sábado, 28 de novembro de 2009

Baixinho

Eu gosto de te ouvir, oh vento!
mas não andes agora a ramalhar
ao pé de mim.

Um só momento, vento, sossegado!
Deixa-me aqui afogado
no silêncio da mata...

Porque eu sinto a minh'alma a querer falar;
porém tão em segredo fala ela
que se continuas, vento, a ramalhar,
Não consigo entendê-la...

Sebastião da Gama

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Multidão

Esta gente que vai e vem
de cá para lá,
e de lá para cá
que se cruza comigo,
que esbarra comigo,
que tem com certeza
os seus dramas iguais aos meus
as suas esperanças iguais as minhas,
não sabe nada da minha vida,
nem eu sei nada dos seus segredos.
cada um segue absorto em si
como se fosse de olhos fechados
e não tivesse as mãos para dar
e outras mãos desamparadas

Armindo Rodrigues

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

De pedra e cal

De pedra e cal é a cidade
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras.

De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas.

De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas.

Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras.

Caminha devagar
Porque o chão é caiado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 1 de novembro de 2009

Certeza

Sereno o parque espera
Mostra os braços cortados
e sonha com primavera
Com os seus olhos gelados

É um mundo que há-de vir
Naquela fé dormente
Um sonho que há-de abrir
Em ninhos e semente

Basta que um novo sol
Desça de um velho céu
E diga ao rouxinol
Que a vida não morreu.

Miguel Torga

sábado, 31 de outubro de 2009

As pedras falam?

As pedras falam? Pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma historia que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nos?
o que de nos pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como as aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em ponte
que saiba matar a sede

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? Pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.

Maria Alberta Menéres

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Painel

Terra lavrada e pintada
Com a ponta da charrua.
Tela nua
Colorida.
Onde um gesto compassado,
Sagrado,
Semeia a vida.

Miguel Torga

sábado, 24 de outubro de 2009

COMEÇO A CONHECER-ME. NÃO EXISTO

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou a metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelos no corredor...
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo... é um universo barato.

Álvaro de Campos

INSTANTE

A cena é muda e breve:
Num lameiro
Um cordeiro
A pastar ao de leve;

Embevecida
A mãe ovelha deixa de remoer;
E a vida
Pára também, a ver.

Miguel Torga

sábado, 17 de outubro de 2009

NIHIL ET CONSOLAMENTUM

A esponja

O peso de uma esponja aumenta
Proporcionalmente ao número
De gotas de agua que ela
Absorve

Mas nenhuma esponja pode
Absorver
Toda a água deste mundo

Quando uma esponja esta
Saturada
Ninguém pode prever
O comportamento da água
Que ela já não absorve
Nem o comportamento
Do mundo

É preciso imaginar no entanto
Uma esponja que absorveria
Toda a água do mundo

Metê-la-íamos
No lugar do nosso lenço
No bolso do coração
Seria-mos o barco
Seria-mos o sal
Seria-mos
Todos os rios
Do mundo que desaguam
no céu
Uma esponja é
Como uma mala pura
Que conteria todos
Os nossos caminhos
Cada vez que nós
Compramos uma mala
Julgamos que ela
Vai diminuir o peso
Do necessário que
Arrumamos dentro

A mala ideal consiste em
Diminuir
O peso do que nós em ela
Transportamos
Até só pesar o seu
Peso de mala
Ou a vir a ser mais ligeira
Do que era
A partida
A ponto de nem mais existir

Numa esponja ideal
Pode-se
Arrumar inteiro o mar
Se a pomos no
No bolso do coração
Numa mala ideal
Pode-se arrumar todo
O universo
A tropa engolida das
Estrelas
Uma só formiga
Um só amor

Num poema
Pode-se arrumar
Todo futuro
Que desejaríamos
Fazer existir




L’esponga

Lo pés d’una esponga creis
Rapòrt amb la nombre
De gotas d’aiga
Que bèu

Mas cap d’esponga non pòt
Beure
Tota l’aiga del mond

Quand una esponga es
Confla
Degun pòt pás prevéser
L’anar de l’aiga
Que pòt pás mai beure
Ni mai l’anança
Del mond

