"Pingos de Chuva"
O cacau está em flor
o café está em flor
a vida toda está em flor
a ilha verde-esmeralda é agora um lago de cristal
onde as lágrimas da chuva ganham brancas asas
na vastidão das noites
que meus avós derramaram nos mares da escravatura
que disso sabem também Simão Andreza
Amador
Yon-Gato
Lázaro
Adão Prata
Duarte Amarroco
e tantos
tantos outros a quem a vida
decepou a esperança
na tela da sua juventude.
Passavam por vezes nos portos das gaivotas navios negreiros
transportando peças humanas
escalando enseadas de outras terras virginais...
não eram corações que iam dentro dos navios
eram apenas eles
os sem nome e sem história
arrancados brutalmente
à palpitação do ventre natal
seguindo destino ignoto onde
um cortejo infindável de sofrimento e dor
caminhava a passos largos
para dentro do seu peito
que tinha nascido livre.
Levavam nada mais que a robustez e a força
para fazerem giraras rodas dos engenhos
levantarem palácios e monumentos
construírem estradas e pontes
roças e fazendas.
Quem já se lembrou de lhes erigir uma estátua?
E meus avós plantados nas escarpas do cacau
acenavam ansiosos aos rostos de ébano que como eles
murmuravam em uníssono
cânticos hossânicos
aos deuses esquecidos das terras de Mãe-África.
Nunca viajaram
só os olhos se perderam nas caravelas impossíveis
da sua insularidade
construindo astrolábios de ternura
nos quadrantes de uma sensualidade recalcada.
Olinda Beja in "Pingos de Chuva"
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
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