Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos se voltassem.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Sem Memória
Haverá para os dias sem memória
outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:
manhã rente às colinas,
a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilases do jardim.
Haverá outro nome para o lugar
onde não há lembrança de ti?
EUGÉNIO DE ANDRADE
outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:
manhã rente às colinas,
a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilases do jardim.
Haverá outro nome para o lugar
onde não há lembrança de ti?
EUGÉNIO DE ANDRADE
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Jacques Prévert
Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa! toda a gente se pode enganar!
disse o pássaro.
Jacques Prévert - Bairro Livre
Trad.: Eugénio de Andrade
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa! toda a gente se pode enganar!
disse o pássaro.
Jacques Prévert - Bairro Livre
Trad.: Eugénio de Andrade
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Bêbado Pintor
Alfredo Marceneiro
Composição: Alfredo Marceneiro
Encostado sem brio ao balcão da taberna
De nauseabunda cor e tábua carcomida
O bêbado pintor a lápis desenhou
O retrato fiel duma mulher perdida
Era noite invernosa e o vento desabrido
Num louco galopar ferozmente rugia,
Vergastando os pinhais, pelos campos corria,
Como um triste grilheta ao degredo fugido.
Num antro pestilento, infame e corrompido,
Imagem de bordel, cenário de caverna,
Vendia-se veneno à luz duma lanterna
À turba que se mata, ingerindo aguardente,
Estava um jovem pintor, atrofiando a mente,
Encostado sem brio ao balcão da taberna.
Rameiras das banais, num doido desafio,
Exploravam do artista a sua parca féria,
E ele na embriaguez do vinho e da miséria,
Cedia às tentações daquele mulherio.
Nem mesmo a própria luz nem mesmo o próprio frio,
Daquele vazadouro onde se queima a vida,
Faziam incutir à corja pervertida,
Um sentimento bom dÂ’amor e compaixão,
PÂ’lo ébrio que encostava a fronte ao vil balcão,
De nauseabunda cor e tábua carcomida.
Impudica mulher, perante o vil bulício
De copos tilintando e de boçais gracejos,
Agarrou-se ao rapaz, cobrindo-o de beijos,
Perguntando a sorrir, qual era o seu oficio,
Ele a cambalear, fazendo um sacrifício,
Lhe diz a profissão em que se iniciou,
Ela escutando tal, pedindo-lhe alcançou
Que então lhe desenhasse o rosto provocante,
E num sujo papel, o rosto da bacante
O bêbado pintor com um lápis desenhou.
Retocou o perfil e por baixo escreveu,
Numa legível letra o seu modesto nome,
Que um ébrio esfarrapado, com o rosto cheio de fome,
Com voz rascante e rouca à desgraçada leu,
Esta, louca de dor, para o jovem correu,
E beijando-lhe o rosto, abraço-o de seguida...
Era a mãe do pintor, e a turba comovida,
Pasma ante aquele quadro, original, estranho,
Enquanto o pobre artista amarfanha o desenho:
O retrato fiel duma mulher perdida.
Composição: Alfredo Marceneiro
Encostado sem brio ao balcão da taberna
De nauseabunda cor e tábua carcomida
O bêbado pintor a lápis desenhou
O retrato fiel duma mulher perdida
Era noite invernosa e o vento desabrido
Num louco galopar ferozmente rugia,
Vergastando os pinhais, pelos campos corria,
Como um triste grilheta ao degredo fugido.
Num antro pestilento, infame e corrompido,
Imagem de bordel, cenário de caverna,
Vendia-se veneno à luz duma lanterna
À turba que se mata, ingerindo aguardente,
Estava um jovem pintor, atrofiando a mente,
Encostado sem brio ao balcão da taberna.
Rameiras das banais, num doido desafio,
Exploravam do artista a sua parca féria,
E ele na embriaguez do vinho e da miséria,
Cedia às tentações daquele mulherio.
Nem mesmo a própria luz nem mesmo o próprio frio,
Daquele vazadouro onde se queima a vida,
Faziam incutir à corja pervertida,
Um sentimento bom dÂ’amor e compaixão,
PÂ’lo ébrio que encostava a fronte ao vil balcão,
De nauseabunda cor e tábua carcomida.
