me por favor
Eu sei... bem o mereço!

Senhor...

Nada mais poderei fazer
Pois tudo o que eu fiz
Foi de total e livre vontade
Insana entrega
No leito da luxúria
E no deleite
Dos prazeres da carne

E sabes Senhor
Vou-te confessar um segredo
Não conheço melhor sabor
Do que o sabor do pecado
Pisar o risco
E ousar
Desafiar os limites
Do certo e do errado

Por isso
E se ainda me quiseres
Senhor
Terás de me partilhar
Com o demónio que me possuiu

Carregando com o peso do meu segredo!

E este desejo...
Que ainda me escalda a pele
Por debaixo deste hábito
Que encolheu
E já não me chega
Para me livrar da queda
Na alcova da tentação

Aqui estou
Senhor
À mercê do teu castigo
Pela minha redenção...
[/i]

"Cleo"

L.D.
________________________________________
*...VIVO NA RENOVAÇÃO DOS SENTIDOS, JUNTO DA ANTIGUIDADE DAS LEMBRANÇAS, EM FRENTE DAS EMOÇÕES...*
http://impulsosdalma.blogspot.com/
http://flashs-impulsos.blogspot.com/

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Walt Whitman

En su país de hierro vive el gran viejo
Bello como un patriarca, sereno y santo.
Tiene la arruga olímpica de su entrecejo
Algo que impera y vence con noble encanto.

Su alma del infinito parece espejo ;
Son sus cansados ombros dignos del manto ;
Y con arpa labrada de un roble añejo,
Como un profeta nuevo canta su canto ;

Sacerdote que alienta soplo divino,
Anuncia en el futuro, tiempo mejor.
Dice al águila : « ¡ Vuela !» ; « ¡ Boga !» al marino,

Y « ¡ Trabaja !» al robusto trabajador.
¡Así va ese poeta por su camino,
Con su soberbio rostro de emperador !

Rubén Dario

Azul...Cantos de vida y esperanza

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A águia negra

Um belo dia, ou talvez uma noite
Junto a um lago, deixei-me adormecer
Quando subitamente parecendo romper o céu
Vinda de nenhum lado
Surgiu uma águia negra

Docemente, as asas desdobradas
Docemente, vi-a rodopiar
Pertinho de mim, em um murmúrio de asas
Como caída do céu
A ave veio pousar

Tinha os olhos cor de rubi
E as penas da cor da noite
A testa brilhava como mil chamas
A ave, coroada rainha
Trazia um diamante azul

Com o bico, tocou-me a bochecha
Na minha mão pousou o seu pescoço
E foi então que o reconheci
Surgindo do passado
Tinha-me voltado

Diz-me pássaro. Dis-me, levo-te…
Voltemos ao país do passado
Como antes, nos meus sonhos de criança
Para colher tremendo
Estrelas nas estrelas

Como antes, nos meus sonhos de criança
Como antes sobre uma nuvem branca
Como antes de acender o sol
Ser fazedor de chuva
E construir maravilhas

A águia negra, num murmúrio de asas
pos-se a voar para ganhar o céu

Quatro penas da cor da noite
Uma lágrima, ou talvez um rubi
Tinha frio, nada me restava
A ave deixou-me
A sós com a minha dor

A grande BARBARA

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A "merda" da guerra



14 de Julho
Festa Nacional
Parada militar em Paris, onde claro abundam pombos
O autor, Robert Doisneau, soube colher o instante exacto em que as naves
parecem "borrar" as musas.
A indecencia sujando a inocência

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Não , nada lamento

Não , nada de nada
Não , nada lamento
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, tudo isso me é indiferente

Não , nada de nada
Não , nada lamento
Esta pago, varrido, esquecido
Não quero saber do passado

Com as minhas lembranças
Acendi uma fogueira
Os desgostos, os prazeres
Já não preciso deles

Varridos os amores
Com todos os seus «trémulos»
Varridos para sempre
Torno a partir, a zero

Letra da canção : Non je ne regrette rien, Edith Piaf

domingo, 1 de fevereiro de 2009

PALABRAS PARA JULIA

Tu no puedes volver atrás,
porque la vida ya te empuja,
como un aullido interminable,
interminable.
Te sentirás acorralada,
te sentirás, perdida o sola,
tal vez querrás no haber nacido,
no haber nacido.
Pero tu siempre acuérdate
de lo que un dia yo escribí
pensando en ti, pensando en ti,
como ahora pienso.
La vida es bella ya verás,
como a pesar de los pesares,
tendras amigos, tendras amor,
tendras amigos.
Un nombre solo, una mujer,
asi tomados, de uno en uno,
son como polvo, no son nada,
no son nada.
Entonces siempre acuérdate,
de lo que un dia yo escribí,
pensando en ti, pensando en ti,
como ahora pienso.
Nunca te entregues, ni te apartes,
junto al camino, nunca digas
no puedo mas y aqui me quedo,
y aqui me quedo.

