Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço
Ricardo Reis
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
domingo, 7 de fevereiro de 2010
"Jose Dantas" imortalizada pelo Ivon Cury e Elba Ramalho
FARINHADA
Tava na peneira, eu tava peneirando
Eu tava num namoro, eu tava namorando
(Bis)
Na farinhada, lá da Serra do Teixeira
Namorei uma cabôca, nunca vi tão feiticeira
A mininada descascava macaxeira
Zé Migué no caititú e eu e ela na peneira
Tava na peneira, eu tava peneirando
Eu tava num namoro, eu tava namorando
(Bis)
O vento dava, sacudia a cabilêra
Levantava a saia dela no balanço da peneira
Fechei os óio e o vento foi soprando
Quando deu um ridimuinho sem querer tava espiando
Tava na peneira, eu tava peneirando
Eu tava num namoro, eu tava namorando
(Bis)
De madrugada nós fiquemos ali sozinho
O pai dela soube disso deu de perna no caminho
Chegando lá até riu da brincadeira
Nós estava namorando, eu e ela na peneira
Tava na peneira, eu tava peneirando
Eu tava num namoro, eu tava namorando
(Bis)
Tava na peneira, eu tava peneirando
Eu tava num namoro, eu tava namorando
(Bis)
Na farinhada, lá da Serra do Teixeira
Namorei uma cabôca, nunca vi tão feiticeira
A mininada descascava macaxeira
Zé Migué no caititú e eu e ela na peneira
Tava na peneira, eu tava peneirando
Eu tava num namoro, eu tava namorando
(Bis)
O vento dava, sacudia a cabilêra
Levantava a saia dela no balanço da peneira
Fechei os óio e o vento foi soprando
Quando deu um ridimuinho sem querer tava espiando
Tava na peneira, eu tava peneirando
Eu tava num namoro, eu tava namorando
(Bis)
De madrugada nós fiquemos ali sozinho
O pai dela soube disso deu de perna no caminho
Chegando lá até riu da brincadeira
Nós estava namorando, eu e ela na peneira
Tava na peneira, eu tava peneirando
Eu tava num namoro, eu tava namorando
(Bis)
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Angelo Paraíso Martins
Se o dia é de sol,
Se o vento é de leste,
Que aurora, que festa,
Que bom viajar!
Mas chega o inverno
Gemidos e queixas
Sofridas canções
Se ouvem no mar!
Por isso é preciso
Saber viajar
Formando comboios
De velas unidas
Que enfrentem a tormenta
A guerra do mar,
E a um porto seguro
Garantam chegar!
Um porto de paz
De luz e de amor
Que cheguem pra todos,
Sem preço, sem dores,
Assim como chegam
Os beijos do sol
E o perfume das flores!...
Pra isto, é preciso,
Com velas unidas,
Saber velejar!...
Se o vento é de leste,
Que aurora, que festa,
Que bom viajar!
Mas chega o inverno
Gemidos e queixas
Sofridas canções
Se ouvem no mar!
Por isso é preciso
Saber viajar
Formando comboios
De velas unidas
Que enfrentem a tormenta
A guerra do mar,
E a um porto seguro
Garantam chegar!
Um porto de paz
De luz e de amor
Que cheguem pra todos,
Sem preço, sem dores,
Assim como chegam
Os beijos do sol
E o perfume das flores!...
Pra isto, é preciso,
Com velas unidas,
Saber velejar!...
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Maria
Maria
Nascida no monte
À beira da estrada
Maria
Bebida na fonte
Nas ervas criada
Talvez
Que Maria se espante
De ser tão louvada
Mas não
Quem por ela se prende
De a ver tão prendada
Maria
Nascida do trevo
Criada na trigo
Quem dera
Maria que o trevo
Casara comigo
Prouvera
A Maria sem medo
Crer no que lhe digo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo
Maria
De todas primeira
De todas menina
Maria
Soubera a cigana
Ler a tua sina
Não sei
Se deveras se engana
Quem demais se afina
Maria
Sol da madrugada
Flor de tangerina
Maria
Sol de madrugada
Flor de tangerina
_____________________________
Letra e música de Zeca Afonso
Tema de 1964,
dedicado a Zélia, sua segunda mulher.
Nascida no monte
À beira da estrada
Maria
Bebida na fonte
Nas ervas criada
Talvez
Que Maria se espante
De ser tão louvada
Mas não
Quem por ela se prende
De a ver tão prendada
Maria
Nascida do trevo
Criada na trigo
Quem dera
Maria que o trevo
Casara comigo
Prouvera
A Maria sem medo
Crer no que lhe digo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo
Maria
De todas primeira
De todas menina
Maria
Soubera a cigana
Ler a tua sina
Não sei
Se deveras se engana
Quem demais se afina
Maria
Sol da madrugada
Flor de tangerina
Maria
Sol de madrugada
Flor de tangerina
_____________________________
Letra e música de Zeca Afonso
Tema de 1964,
dedicado a Zélia, sua segunda mulher.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Vidro côncavo
Tenho sofrido poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia,
Vidro côncavo a boiar.
Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se vem onda que a levante
Vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais.
António Gedeão
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia,
Vidro côncavo a boiar.
Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se vem onda que a levante
Vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais.
António Gedeão
sábado, 28 de novembro de 2009
Baixinho
Eu gosto de te ouvir, oh vento!
mas não andes agora a ramalhar
ao pé de mim.
Um só momento, vento, sossegado!
Deixa-me aqui afogado
no silêncio da mata...
Porque eu sinto a minh'alma a querer falar;
porém tão em segredo fala ela
que se continuas, vento, a ramalhar,
Não consigo entendê-la...
Sebastião da Gama
mas não andes agora a ramalhar
ao pé de mim.
Um só momento, vento, sossegado!
Deixa-me aqui afogado
no silêncio da mata...
Porque eu sinto a minh'alma a querer falar;
porém tão em segredo fala ela
que se continuas, vento, a ramalhar,
Não consigo entendê-la...
Sebastião da Gama
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Multidão
Esta gente que vai e vem
de cá para lá,
e de lá para cá
que se cruza comigo,
que esbarra comigo,
que tem com certeza
os seus dramas iguais aos meus
as suas esperanças iguais as minhas,
não sabe nada da minha vida,
nem eu sei nada dos seus segredos.
cada um segue absorto em si
como se fosse de olhos fechados
e não tivesse as mãos para dar
e outras mãos desamparadas
Armindo Rodrigues
de cá para lá,
e de lá para cá
que se cruza comigo,
que esbarra comigo,
que tem com certeza
os seus dramas iguais aos meus
as suas esperanças iguais as minhas,
não sabe nada da minha vida,
nem eu sei nada dos seus segredos.
cada um segue absorto em si
como se fosse de olhos fechados
e não tivesse as mãos para dar
e outras mãos desamparadas
Armindo Rodrigues
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
De pedra e cal
De pedra e cal é a cidade
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras.
De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas.
De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas.
Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras.
Caminha devagar
Porque o chão é caiado.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras.
De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas.
De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas.
Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras.
Caminha devagar
Porque o chão é caiado.
Sophia de Mello Breyner Andresen
domingo, 1 de novembro de 2009
Certeza
Sereno o parque espera
Mostra os braços cortados
e sonha com primavera
Com os seus olhos gelados
É um mundo que há-de vir
Naquela fé dormente
Um sonho que há-de abrir
Em ninhos e semente
Basta que um novo sol
Desça de um velho céu
E diga ao rouxinol
Que a vida não morreu.
Miguel Torga
Mostra os braços cortados
e sonha com primavera
Com os seus olhos gelados
É um mundo que há-de vir
Naquela fé dormente
Um sonho que há-de abrir
Em ninhos e semente
Basta que um novo sol
Desça de um velho céu
E diga ao rouxinol
Que a vida não morreu.
Miguel Torga
sábado, 31 de outubro de 2009
As pedras falam?
As pedras falam? Pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma historia que não calam.
Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nos?
o que de nos pensarão?
As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.
Riem nos muros ao sol
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como as aves
e nem mais tarde regressam.
Brilham quando a chuva cai.
vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em ponte
que saiba matar a sede
Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.
As pedras falam? Pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.
Maria Alberta Menéres
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma historia que não calam.
Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nos?
o que de nos pensarão?
As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.
Riem nos muros ao sol
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como as aves
e nem mais tarde regressam.
Brilham quando a chuva cai.
vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em ponte
que saiba matar a sede
Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.
As pedras falam? Pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.
Maria Alberta Menéres
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Painel
Terra lavrada e pintada
Com a ponta da charrua.
Tela nua
Colorida.
Onde um gesto compassado,
Sagrado,
Semeia a vida.
Miguel Torga
Com a ponta da charrua.
Tela nua
Colorida.
Onde um gesto compassado,
Sagrado,
Semeia a vida.
Miguel Torga
sábado, 24 de outubro de 2009
COMEÇO A CONHECER-ME. NÃO EXISTO
Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou a metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelos no corredor...
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo... é um universo barato.
Álvaro de Campos
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou a metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelos no corredor...
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo... é um universo barato.