Impudica mulher, perante o vil bulício
De copos tilintando e de boçais gracejos,
Agarrou-se ao rapaz, cobrindo-o de beijos,
Perguntando a sorrir, qual era o seu oficio,
Ele a cambalear, fazendo um sacrifício,
Lhe diz a profissão em que se iniciou,
Ela escutando tal, pedindo-lhe alcançou
Que então lhe desenhasse o rosto provocante,
E num sujo papel, o rosto da bacante
O bêbado pintor com um lápis desenhou.
Retocou o perfil e por baixo escreveu,
Numa legível letra o seu modesto nome,
Que um ébrio esfarrapado, com o rosto cheio de fome,
Com voz rascante e rouca à desgraçada leu,
Esta, louca de dor, para o jovem correu,
E beijando-lhe o rosto, abraço-o de seguida...
Era a mãe do pintor, e a turba comovida,
Pasma ante aquele quadro, original, estranho,
Enquanto o pobre artista amarfanha o desenho:
O retrato fiel duma mulher perdida.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Pedagogia
Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!
Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser
Miguel Torga
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!
Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser
Miguel Torga
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Que noite serena!
Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!
Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.
Meu Deus, que fiz eu da vida?
Que noite serena, etc.
Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...
Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.
Álvaro de Campos
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!
Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.
Meu Deus, que fiz eu da vida?
Que noite serena, etc.
Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...
Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.
Álvaro de Campos
segunda-feira, 15 de junho de 2009
João Cândido da Silva Neto
Olhos que recitam poesias,
Brilho do mar emprestado,
Colibris esvoaçantes
se buscando
Lado a lado.
Visão multicolorida,
Janelas abertas da alma,
O real e o sublime
se defrontando
Na mesma calma.
Espelhos cristalinos prisioneiros
Que à moldura facial encantam;
Líquidos poemas que se transformam
em canção.
Esmeraldas lapidadas
Na singeleza de um sorriso cativante;
Sonhos que partem rumo ao infinito...
Mas retornam.
Brilho do mar emprestado,
Colibris esvoaçantes
se buscando
Lado a lado.
Visão multicolorida,
Janelas abertas da alma,
O real e o sublime
se defrontando
Na mesma calma.
Espelhos cristalinos prisioneiros
Que à moldura facial encantam;
Líquidos poemas que se transformam
em canção.
Esmeraldas lapidadas
Na singeleza de um sorriso cativante;
Sonhos que partem rumo ao infinito...
Mas retornam.
sábado, 6 de junho de 2009
Antero de Quental
Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vênus de cintura estreita
Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortas entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita.
A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que se dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino
E como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vênus de cintura estreita
Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortas entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita.
A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que se dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino
E como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo
Gosto quando te calas
Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.
Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.
Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.
Pablo Neruda
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.
Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.
Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.
Pablo Neruda
terça-feira, 19 de maio de 2009
Casa Velha
Rasgões em ameaça à coesão da cal, as plantas invasoras, vingativas, rejeitadas pela placidez dos bosques, as cores decadentes, tumulares, o sossobrar do prumo nas empenas, a desistência da onda nos beirais.
Há quem diga assim a casa velha.
A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.
Há quem diga assim a casa velha.
Licinia Quitério
Há quem diga assim a casa velha.
A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.
Há quem diga assim a casa velha.
Licinia Quitério
Adriana Calcanhoto
Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será que você está agora
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será que você está agora
sábado, 16 de maio de 2009
Elis Regina
Tem dias em que já se acorda cansado...
Do trânsito que não dá trégua.
Do trabalho repetitivo.
De ver na estante os mesmos livros.
De ter mais dívidas do que crédito.
De percorrer o mesmo caminho.
De aceitar as mesmas desculpas.
De acreditar nas mesmas mentiras.
De esperar por algo que não vem.
De ser sutil quando se deveria chutar o balde.
De ver repetidos os mesmos atos.
De seguir a mesma rotina.
De bater na mesma tecla.
De brigar pelos mesmos motivos.
De não jogar e, mesmo assim, perder.
De ser assombrado por fantasmas conhecidos.
De falar e não ser entendido.
De ouvir e entender errado.
De calar e mesmo assim querer ser compreendido.
De correr e continuar a ser perseguido.