Otros esperan que résistas,
que les ayude tu alegría,
que les ayude tu canción,
entre sus canciones,
Entonces siempre acuérdate
de lo que un dia yo escribí,
pensando en ti, pensando en ti,
como ahora pienso.
La vida es bella ya veràs,
como a pesar de los pesares,
tendras amigos, tendras amor,
tendras amigos.
No se decirte nada mas,
pero tu debes comprender,
que yo aùn estoy en el camino,
en el camino.
Pero tu siempre acuérdate
de lo que un dia yo escribí,
pensando en ti, pensando en ti,
como ahora pienso.

Letra, JOSE AGUSTIN GOYTISOLO
Musica y interpretación, Paco Ibañez

sábado, 31 de janeiro de 2009

QUANDO TE CONHECI

Quando te conheci
estalaram fogos de artifício no céu do meu espanto
e meu coração abriu-se em flor
papoila vermelha
desabrochando ao quente sol de agosto
desta paixão.

E houve coros de Anjos e responsos profanos
Hossanas e Aleluias e saudações à Natureza!

Quando te conheci
reescreveu-se a beleza das cores e os pontos cardeais
renasceram as procissões
os passeios a pé, aos domingos
e as bandas a tocarem nos coretos das praças!

Quando te conheci
rebentaram os diques da tristeza
a alegria jorrou nos coretos dos jardins
e foi a festa!

Quando te conheci
reinventou-se a Felicidade!...

" Lume"
Maria Mamede

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Solidão

Na minha terra há um rio
Que nunca vai ter ao mar
Trago-o dentro do meu peito
O meu corpo é o seu leito
Onde ele se pode espraiar.

Na minha terra há um pranto
Duma mãe que não secou
Escorre nas minhas veias
Como o mar por entre areias
Que o Oceano afundou.

Na minha terra há um porto
Com barcos por atracar
As amarras trago-as eu
No destino que me deu
Outro porto para embarcar.

Na minha terra há um mundo
Diferente deste onde estou.
Mas não o trago comigo
Ficou para meu castigo
No canto do ossobô*

*passaro que anuncia a chuva

Maria Olinda Beja (São Tomé)

Sarah

A mulher que esta na minha cama
Já não tem 20 anos, há muito tempo
Os olhos pisados
Pelos anos
Pelos amores
Dia após dia
A boca usada
Pelos beijos
Amiúde, mas
Muito mal dados
A cor do rosto, pálida
Não obstante a maquilhagem
Mais pálida que uma
Nódoa de lua

A mulher que esta na minha cama
Já não tem 20 anos, há muito tempo
Os seios pesados
De tanto amor
Já não merecem
Que lhes chamem isco
O corpo enfastiado
Demasiado acarinhado
Amiúde, mas
Demasiado mal-amado
O dorso corcunda
Parece suportar
Lembranças de quem
Teve que fugir

A mulher que esta na minha cama
Já não tem 20 anos, há muito tempo
Não riais
Não toqueis
Guardai as vossas lágrimas
Os vossos sarcasmos pois
Quando a noite
Nos reúne
O seu corpo, as suas mãos
Oferecem-se aos meus
E é o seu coração
Coberto de lágrimas
E de feridas
Que me serena

Georges Moustaki

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Mulher

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher

José Carlos Ary dos Santos

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A volta do Boémio

A volta do Boémio

Boémia
Aqui me tens de regresso
E suplicante te peço
A minha nova inscrição
Voltei
Para rever os amigos que um dia
Deixei a chorar de alegria
Me acompanha o meu violão

Boémia
Sabendo que andei distante
Sei que essa gente falante
Vai agora ironizar
Ele voltou
O boémio voltou novamente
Partiu daqui tão contente
Por que razão quer voltar ?