Álvaro de Campos
INSTANTE
A cena é muda e breve:
Num lameiro
Um cordeiro
A pastar ao de leve;
Embevecida
A mãe ovelha deixa de remoer;
E a vida
Pára também, a ver.
Miguel Torga
Num lameiro
Um cordeiro
A pastar ao de leve;
Embevecida
A mãe ovelha deixa de remoer;
E a vida
Pára também, a ver.
Miguel Torga
sábado, 17 de outubro de 2009
NIHIL ET CONSOLAMENTUM
A esponja
O peso de uma esponja aumenta
Proporcionalmente ao número
De gotas de agua que ela
Absorve
Mas nenhuma esponja pode
Absorver
Toda a água deste mundo
Quando uma esponja esta
Saturada
Ninguém pode prever
O comportamento da água
Que ela já não absorve
Nem o comportamento
Do mundo
É preciso imaginar no entanto
Uma esponja que absorveria
Toda a água do mundo
Metê-la-íamos
No lugar do nosso lenço
No bolso do coração
Seria-mos o barco
Seria-mos o sal
Seria-mos
Todos os rios
Do mundo que desaguam
no céu
Uma esponja é
Como uma mala pura
Que conteria todos
Os nossos caminhos
Cada vez que nós
Compramos uma mala
Julgamos que ela
Vai diminuir o peso
Do necessário que
Arrumamos dentro
A mala ideal consiste em
Diminuir
O peso do que nós em ela
Transportamos
Até só pesar o seu
Peso de mala
Ou a vir a ser mais ligeira
Do que era
A partida
A ponto de nem mais existir
Numa esponja ideal
Pode-se
Arrumar inteiro o mar
Se a pomos no
No bolso do coração
Numa mala ideal
Pode-se arrumar todo
O universo
A tropa engolida das
Estrelas
Uma só formiga
Um só amor
Num poema
Pode-se arrumar
Todo futuro
Que desejaríamos
Fazer existir
L’esponga
Lo pés d’una esponga creis
Rapòrt amb la nombre
De gotas d’aiga
Que bèu
Mas cap d’esponga non pòt
Beure
Tota l’aiga del mond
Quand una esponga es
Confla
Degun pòt pás prevéser
L’anar de l’aiga
Que pòt pás mai beure
Ni mai l’anança
Del mond
Pr’aquò cal imaginar
L’esponga que beuriá
Tota l’aiga del mond
La botariam
En la placa del nòstre mocador
Al recanton del còr
Seriam batèl
Seriam sal
Seriam
Totes los flumis
Del mond que dins lo cèl
S’alargan
Una esponga es
Coma una maleta blosa
Que cabriá totes
Los nòstres camins
Cada còp que
Crompam una maleta
Cressem
Que dels afars
Qu’i estremam
Ne dermesirà lo pes
La maleta ideala permet
D’abaissar
Lo pés de çò
Qu’i carrejan
Fins a pesar sonque
Lo pés de la maleta
O de venir mai leugièra de çà
Qu’éra aperabans
Fins
A non pas existir mai
Dins una esponga ideala
Podem estremar
La mar tota
Se la placam dins lo sacon
Del cor
Una maleta ideala
Pòt caber tot
L’univèrs
La sòla aprefondida
De las estrelas
Una formiga soleta
Un sol amor
Dins un poema podem
Estremar
Tot l’avenidor
Que voldriam far
èsser
bâtons et poemes cathares
SERGE PEY
Délit Editions
O peso de uma esponja aumenta
Proporcionalmente ao número
De gotas de agua que ela
Absorve
Mas nenhuma esponja pode
Absorver
Toda a água deste mundo
Quando uma esponja esta
Saturada
Ninguém pode prever
O comportamento da água
Que ela já não absorve
Nem o comportamento
Do mundo
É preciso imaginar no entanto
Uma esponja que absorveria
Toda a água do mundo
Metê-la-íamos
No lugar do nosso lenço
No bolso do coração
Seria-mos o barco
Seria-mos o sal
Seria-mos
Todos os rios
Do mundo que desaguam
no céu
Uma esponja é
Como uma mala pura
Que conteria todos
Os nossos caminhos
Cada vez que nós
Compramos uma mala
Julgamos que ela
Vai diminuir o peso
Do necessário que
Arrumamos dentro
A mala ideal consiste em
Diminuir
O peso do que nós em ela
Transportamos
Até só pesar o seu
Peso de mala
Ou a vir a ser mais ligeira
Do que era
A partida
A ponto de nem mais existir
Numa esponja ideal
Pode-se
Arrumar inteiro o mar
Se a pomos no
No bolso do coração
Numa mala ideal
Pode-se arrumar todo
O universo
A tropa engolida das
Estrelas
Uma só formiga
Um só amor
Num poema
Pode-se arrumar
Todo futuro
Que desejaríamos
Fazer existir
L’esponga
Lo pés d’una esponga creis
Rapòrt amb la nombre
De gotas d’aiga
Que bèu
Mas cap d’esponga non pòt
Beure
Tota l’aiga del mond
Quand una esponga es
Confla
Degun pòt pás prevéser
L’anar de l’aiga
Que pòt pás mai beure
Ni mai l’anança
Del mond
Pr’aquò cal imaginar
L’esponga que beuriá
Tota l’aiga del mond
La botariam
En la placa del nòstre mocador
Al recanton del còr