De amar e ser gostado.
De achar que detém e ser detido.
De se esconder e nunca ser encontrado.
De escrever e não ser lido.
De ter um nó na garganta tão bem atado.
De conjugar o verbo na pessoa errada.
De se iludir.
De fingir que não entende meias palavras.
De calar a palavra que ofende e se sentir engasgado.
De respeitar todas as leis.
De ver o mesmo velho filme na TV.
De tentar e dar errado.
Tem dias em que se acorda cansado. Mas amanhã isso passa. Sempre passa
Do trânsito que não dá trégua.
Do trabalho repetitivo.
De ver na estante os mesmos livros.
De ter mais dívidas do que crédito.
De percorrer o mesmo caminho.
De aceitar as mesmas desculpas.
De acreditar nas mesmas mentiras.
De esperar por algo que não vem.
De ser sutil quando se deveria chutar o balde.
De ver repetidos os mesmos atos.
De seguir a mesma rotina.
De bater na mesma tecla.
De brigar pelos mesmos motivos.
De não jogar e, mesmo assim, perder.
De ser assombrado por fantasmas conhecidos.
De falar e não ser entendido.
De ouvir e entender errado.
De calar e mesmo assim querer ser compreendido.
De correr e continuar a ser perseguido.
De amar e ser gostado.
De achar que detém e ser detido.
De se esconder e nunca ser encontrado.
De escrever e não ser lido.
De ter um nó na garganta tão bem atado.
De conjugar o verbo na pessoa errada.
De se iludir.
De fingir que não entende meias palavras.
De calar a palavra que ofende e se sentir engasgado.
De respeitar todas as leis.
De ver o mesmo velho filme na TV.
De tentar e dar errado.
Tem dias em que se acorda cansado. Mas amanhã isso passa. Sempre passa
Nuno Judice
Quero escrever-te um poema que
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.
Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.
Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.
Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.
Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Parabens
BALADA DA SOCIEDADE DE CONSUMO
Eles cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia a sociedade de consumo.
Mas eles perguntavam e o homem? É só o que consomem
é só o homem e o seu sumo?
Onde está o homem? O homem? O homem?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia automóveis, frigoríficos, televisão
havia sociedades por acções.
Mas eles perguntavam: e o amor? É só solidão?
É só esta mobília a prestações?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia o verbo ser e o verbo ter
havia o não haver e o haver demais.
Mas eles perguntavam: e viver?
É só este não ser para ter mais?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Manuel Alegre
desde o 12 de Maio de 1936
Eles cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia a sociedade de consumo.
Mas eles perguntavam e o homem? É só o que consomem
é só o homem e o seu sumo?
Onde está o homem? O homem? O homem?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia automóveis, frigoríficos, televisão
havia sociedades por acções.
Mas eles perguntavam: e o amor? É só solidão?
É só esta mobília a prestações?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Havia o verbo ser e o verbo ter
havia o não haver e o haver demais.
Mas eles perguntavam: e viver?
É só este não ser para ter mais?
E cantavam nas margens dos grandes rios.
Manuel Alegre
desde o 12 de Maio de 1936
segunda-feira, 11 de maio de 2009
ANTONIO GEDEAO
Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguem
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguem
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Saudade
Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.
Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.
Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.
Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...
Pablo Neruda
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.
Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.
Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.
Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...
Pablo Neruda
quarta-feira, 6 de maio de 2009
O adiar
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
Álvaro de Campos
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
Álvaro de Campos
A Minha Saudade tem o Mar Aprisionado
A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.
José Jorge Letria
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.
José Jorge Letria
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Silêncio
Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz
terça-feira, 21 de abril de 2009
(Oscar Wilde, in "De Profundis")
Encontro, algures na minha natureza, alguma coisa que me diz que não há nada no mundo que seja desprovido de sentido, e muito menos o sofrimento. Essa qualquer coisa, escondida no mais fundo de mim, como um tesouro num campo, é a humildade. É a última coisa que me resta, e a melhor (...). Ela veio-me de dentro de mim mesmo e sei que veio no bom momento. Não teria podido vir mais cedo nem mais tarde. Se alguém me tivesse falado dela, tê-la-ia rejeitado. Se ma tivessem oferecido, tê-la-ia rejeitado (...). É a única coisa que contém os elementos da vida, de uma vida nova (...). Entre todas as coisas ela é a mais estranha (...). É somente quando perdemos todas as coisas, que sabemos que a possuímos.