Acontece que a mulher que floriu o meu caminho
De ternura meiguice e carinho
Sendo a vida do meu coração
Compreendeu e abraçou-me a sorrir
Meu amor, você pode partir
Não esqueça o seu violão
Va rever os teus rios
Teus montes, cascatas
Va sonhar com nova serenata
E abraçar seus amigos leais
Va embora
Pois me resta o consolo e a alegria
De saber que depois da boémia
E de mim
Que você gosta mais…

Adelino Moreira

domingo, 25 de janeiro de 2009

AUTOPSICOGRAFIA



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

sábado, 24 de janeiro de 2009

Lily

Encontravam-na até bonita Lily
Vinha da Somália Lily
Num barco cheio de imigrantes
Que vinham de boa vontade
Esvaziar o lixo de Paris
Julgava que éramos todos iguais Lily
No país de Voltaire e Victor Hugo Lily
Mas por exemplo para Debussy
É preciso duas negras para uma branca
É isso a grande diferença
Adorava de tal maneira a liberdade Lily
Sonhava com fraternidade Lily
No hotel rua Secréton
Disseram-lhe logo ao chegar
Que ali só recebiam brancos.

Descarregou caixotes Lily
Executou os trabalhos mais sujos Lily
Gritou para vender couve-flor
Na rua, os seus irmãos de cor
Acompanhavam-na com o som dos martelos pneumáticos
E quando lhe chamavam Branca de neve
Não caia na armadilha Lily
Encontrava que era divertido Lily
Mesmo se era necessário apertar os dentes
Ficariam demasiado satisfeitos
Amou um loiro de caracóis Lily
Que desejava casar com ela Lily
Mas os sogros disseram-lhe
Não somos racistas nem por um vintém
Mas não queremos cá disso na família

Experimentou a América Lily
O grande país da democracia Lily
Senão tivesse visto, não teria acreditado
Que a cor do desespero
Ali também fosse o negro
Mas numa manifestação em Memphis Lily
Em que viu Angela Davis Lily
Que lhe disse, vem minha irmã
Juntos teremos menos medo
Dos lobos que esperam o caçador
Para enfrentar os seus medos Lily
Levantou o seu punho com raiva Lily
E a criança que nascera um dia
Terá a cor do amor
Contra a qual ninguém pode nada

Emcontravam-na até bonita lily
Vinha da Somália lily
Num barco cheio de imigrantes
Que vinham da sua própria vontade
Vazar o lixo de Paris

Pierre Perret
"du rire aux larmes"

Clandestino

Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Para burlar la ley.
Perdido en el corazón
De la grande Babylon
Me dicen el clandestino
Por no llevar papel.
Pa' una ciudad del norte
Yo me fui a trabajar
Mi vida la dejé
Entre Ceuta y Gibraltar
Soy una raya en el mar
Fantasma en la ciudad.
Mi vida va prohibida
Dice la autoridad
Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Por no llevar papel
Perdido en el corazón
De la grande Babylon
Me dicen el clandestino
Yo soy el quiebra ley
Mano Negra, clandestina
Peruano, clandestino
Africano, clandestino
Marijuana, ilegal.

Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Para burlar la ley.
Perdido en el corazón
De la grande Babylon
Me dicen el clandestino
Por no llevar papel
ad
Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Por no llevar papel

Manu Chao

Dedicado a todos los imigrantes

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O Gorila

Era através de fortes grades
Que as fêmeas do conselho
Contemplavam um potente gorila
Sem recear os dizeres das mas línguas
Sem pudor estas comadres
Espreitavam um ponto preciso
Que do modo mais severo a minha mãezinha
Me proibiu de nomear aqui

Atenção! Gorila

Subitamente a prisão tão segura
Onde vivia o belo animal
Abre-se sem saber porquê (suponho
Que a tinham fechado mal)
O símio saindo da jaula
Diz :” é hoje que a vou perder!”
Falava da sua virgindade
Devem ter adivinhado, espero!

Atenção! Gorila

O dono do jardim zoológico
Perdido, gritava: “Ai meu Deus!”
De medo, pois o gorila,
Jamais ainda vira uma macaca!
Logo que a gente feminina
Soube que o símio era virgem
Em vez de aproveitar a ocasião
Largou! Parando só dois fusos horários mais longe

Atenção! Gorila

Aquelas mesmas que outrora
O chocavam de um olho decidido
Fugiram, provando que não tinham
Nenhuma constância nas ideias
Vão era o seu temor!
O gorila é um brincalhão
Bem superior ao homem no amor
Não se contam as mulheres que o confirmarão

Atenção! Gorila

Todo este mundo se precipita
Fora de alcance deste símio em cio
Salvo uma velha desdentada
E um jovem juiz em madeira bruta
Vendo que todas se recusavam
O quadrúpede acelera coitado
O seu balancear na direcção dos vestidos
Da velha e do magistrado