Seriam batèl
Seriam sal
Seriam
Totes los flumis
Del mond que dins lo cèl
S’alargan
Una esponga es
Coma una maleta blosa
Que cabriá totes
Los nòstres camins
Cada còp que
Crompam una maleta
Cressem
Que dels afars
Qu’i estremam
Ne dermesirà lo pes
La maleta ideala permet
D’abaissar
Lo pés de çò
Qu’i carrejan
Fins a pesar sonque
Lo pés de la maleta
O de venir mai leugièra de çà
Qu’éra aperabans
Fins
A non pas existir mai
Dins una esponga ideala
Podem estremar
La mar tota
Se la placam dins lo sacon
Del cor
Una maleta ideala
Pòt caber tot
L’univèrs
La sòla aprefondida
De las estrelas
Una formiga soleta
Un sol amor
Dins un poema podem
Estremar
Tot l’avenidor
Que voldriam far
èsser
bâtons et poemes cathares
SERGE PEY
Délit Editions
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
A pulga
Um ponto somente
É este animal
Que pouco se vê
E muito se sente
E a gente não gosta
Da pulga
Porquê?
A pulga,
Afinal
Só de animais gosta
E gosta da gente.
A gente que o diga...
Gosta, morde e pica.
Mas que rica amiga!
Pica
Por ser má?
Pica por prazer?
Lá prazer terá.
Sabe-se isso bem...
Mas se a pulga pica,
É para comer,
Não mata ninguém
O pobre animal
Precisa de sangue...
Mas é natural
Que a gente zangue
Quem dera apanha-la
Mordê-la, pisa-la!
Vai a gente ver
E ela
Já se foi...
E sempre a morder.
Será que ela
Julga
Que aquilo não dói?
E assim a pulga
Maluca, malvada,
Mas tão pequenina,
Ladina, rabina,
Que acho engraçada
LEONEL NEVES
É este animal
Que pouco se vê
E muito se sente
E a gente não gosta
Da pulga
Porquê?
A pulga,
Afinal
Só de animais gosta
E gosta da gente.
A gente que o diga...
Gosta, morde e pica.
Mas que rica amiga!
Pica
Por ser má?
Pica por prazer?
Lá prazer terá.
Sabe-se isso bem...
Mas se a pulga pica,
É para comer,
Não mata ninguém
O pobre animal
Precisa de sangue...
Mas é natural
Que a gente zangue
Quem dera apanha-la
Mordê-la, pisa-la!
Vai a gente ver
E ela
Já se foi...
E sempre a morder.
Será que ela
Julga
Que aquilo não dói?
E assim a pulga
Maluca, malvada,
Mas tão pequenina,
Ladina, rabina,
Que acho engraçada
LEONEL NEVES
domingo, 27 de setembro de 2009
Na minha bicicleta
Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos,
pedalo nas palavras, atravesso as cidades
bato às portas das casas e vêm homens espantados
ouvir o meu canto, ouvir a minha canção.
Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
vem gente para a rua a ver a novidade
como se fosse a chegada
do João que foi a Índia
e era o moço mais galante
que havia nas redondezas
Eu não sou o João que foi à Índia
mas trago todos os soldados que partiram
e as cartas que não escreveram
e as saudades que tiveram
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.
Manuel Alegre
eu vou pelos caminhos,
pedalo nas palavras, atravesso as cidades
bato às portas das casas e vêm homens espantados
ouvir o meu canto, ouvir a minha canção.
Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
vem gente para a rua a ver a novidade
como se fosse a chegada
do João que foi a Índia
e era o moço mais galante
que havia nas redondezas
Eu não sou o João que foi à Índia
mas trago todos os soldados que partiram
e as cartas que não escreveram
e as saudades que tiveram
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.
Manuel Alegre
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
de Fernando Pessoa
Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é vivida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é vivida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
sábado, 29 de agosto de 2009
No comboio descendente
No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada
Uns por ver rir os outros
E os outros por tudo e por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada
No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela
No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão.
Fernando Pessoa
Vinha tudo à gargalhada
Uns por ver rir os outros
E os outros por tudo e por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada
No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela
No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão.