Machado de Assis
Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!
Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!
Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!
segunda-feira, 20 de abril de 2009
AMOR VIVO
Amar! mas de um amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
D’uma doída cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar – delírios e desejos –
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?
Antero de Qental
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
D’uma doída cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar – delírios e desejos –
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?
Antero de Qental
sábado, 18 de abril de 2009
Crespúsculo
É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
David Mourão Ferreira
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
David Mourão Ferreira
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Álvaro de Campos
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...
terça-feira, 14 de abril de 2009
Surdo, Subterrâneo Rio
Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
Eugénio de Andrade
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
Eugénio de Andrade
quinta-feira, 2 de abril de 2009
GRACIAS À LA VIDA
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto
.
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
.
de Violeta Parra
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto
.
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
.
de Violeta Parra
sábado, 21 de março de 2009
DISSE-TE ADEUS, E MORRI (fado)
Disse-te adeus e morri
E o cais, vazio de ti,
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos
Roubaram dos meus sentidos
A gaivota que tu és.
Gaivota de asas paradas
Que não sente as madrugadas
E acorda à noite a chorar,
Gaivota que faz o ninho
Porque perdeu o caminho
Onde aprendeu a sonhar.
Presa no ventre do mar
O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas,
Pois na ausencia que deixaste,
Meu amor, como ficaste,
Meu amor, como demoras!
Autores: Vasco de Lima Couto/ José António Sabrosa
E o cais, vazio de ti,
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos
Roubaram dos meus sentidos
A gaivota que tu és.
Gaivota de asas paradas
Que não sente as madrugadas
E acorda à noite a chorar,
Gaivota que faz o ninho
Porque perdeu o caminho
Onde aprendeu a sonhar.
Presa no ventre do mar
O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas,
Pois na ausencia que deixaste,
Meu amor, como ficaste,
Meu amor, como demoras!
Autores: Vasco de Lima Couto/ José António Sabrosa
sexta-feira, 20 de março de 2009
Rumo
Rumo
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra ...
Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!
Vamos, companheiro ...
É tempo!
Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!
Vamos!
que outro oceano nos inflama.. .
Ouves?
É a Terra que nos chama ...
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
ALDA LARA
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra ...
Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!
Vamos, companheiro ...
É tempo!
Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!
Vamos!
que outro oceano nos inflama.. .
Ouves?
É a Terra que nos chama ...
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
ALDA LARA
quinta-feira, 19 de março de 2009
Eu E Ela
Coberto de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura:
Num mimoso jardim, ó pomba mansa
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados
Beijarão meigamente a tua trança.
Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias
E a loucura dos vinhos atrevidos.
Não teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas
Onde havemos de entrar antes de velhos.
Outras vezes buscando distracção
Leremos bons romances galhofeiros.
Gozaremos assim dias inteiros
Formando unicamente um coração.
Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Faublas.
CESARIO VERDE
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura:
Num mimoso jardim, ó pomba mansa
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados
Beijarão meigamente a tua trança.
Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias
E a loucura dos vinhos atrevidos.
Não teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas
Onde havemos de entrar antes de velhos.
Outras vezes buscando distracção
Leremos bons romances galhofeiros.
Gozaremos assim dias inteiros
Formando unicamente um coração.
Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Faublas.