Pr’aquò cal imaginar
L’esponga que beuriá
Tota l’aiga del mond


La botariam
En la placa del nòstre mocador
Al recanton del còr
Seriam batèl
Seriam sal
Seriam
Totes los flumis
Del mond que dins lo cèl
S’alargan
Una esponga es
Coma una maleta blosa
Que cabriá totes
Los nòstres camins
Cada còp que
Crompam una maleta
Cressem
Que dels afars
Qu’i estremam
Ne dermesirà lo pes

La maleta ideala permet
D’abaissar
Lo pés de çò
Qu’i carrejan
Fins a pesar sonque
Lo pés de la maleta
O de venir mai leugièra de çà
Qu’éra aperabans
Fins
A non pas existir mai

Dins una esponga ideala
Podem estremar
La mar tota
Se la placam dins lo sacon
Del cor
Una maleta ideala
Pòt caber tot
L’univèrs
La sòla aprefondida
De las estrelas
Una formiga soleta
Un sol amor

Dins un poema podem
Estremar
Tot l’avenidor
Que voldriam far
èsser


bâtons et poemes cathares
SERGE PEY
Délit Editions

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A pulga

Um ponto somente
É este animal
Que pouco se vê
E muito se sente

E a gente não gosta
Da pulga
Porquê?
A pulga,
Afinal
Só de animais gosta
E gosta da gente.

A gente que o diga...
Gosta, morde e pica.
Mas que rica amiga!

Pica
Por ser má?
Pica por prazer?
Lá prazer terá.
Sabe-se isso bem...
Mas se a pulga pica,
É para comer,
Não mata ninguém
O pobre animal
Precisa de sangue...
Mas é natural
Que a gente zangue
Quem dera apanha-la
Mordê-la, pisa-la!

Vai a gente ver
E ela
Já se foi...
E sempre a morder.

Será que ela
Julga
Que aquilo não dói?

E assim a pulga
Maluca, malvada,
Mas tão pequenina,
Ladina, rabina,
Que acho engraçada

LEONEL NEVES

domingo, 27 de setembro de 2009

Na minha bicicleta

Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos,
pedalo nas palavras, atravesso as cidades
bato às portas das casas e vêm homens espantados
ouvir o meu canto, ouvir a minha canção.

Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
vem gente para a rua a ver a novidade
como se fosse a chegada
do João que foi a Índia
e era o moço mais galante
que havia nas redondezas
Eu não sou o João que foi à Índia
mas trago todos os soldados que partiram
e as cartas que não escreveram
e as saudades que tiveram
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.

Manuel Alegre

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

de Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é vivida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

sábado, 29 de agosto de 2009

No comboio descendente

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada
Uns por ver rir os outros
E os outros por tudo e por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada

No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Dia feriado

certo dia
ao meio-dia
à hora de ponta
um carro eléctrico
resolveu
fazer feriado
por sua conta...

Estou farto
farto de trabalhar
hoje quero ir passear

Dizem que se esta bem
no jardim de Belém
pois vou até lá
e vou já a correr
sem querer saber
do que possam dizer

nas paragens,
reinava a maior confusão.
seria alguma aflição?
Onde iria um eléctrico vazio
a correr naquele corrupio?

Quando chegou a Belém
o eléctrico
para não dar nas vistas
misturou-se com os turistas.

Visitou os monumentos
e ouviu uma guia
muito apressada
fazer da historia
grande baralhada.

deixou os turistas
e ainda bem
pois foi comer
pastéis de Belém

Comeu meia centena
com açúcar e canela
e depois voltou a passear
e foi ver o mar...
Ao cair a noite
regressou a Lisboa
pela beira-rio
sem um lugar vazio
e muito contente
como toda a gente
que de vez em quando
em vez de trabalhar
vai ler o mar...

Maria Cândida Mendonça

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

Mia Couto

domingo, 23 de agosto de 2009

Caracol

Bato à porta. Ninguém diz:
"Pode entrar", faça favor!"
Não há degrau, não há voz
Nem há fumo nem calor.

É a casa do caracol,
Não esta pintada a cal
E no entanto brilha ao sol
Na sua forma espiral.

Bato à porta, não há porta
Só um buraco profundo
Um túnel que há-de acabar
No centro daquele mundo.