Fernando Pessoa
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Dia feriado
certo dia
ao meio-dia
à hora de ponta
um carro eléctrico
resolveu
fazer feriado
por sua conta...
Estou farto
farto de trabalhar
hoje quero ir passear
Dizem que se esta bem
no jardim de Belém
pois vou até lá
e vou já a correr
sem querer saber
do que possam dizer
nas paragens,
reinava a maior confusão.
seria alguma aflição?
Onde iria um eléctrico vazio
a correr naquele corrupio?
Quando chegou a Belém
o eléctrico
para não dar nas vistas
misturou-se com os turistas.
Visitou os monumentos
e ouviu uma guia
muito apressada
fazer da historia
grande baralhada.
deixou os turistas
e ainda bem
pois foi comer
pastéis de Belém
Comeu meia centena
com açúcar e canela
e depois voltou a passear
e foi ver o mar...
Ao cair a noite
regressou a Lisboa
pela beira-rio
sem um lugar vazio
e muito contente
como toda a gente
que de vez em quando
em vez de trabalhar
vai ler o mar...
Maria Cândida Mendonça
ao meio-dia
à hora de ponta
um carro eléctrico
resolveu
fazer feriado
por sua conta...
Estou farto
farto de trabalhar
hoje quero ir passear
Dizem que se esta bem
no jardim de Belém
pois vou até lá
e vou já a correr
sem querer saber
do que possam dizer
nas paragens,
reinava a maior confusão.
seria alguma aflição?
Onde iria um eléctrico vazio
a correr naquele corrupio?
Quando chegou a Belém
o eléctrico
para não dar nas vistas
misturou-se com os turistas.
Visitou os monumentos
e ouviu uma guia
muito apressada
fazer da historia
grande baralhada.
deixou os turistas
e ainda bem
pois foi comer
pastéis de Belém
Comeu meia centena
com açúcar e canela
e depois voltou a passear
e foi ver o mar...
Ao cair a noite
regressou a Lisboa
pela beira-rio
sem um lugar vazio
e muito contente
como toda a gente
que de vez em quando
em vez de trabalhar
vai ler o mar...
Maria Cândida Mendonça
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Destino
à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos
vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso
conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso
agora
que mais
me poderei vencer?
Mia Couto
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos
vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso
conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso
agora
que mais
me poderei vencer?
Mia Couto
domingo, 23 de agosto de 2009
Caracol
Bato à porta. Ninguém diz:
"Pode entrar", faça favor!"
Não há degrau, não há voz
Nem há fumo nem calor.
É a casa do caracol,
Não esta pintada a cal
E no entanto brilha ao sol
Na sua forma espiral.
Bato à porta, não há porta
Só um buraco profundo
Um túnel que há-de acabar
No centro daquele mundo.
O caracol foi-se embora
Porque mudou de espiral?
Porque foi mudar de casa
Sem recado nem sinal?
Maria Alberta Menéres
"Pode entrar", faça favor!"
Não há degrau, não há voz
Nem há fumo nem calor.
É a casa do caracol,
Não esta pintada a cal
E no entanto brilha ao sol
Na sua forma espiral.
Bato à porta, não há porta
Só um buraco profundo
Um túnel que há-de acabar
No centro daquele mundo.
O caracol foi-se embora
Porque mudou de espiral?
Porque foi mudar de casa
Sem recado nem sinal?
Maria Alberta Menéres
sábado, 22 de agosto de 2009
Caminhada
Nessa mata ninguém mata
a pata que vive ali
com duas patas de pata
pata acolá, pata aqui.
Pa ta que gosta de matas
visita as matas vizinhas
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.
E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata.
Sidónio Muralha
a pata que vive ali
com duas patas de pata
pata acolá, pata aqui.
Pa ta que gosta de matas
visita as matas vizinhas
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.
E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata.
Sidónio Muralha
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Pois eu gosto de crianças
Pois eu gosto de crianças!
Já fui criança também...
Não me lembro de o ter sido;
O que fui sabe-me bem.
É como se de repente
A minha imagem mudasse
No cristal de uma nascente
E tudo o que sou voltasse
À pureza da semente
Miguel Torga
Já fui criança também...
Não me lembro de o ter sido;
O que fui sabe-me bem.
É como se de repente
A minha imagem mudasse
No cristal de uma nascente
E tudo o que sou voltasse
À pureza da semente
Miguel Torga
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Afirmação

Hei-de cantar este sol este poente
esta terra lavrada pelo mar
este povo que amassa docemente
o pão espesso e escuro. Hei-de cantar
o eco das origens destas rochas
sólidas e puras. Deste chão em forma
de poema onde a nossa luz nascente
é a voz da manhã tépida e morna
hei-de cantar os búzios e as conchas. Areais
de corpos que se entregam. Acácias carmesim
divinizadas. Que mais
posso cantar?