Atenção! Gorila

“Ahhhh! Suspira a centenária...
que ainda me possam desejar
seria algo extraordinário
e a bem dizer inesperado”
o juiz, ele, pensava sereno
“Tomar-me por uma macaca
é completamente impossível...”
O que segue demonstra o contrário




Atenção! Gorila

Imaginai que um de vós possa ser
Como o símio obrigado a
Escolher entre um juiz e uma anciã
Qual preferíeis entre os dois?
Se uma alternativa dessas me calhasse
Um desses dias
Seria, tenho a certeza, a velha
De quem mais eu iria gostar

Atenção! Gorila

Mas, por desgraça, se o gorila
No campo do amor vale o seu preço
Sabe-se que ao contrário ele não brilha
Nem pelo seu gosto nem pelo seu espírito
Então, em vez de escolher a velha
Como teria feito não importa quem
Pegou no juiz pela orelha
E levou-o para o mato, oiçam bem...

Atenção! Gorila

O que segue seria delicado
É pena, mas não poderei
Dizer e lamento
Riríeis sem dúvida um pouco
Pois o juiz no momento supremo
Gritava “mamã” chorava sem parar
Como o infeliz a quem, nesse mesmo dia
Tinha mandado a cabeça cortar...

Atenção! Goriiiiiiiiiiilaaaaaaaaaaaaaaa!

George Brassens

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Não me deixes

Não me deixes

Não me deixes
É necessário esquecer
Tudo se pode esquecer
Já se esta a apagar…
Esquecer o tempo
O mal entendido
O tempo perdido
A procurar porquê
Esquecer as horas
Que matam por vezes
Com golpes de como
O coração, a felicidade
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes

Não me deixes
Ofertar-te-ei
Pérolas de chuva
Vindas de países
Onde nem sequer chove
Lavarei a terra
Até que eu morra
Para cobrir o teu corpo
De ouro e de luz
Construirei um recanto
Onde o amor é rei
Onde o amor é lei
Onde serás a rainha
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes

Não me deixes
Inventar-te-ei
Palavras insanas
Que compreenderas
Falar-te-ei
Daqueles amantes
Que por duas vezes
Viram os seus corações abraçarem-se
Contar-te-ei a história daquele rei
Que se deixou morrer
Por não ter podido encontrar-te
Não me deixes
Não me deixes Não me deixes
Não me deixes

Não me deixes
Já se viu tantas vezes
Reaparecerem as chamas
De um antigo vulcão
Que julgava-mos demasiado ancião
Parece que as terras queimadas
Dão mais trigo
Que o melhor mês de Abril
E quando chega a noite
Para que o céu possa flamejar,
O vermelho e o negro,
Não são obrigados a se acasalarem?
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes

Não me deixes
Não chorarei mais
Não volto a falar
Esconder-me-ei
Para melhor te ver
Dançar e sorrir
Para te escutar
Cantando e rindo
Deixa que seja
A sombra da tua sombra
A sombra da tua mão
A sombra do teu cão
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes



Jacques Brel
Ne me quitte pas

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Conxuro

Mouchos, coruxas, sapos e bruxas.
Desmos e diaños das nevoadas veigas.
Corvos pintigas e meigas, feitizos das maneiñeiras.
Pobres cañotas furadas, fogar dos vermes e alimañas.
Lume das Santas Campañas, mal de ollo, negros meigallos, cheiro dos mortos,
tronos e raios.
Oubeo do can, pregón da morte ; fociño do sátiro e pe de coello.
Pecadora lingua da mala muller casada cun home vello.
Auverno de Satán e Belcebú lume dos cadávres ardentes, corpos mutilados dos inocentes, peidos dos infernales cús, muxido da mar embravecida.
Barriga inútil da muller solteira, falar dos gatos que andan a xaneira, quedella porca da cabra mal parida.
Con este fol levantarei as chamas deste lume que asemella ao do inferno, e fixirán as bruxas acaballo das suas escobas, índose bañar na praia das areias gordas . ¡oide, vide ! os ruxidos que dan as que non poden deixar de queimarse no aguardente quedando así purificadas.
E cando este brebaxe baixe polas nosas gorxas, quedaremos libres dos males da nosa ialma e de todo embruxamento.
Forzas do ar, terra mar e lume, a vós fago esta chamada : si é verdade que tendes máis poder que a humana xente, eiquí e agora, facede cos espritos dos amigos que están fora, participen cos nós desta queimada.

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