O caracol foi-se embora
Porque mudou de espiral?
Porque foi mudar de casa
Sem recado nem sinal?

Maria Alberta Menéres

sábado, 22 de agosto de 2009

Caminhada

Nessa mata ninguém mata
a pata que vive ali
com duas patas de pata
pata acolá, pata aqui.

Pa ta que gosta de matas
visita as matas vizinhas
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.

E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata.

Sidónio Muralha

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pois eu gosto de crianças

Pois eu gosto de crianças!
Já fui criança também...
Não me lembro de o ter sido;
O que fui sabe-me bem.

É como se de repente
A minha imagem mudasse
No cristal de uma nascente
E tudo o que sou voltasse
À pureza da semente

Miguel Torga

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Afirmação




Hei-de cantar este sol este poente
esta terra lavrada pelo mar
este povo que amassa docemente
o pão espesso e escuro. Hei-de cantar
o eco das origens destas rochas
sólidas e puras. Deste chão em forma
de poema onde a nossa luz nascente
é a voz da manhã tépida e morna


hei-de cantar os búzios e as conchas. Areais
de corpos que se entregam. Acácias carmesim
divinizadas. Que mais
posso cantar?

Talvez o nada que há em mim…





Olinda Beja
in: Água Crioula


__._,_.___

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Jorge de Sena

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos se voltassem.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sem Memória

Haverá para os dias sem memória

outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:
manhã rente às colinas,
a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilases do jardim.
Haverá outro nome para o lugar
onde não há lembrança de ti?

EUGÉNIO DE ANDRADE

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Jacques Prévert

Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa! toda a gente se pode enganar!
disse o pássaro.

Jacques Prévert - Bairro Livre


Trad.: Eugénio de Andrade

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Bêbado Pintor

Alfredo Marceneiro
Composição: Alfredo Marceneiro

Encostado sem brio ao balcão da taberna
De nauseabunda cor e tábua carcomida
O bêbado pintor a lápis desenhou
O retrato fiel duma mulher perdida

Era noite invernosa e o vento desabrido
Num louco galopar ferozmente rugia,
Vergastando os pinhais, pelos campos corria,
Como um triste grilheta ao degredo fugido.
Num antro pestilento, infame e corrompido,
Imagem de bordel, cenário de caverna,
Vendia-se veneno à luz duma lanterna
À turba que se mata, ingerindo aguardente,
Estava um jovem pintor, atrofiando a mente,
Encostado sem brio ao balcão da taberna.


Rameiras das banais, num doido desafio,
Exploravam do artista a sua parca féria,
E ele na embriaguez do vinho e da miséria,
Cedia às tentações daquele mulherio.
Nem mesmo a própria luz nem mesmo o próprio frio,
Daquele vazadouro onde se queima a vida,
Faziam incutir à corja pervertida,
Um sentimento bom dÂ’amor e compaixão,
PÂ’lo ébrio que encostava a fronte ao vil balcão,
De nauseabunda cor e tábua carcomida.


Impudica mulher, perante o vil bulício
De copos tilintando e de boçais gracejos,
Agarrou-se ao rapaz, cobrindo-o de beijos,
Perguntando a sorrir, qual era o seu oficio,
Ele a cambalear, fazendo um sacrifício,
Lhe diz a profissão em que se iniciou,
Ela escutando tal, pedindo-lhe alcançou
Que então lhe desenhasse o rosto provocante,
E num sujo papel, o rosto da bacante
O bêbado pintor com um lápis desenhou.


Retocou o perfil e por baixo escreveu,
Numa legível letra o seu modesto nome,
Que um ébrio esfarrapado, com o rosto cheio de fome,
Com voz rascante e rouca à desgraçada leu,
Esta, louca de dor, para o jovem correu,
E beijando-lhe o rosto, abraço-o de seguida...
Era a mãe do pintor, e a turba comovida,
Pasma ante aquele quadro, original, estranho,
Enquanto o pobre artista amarfanha o desenho:
O retrato fiel duma mulher perdida.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Pedagogia

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser

Miguel Torga

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Que noite serena!

Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.

Meu Deus, que fiz eu da vida?