Talvez o nada que há em mim…
Olinda Beja
in: Água Crioula
__._,_.___
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Jorge de Sena
Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos se voltassem.
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos se voltassem.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Sem Memória
Haverá para os dias sem memória
outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:
manhã rente às colinas,
a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilases do jardim.
Haverá outro nome para o lugar
onde não há lembrança de ti?
EUGÉNIO DE ANDRADE
outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:
manhã rente às colinas,
a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilases do jardim.
Haverá outro nome para o lugar
onde não há lembrança de ti?
EUGÉNIO DE ANDRADE
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Jacques Prévert
Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa! toda a gente se pode enganar!
disse o pássaro.
Jacques Prévert - Bairro Livre
Trad.: Eugénio de Andrade
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa! toda a gente se pode enganar!
disse o pássaro.
Jacques Prévert - Bairro Livre
Trad.: Eugénio de Andrade
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Bêbado Pintor
Alfredo Marceneiro
Composição: Alfredo Marceneiro
Encostado sem brio ao balcão da taberna
De nauseabunda cor e tábua carcomida
O bêbado pintor a lápis desenhou
O retrato fiel duma mulher perdida
Era noite invernosa e o vento desabrido
Num louco galopar ferozmente rugia,
Vergastando os pinhais, pelos campos corria,
Como um triste grilheta ao degredo fugido.
Num antro pestilento, infame e corrompido,
Imagem de bordel, cenário de caverna,
Vendia-se veneno à luz duma lanterna
À turba que se mata, ingerindo aguardente,
Estava um jovem pintor, atrofiando a mente,
Encostado sem brio ao balcão da taberna.
Rameiras das banais, num doido desafio,
Exploravam do artista a sua parca féria,
E ele na embriaguez do vinho e da miséria,
Cedia às tentações daquele mulherio.
Nem mesmo a própria luz nem mesmo o próprio frio,
Daquele vazadouro onde se queima a vida,
Faziam incutir à corja pervertida,
Um sentimento bom dÂ’amor e compaixão,
PÂ’lo ébrio que encostava a fronte ao vil balcão,
De nauseabunda cor e tábua carcomida.
Impudica mulher, perante o vil bulício
De copos tilintando e de boçais gracejos,
Agarrou-se ao rapaz, cobrindo-o de beijos,
Perguntando a sorrir, qual era o seu oficio,
Ele a cambalear, fazendo um sacrifício,
Lhe diz a profissão em que se iniciou,
Ela escutando tal, pedindo-lhe alcançou
Que então lhe desenhasse o rosto provocante,
E num sujo papel, o rosto da bacante
O bêbado pintor com um lápis desenhou.
Retocou o perfil e por baixo escreveu,
Numa legível letra o seu modesto nome,
Que um ébrio esfarrapado, com o rosto cheio de fome,
Com voz rascante e rouca à desgraçada leu,
Esta, louca de dor, para o jovem correu,
E beijando-lhe o rosto, abraço-o de seguida...
Era a mãe do pintor, e a turba comovida,
Pasma ante aquele quadro, original, estranho,
Enquanto o pobre artista amarfanha o desenho:
O retrato fiel duma mulher perdida.
Composição: Alfredo Marceneiro
Encostado sem brio ao balcão da taberna
De nauseabunda cor e tábua carcomida
O bêbado pintor a lápis desenhou
O retrato fiel duma mulher perdida
Era noite invernosa e o vento desabrido
Num louco galopar ferozmente rugia,
Vergastando os pinhais, pelos campos corria,
Como um triste grilheta ao degredo fugido.
Num antro pestilento, infame e corrompido,
Imagem de bordel, cenário de caverna,
Vendia-se veneno à luz duma lanterna
À turba que se mata, ingerindo aguardente,
Estava um jovem pintor, atrofiando a mente,
Encostado sem brio ao balcão da taberna.
Rameiras das banais, num doido desafio,
Exploravam do artista a sua parca féria,
E ele na embriaguez do vinho e da miséria,
Cedia às tentações daquele mulherio.
Nem mesmo a própria luz nem mesmo o próprio frio,
Daquele vazadouro onde se queima a vida,
Faziam incutir à corja pervertida,
Um sentimento bom dÂ’amor e compaixão,
PÂ’lo ébrio que encostava a fronte ao vil balcão,
De nauseabunda cor e tábua carcomida.
Impudica mulher, perante o vil bulício
De copos tilintando e de boçais gracejos,
Agarrou-se ao rapaz, cobrindo-o de beijos,
Perguntando a sorrir, qual era o seu oficio,
Ele a cambalear, fazendo um sacrifício,
Lhe diz a profissão em que se iniciou,
Ela escutando tal, pedindo-lhe alcançou
Que então lhe desenhasse o rosto provocante,
E num sujo papel, o rosto da bacante
O bêbado pintor com um lápis desenhou.
Retocou o perfil e por baixo escreveu,
Numa legível letra o seu modesto nome,
Que um ébrio esfarrapado, com o rosto cheio de fome,
Com voz rascante e rouca à desgraçada leu,
Esta, louca de dor, para o jovem correu,
E beijando-lhe o rosto, abraço-o de seguida...
Era a mãe do pintor, e a turba comovida,
Pasma ante aquele quadro, original, estranho,
Enquanto o pobre artista amarfanha o desenho:
O retrato fiel duma mulher perdida.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Pedagogia
Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!
Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser
Miguel Torga
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!
Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser
Miguel Torga
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Que noite serena!
Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!
Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.
Meu Deus, que fiz eu da vida?
Que noite serena, etc.
Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...
Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.
Álvaro de Campos
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!
Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.
Meu Deus, que fiz eu da vida?
Que noite serena, etc.
Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...
Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.
Álvaro de Campos
segunda-feira, 15 de junho de 2009
João Cândido da Silva Neto
Olhos que recitam poesias,
Brilho do mar emprestado,
Colibris esvoaçantes
se buscando
Lado a lado.
Visão multicolorida,
Janelas abertas da alma,
O real e o sublime
se defrontando
Na mesma calma.
Espelhos cristalinos prisioneiros
Que à moldura facial encantam;
Líquidos poemas que se transformam
em canção.
Esmeraldas lapidadas
Na singeleza de um sorriso cativante;
Sonhos que partem rumo ao infinito...
Mas retornam.
Brilho do mar emprestado,
Colibris esvoaçantes
se buscando
Lado a lado.
Visão multicolorida,
Janelas abertas da alma,
O real e o sublime
se defrontando
Na mesma calma.
Espelhos cristalinos prisioneiros
Que à moldura facial encantam;
Líquidos poemas que se transformam
em canção.
Esmeraldas lapidadas
Na singeleza de um sorriso cativante;
Sonhos que partem rumo ao infinito...
Mas retornam.
sábado, 6 de junho de 2009
Antero de Quental
Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vênus de cintura estreita
Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortas entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita.
A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que se dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino
E como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vênus de cintura estreita
Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortas entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita.
A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que se dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino
E como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo
Gosto quando te calas
Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.
Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.
Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.
Pablo Neruda
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.
Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.
Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.
Pablo Neruda
terça-feira, 19 de maio de 2009
Casa Velha
Rasgões em ameaça à coesão da cal, as plantas invasoras, vingativas, rejeitadas pela placidez dos bosques, as cores decadentes, tumulares, o sossobrar do prumo nas empenas, a desistência da onda nos beirais.
Há quem diga assim a casa velha.
A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.
Há quem diga assim a casa velha.
Licinia Quitério
Há quem diga assim a casa velha.
A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.
Há quem diga assim a casa velha.
Licinia Quitério
Adriana Calcanhoto
Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será que você está agora
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será que você está agora
sábado, 16 de maio de 2009
Elis Regina
Tem dias em que já se acorda cansado...
Do trânsito que não dá trégua.
Do trabalho repetitivo.
De ver na estante os mesmos livros.
De ter mais dívidas do que crédito.
De percorrer o mesmo caminho.
De aceitar as mesmas desculpas.
De acreditar nas mesmas mentiras.
De esperar por algo que não vem.
De ser sutil quando se deveria chutar o balde.
De ver repetidos os mesmos atos.
De seguir a mesma rotina.
De bater na mesma tecla.
De brigar pelos mesmos motivos.
De não jogar e, mesmo assim, perder.
De ser assombrado por fantasmas conhecidos.
De falar e não ser entendido.
De ouvir e entender errado.
De calar e mesmo assim querer ser compreendido.
De correr e continuar a ser perseguido.
De amar e ser gostado.
De achar que detém e ser detido.
De se esconder e nunca ser encontrado.
De escrever e não ser lido.
De ter um nó na garganta tão bem atado.
De conjugar o verbo na pessoa errada.
De se iludir.
De fingir que não entende meias palavras.
De calar a palavra que ofende e se sentir engasgado.
De respeitar todas as leis.
De ver o mesmo velho filme na TV.
De tentar e dar errado.