Que noite serena, etc.

Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...

Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.


Álvaro de Campos

segunda-feira, 15 de junho de 2009

João Cândido da Silva Neto

Olhos que recitam poesias,
Brilho do mar emprestado,
Colibris esvoaçantes
se buscando
Lado a lado.

Visão multicolorida,
Janelas abertas da alma,
O real e o sublime
se defrontando
Na mesma calma.

Espelhos cristalinos prisioneiros
Que à moldura facial encantam;
Líquidos poemas que se transformam
em canção.

Esmeraldas lapidadas
Na singeleza de um sorriso cativante;
Sonhos que partem rumo ao infinito...
Mas retornam.

sábado, 6 de junho de 2009

Antero de Quental

Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vênus de cintura estreita

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortas entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita.

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que se dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino

E como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo

Gosto quando te calas

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.

Pablo Neruda

terça-feira, 19 de maio de 2009

Casa Velha

Rasgões em ameaça à coesão da cal, as plantas invasoras, vingativas, rejeitadas pela placidez dos bosques, as cores decadentes, tumulares, o sossobrar do prumo nas empenas, a desistência da onda nos beirais.

Há quem diga assim a casa velha.

A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.

Há quem diga assim a casa velha.

Licinia Quitério

Adriana Calcanhoto

Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será que você está agora

sábado, 16 de maio de 2009

Elis Regina

Tem dias em que já se acorda cansado...

Do trânsito que não dá trégua.
Do trabalho repetitivo.
De ver na estante os mesmos livros.
De ter mais dívidas do que crédito.
De percorrer o mesmo caminho.
De aceitar as mesmas desculpas.
De acreditar nas mesmas mentiras.
De esperar por algo que não vem.
De ser sutil quando se deveria chutar o balde.
De ver repetidos os mesmos atos.
De seguir a mesma rotina.
De bater na mesma tecla.
De brigar pelos mesmos motivos.
De não jogar e, mesmo assim, perder.
De ser assombrado por fantasmas conhecidos.
De falar e não ser entendido.
De ouvir e entender errado.
De calar e mesmo assim querer ser compreendido.
De correr e continuar a ser perseguido.
De amar e ser gostado.
De achar que detém e ser detido.
De se esconder e nunca ser encontrado.
De escrever e não ser lido.
De ter um nó na garganta tão bem atado.
De conjugar o verbo na pessoa errada.
De se iludir.
De fingir que não entende meias palavras.
De calar a palavra que ofende e se sentir engasgado.
De respeitar todas as leis.
De ver o mesmo velho filme na TV.
De tentar e dar errado.

Tem dias em que se acorda cansado. Mas amanhã isso passa. Sempre passa

Nuno Judice

Quero escrever-te um poema que

tenha um sentido claro como o

que os teus olhos me disseram.

Poderia ser um poema de amor,

tão breve como o instante em

que me deixaste ver os teus olhos.

Mas o que os olhos dizem não cabe

num poema, nem eu sei como se diz

o amor que só os olhos conhecem.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Parabens

BALADA DA SOCIEDADE DE CONSUMO



Eles cantavam nas margens dos grandes rios.



Havia a sociedade de consumo.

Mas eles perguntavam e o homem? É só o que consomem

é só o homem e o seu sumo?

Onde está o homem? O homem? O homem?



E cantavam nas margens dos grandes rios.



Havia automóveis, frigoríficos, televisão

havia sociedades por acções.

Mas eles perguntavam: e o amor? É só solidão?

É só esta mobília a prestações?



E cantavam nas margens dos grandes rios.



Havia o verbo ser e o verbo ter

havia o não haver e o haver demais.

Mas eles perguntavam: e viver?

É só este não ser para ter mais?



E cantavam nas margens dos grandes rios.



Manuel Alegre

desde o 12 de Maio de 1936

segunda-feira, 11 de maio de 2009

ANTONIO GEDEAO

Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.



Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros nada explicam:

Arrefecem



Nesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de outro se refracta,

nehum ser nós se transmite.



Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.



Dão-se os lábios, dão-se os braços

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, e dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.



Mas este íntimo secreto

que no silêncio concreto,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

este ser-se sem disfarçe,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se, e desflorar-se,

é nosso de mais ninguem

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Saudade

Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...