Tem dias em que se acorda cansado. Mas amanhã isso passa. Sempre passa
Do trânsito que não dá trégua.
Do trabalho repetitivo.
De ver na estante os mesmos livros.
De ter mais dívidas do que crédito.
De percorrer o mesmo caminho.
De aceitar as mesmas desculpas.
De acreditar nas mesmas mentiras.
De esperar por algo que não vem.
De ser sutil quando se deveria chutar o balde.
De ver repetidos os mesmos atos.
De seguir a mesma rotina.
De bater na mesma tecla.
De brigar pelos mesmos motivos.
De não jogar e, mesmo assim, perder.
De ser assombrado por fantasmas conhecidos.
De falar e não ser entendido.
De ouvir e entender errado.
De calar e mesmo assim querer ser compreendido.
De correr e continuar a ser perseguido.
De amar e ser gostado.
De achar que detém e ser detido.
De se esconder e nunca ser encontrado.
De escrever e não ser lido.
De ter um nó na garganta tão bem atado.
De conjugar o verbo na pessoa errada.
De se iludir.
De fingir que não entende meias palavras.
De calar a palavra que ofende e se sentir engasgado.
De respeitar todas as leis.
De ver o mesmo velho filme na TV.
De tentar e dar errado.
Tem dias em que se acorda cansado. Mas amanhã isso passa. Sempre passa
Nuno Judice
Quero escrever-te um poema que
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.
Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.
Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.
Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.
Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Parabens
BALADA DA SOCIEDADE DE CONSUMO
Eles cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia a sociedade de consumo.
Mas eles perguntavam e o homem? É só o que consomem
é só o homem e o seu sumo?
Onde está o homem? O homem? O homem?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia automóveis, frigoríficos, televisão
havia sociedades por acções.
Mas eles perguntavam: e o amor? É só solidão?
É só esta mobília a prestações?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia o verbo ser e o verbo ter
havia o não haver e o haver demais.
Mas eles perguntavam: e viver?
É só este não ser para ter mais?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Manuel Alegre
desde o 12 de Maio de 1936
Eles cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia a sociedade de consumo.
Mas eles perguntavam e o homem? É só o que consomem
é só o homem e o seu sumo?
Onde está o homem? O homem? O homem?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia automóveis, frigoríficos, televisão
havia sociedades por acções.
Mas eles perguntavam: e o amor? É só solidão?
É só esta mobília a prestações?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia o verbo ser e o verbo ter
havia o não haver e o haver demais.
Mas eles perguntavam: e viver?
É só este não ser para ter mais?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Manuel Alegre
desde o 12 de Maio de 1936
segunda-feira, 11 de maio de 2009
ANTONIO GEDEAO
Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguem
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguem
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Saudade
Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.
Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.
Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.
Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...
Pablo Neruda
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.
Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.
Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.
Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...
Pablo Neruda
quarta-feira, 6 de maio de 2009
O adiar
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
Álvaro de Campos
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
Álvaro de Campos
A Minha Saudade tem o Mar Aprisionado
A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.
José Jorge Letria
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.
José Jorge Letria
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Silêncio
Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz
terça-feira, 21 de abril de 2009
(Oscar Wilde, in "De Profundis")
Encontro, algures na minha natureza, alguma coisa que me diz que não há nada no mundo que seja desprovido de sentido, e muito menos o sofrimento. Essa qualquer coisa, escondida no mais fundo de mim, como um tesouro num campo, é a humildade. É a última coisa que me resta, e a melhor (...). Ela veio-me de dentro de mim mesmo e sei que veio no bom momento. Não teria podido vir mais cedo nem mais tarde. Se alguém me tivesse falado dela, tê-la-ia rejeitado. Se ma tivessem oferecido, tê-la-ia rejeitado (...). É a única coisa que contém os elementos da vida, de uma vida nova (...). Entre todas as coisas ela é a mais estranha (...). É somente quando perdemos todas as coisas, que sabemos que a possuímos.
Machado de Assis
Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!
Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!
Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!
segunda-feira, 20 de abril de 2009
AMOR VIVO
Amar! mas de um amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
D’uma doída cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar – delírios e desejos –
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?
Antero de Qental
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
D’uma doída cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar – delírios e desejos –
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?
Antero de Qental
sábado, 18 de abril de 2009
Crespúsculo
É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
David Mourão Ferreira
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
David Mourão Ferreira
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Álvaro de Campos
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...
terça-feira, 14 de abril de 2009
Surdo, Subterrâneo Rio
Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
Eugénio de Andrade
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
Eugénio de Andrade
quinta-feira, 2 de abril de 2009
GRACIAS À LA VIDA
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto
.
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
.
de Violeta Parra
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto
.
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
.
de Violeta Parra
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