Pablo Neruda

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O adiar

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos

A Minha Saudade tem o Mar Aprisionado

A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

José Jorge Letria

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Silêncio

Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

Octavio Paz

terça-feira, 21 de abril de 2009

(Oscar Wilde, in "De Profundis")

Encontro, algures na minha natureza, alguma coisa que me diz que não há nada no mundo que seja desprovido de sentido, e muito menos o sofrimento. Essa qualquer coisa, escondida no mais fundo de mim, como um tesouro num campo, é a humildade. É a última coisa que me resta, e a melhor (...). Ela veio-me de dentro de mim mesmo e sei que veio no bom momento. Não teria podido vir mais cedo nem mais tarde. Se alguém me tivesse falado dela, tê-la-ia rejeitado. Se ma tivessem oferecido, tê-la-ia rejeitado (...). É a única coisa que contém os elementos da vida, de uma vida nova (...). Entre todas as coisas ela é a mais estranha (...). É somente quando perdemos todas as coisas, que sabemos que a possuímos.

Machado de Assis

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

AMOR VIVO

Amar! mas de um amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
D’uma doída cabeça escandecida...

Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar – delírios e desejos –

Mas amor... dos amores que têm vida...

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?

Antero de Qental

sábado, 18 de abril de 2009

Crespúsculo

É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.

David Mourão Ferreira

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Álvaro de Campos

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.

Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Surdo, Subterrâneo Rio

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 2 de abril de 2009

GRACIAS À LA VIDA

Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto
.
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
.
de Violeta Parra

sábado, 21 de março de 2009

DISSE-TE ADEUS, E MORRI (fado)

Disse-te adeus e morri

E o cais, vazio de ti,

Aceitou novas marés.

Gritos de búzios perdidos

Roubaram dos meus sentidos

A gaivota que tu és.



Gaivota de asas paradas

Que não sente as madrugadas

E acorda à noite a chorar,

Gaivota que faz o ninho

Porque perdeu o caminho

Onde aprendeu a sonhar.



Presa no ventre do mar

O meu triste respirar

Sofre a invenção das horas,

Pois na ausencia que deixaste,

Meu amor, como ficaste,

Meu amor, como demoras!






Autores: Vasco de Lima Couto/ José António Sabrosa

sexta-feira, 20 de março de 2009

Rumo

Rumo


É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra ...


Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!


Vamos, companheiro ...
É tempo!


Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!


Vamos!
que outro oceano nos inflama.. .
Ouves?
É a Terra que nos chama ...
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...


ALDA LARA

quinta-feira, 19 de março de 2009

Eu E Ela

Coberto de folhagem, na verdura,

O teu braço ao redor do meu pescoço,

O teu fato sem ter um só destroço,

O meu braço apertando-te a cintura:



Num mimoso jardim, ó pomba mansa

Sobre um banco de mármore assentados.

Na sombra dos arbustos, que abraçados

Beijarão meigamente a tua trança.



Nós havemos de estar ambos unidos,

Sem gozos sensuais, sem más ideias,

Esquecendo para sempre as nossas ceias

E a loucura dos vinhos atrevidos.



Não teremos então sobre os joelhos

Um livro que nos diga muitas cousas

Dos mistérios que estão para além das lousas

Onde havemos de entrar antes de velhos.



Outras vezes buscando distracção

Leremos bons romances galhofeiros.

Gozaremos assim dias inteiros

Formando unicamente um coração.



Beatos ou pagãos, vida à paxá,

Nós leremos, aceita este meu voto,

O Flos-Sanctorum místico e devoto

E o laxo Cavalheiro de Faublas.

CESARIO VERDE

quarta-feira, 18 de março de 2009

Eugénio de Andrade

As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")

terça-feira, 17 de março de 2009

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos

E sem medo nem dó nos destruímos,

Se morremos em tudo o que sentimos

E podemos cantar, é porque estamos

Nus em sangue, embalando a própria dor

Em frente às madrugadas do amor.

Quando a manhã brilhar refloriremos

E a alma possuirá esse esplendor

Prometido nas formas que perdemos.



Sophia de Mello Breyner Andresen