CESARIO VERDE
quarta-feira, 18 de março de 2009
Eugénio de Andrade
As Amoras
O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")
O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")
terça-feira, 17 de março de 2009
Poesia
Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
domingo, 15 de março de 2009
Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tude se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Mário de Sá Carneiro
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tude se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Mário de Sá Carneiro
sábado, 14 de março de 2009
DISCURSO DE SALAMANCA
Miguel de UNAMUNO
(12 de octubre del 1936)
Reconstitucion del discurso :
«Voy a ser breve. La verdad es más verdad cuando se manifiesta desnuda, libre de adornos y palabrería. Quisiera comentar el discurso, por llamarlo de algún modo, del general Millán Astray, quien se encuentra entre nosotros. Dejemos aparte el insulto personal que supone la repentina explosión de ofensas contra vascos y catalanes. Yo nací en Bilbao, en medio de los bombardeos de la segunda guerra carlista. Más adelante me case con esta ciudad de Salamanca, tan querida, pero sin olvidar jamás mi ciudad natal... »
(Primera interrupción, « Viva la muerte ! » )
Acabo de oír el grito necrófilo e insensato de “Viva la muerte”! Esto me suena lo mismo que “Muera la vida!” Y yo, que me he pasado toda la vida creando paradojas que provocaron el enojo de quienes no las comprendieron, he de deciros, con autoridad en la materia, que esta ridícula paradoja me parece repelente. Puesto que fue proclamada en homenaje al último orador, entiendo que fue dirigida a él, si bien de una forma excesiva y tortuosa, como testimonio de que él mismo es un símbolo de la muerte. Y otra cosa! [Unamuno comienza a exaltarse con sus propias palabras] El general Millán Astray es un inválido. No es preciso decirlo en un tono más bajo. Es un inválido de guerra.
También lo fue Cervantes. Pero los extremos no sirven como norma. Desgraciadamente hay hoy en día demasiados inválidos. Y pronto habrá más si Dios no nos ayuda.
Me duele pensar que el general Millán Astray pueda dictar las normas de sicología de las masas. Un inválido que carezca de la grandeza espiritual de Cervantes, que era un hombre, no un superhombre, viril y completo a pesar de sus mutilaciones, un inválido como dije, que carezca de esa superioridad del espíritu, suele sentirse aliviado viendo como aumenta el número de mutilados alrededor de él [...]”
(En este momento Millán Astray comienza a gritar “Abajo la inteligencia !”)
“Este es el templo de la inteligencia! Y yo soy su supremo sacerdote! Vosotros estáis profanando su sagrado recinto. Yo siempre he sido, diga lo que diga el proverbio, un profeta en mi propio país. Venceréis, pero no convenceréis. Venceréis porque tenéis sobrada fuerza bruta; pero no convenceréis, porque convencer significa persuadir. Y para persuadir necesitáis algo que os falta: razón y derecho en la lucha. Me parece inútil pediros que penséis en España. He dicho.”
(12 de octubre del 1936)
Reconstitucion del discurso :
«Voy a ser breve. La verdad es más verdad cuando se manifiesta desnuda, libre de adornos y palabrería. Quisiera comentar el discurso, por llamarlo de algún modo, del general Millán Astray, quien se encuentra entre nosotros. Dejemos aparte el insulto personal que supone la repentina explosión de ofensas contra vascos y catalanes. Yo nací en Bilbao, en medio de los bombardeos de la segunda guerra carlista. Más adelante me case con esta ciudad de Salamanca, tan querida, pero sin olvidar jamás mi ciudad natal... »
(Primera interrupción, « Viva la muerte ! » )
Acabo de oír el grito necrófilo e insensato de “Viva la muerte”! Esto me suena lo mismo que “Muera la vida!” Y yo, que me he pasado toda la vida creando paradojas que provocaron el enojo de quienes no las comprendieron, he de deciros, con autoridad en la materia, que esta ridícula paradoja me parece repelente. Puesto que fue proclamada en homenaje al último orador, entiendo que fue dirigida a él, si bien de una forma excesiva y tortuosa, como testimonio de que él mismo es un símbolo de la muerte. Y otra cosa! [Unamuno comienza a exaltarse con sus propias palabras] El general Millán Astray es un inválido. No es preciso decirlo en un tono más bajo. Es un inválido de guerra.
También lo fue Cervantes. Pero los extremos no sirven como norma. Desgraciadamente hay hoy en día demasiados inválidos. Y pronto habrá más si Dios no nos ayuda.
Me duele pensar que el general Millán Astray pueda dictar las normas de sicología de las masas. Un inválido que carezca de la grandeza espiritual de Cervantes, que era un hombre, no un superhombre, viril y completo a pesar de sus mutilaciones, un inválido como dije, que carezca de esa superioridad del espíritu, suele sentirse aliviado viendo como aumenta el número de mutilados alrededor de él [...]”
(En este momento Millán Astray comienza a gritar “Abajo la inteligencia !”)
“Este es el templo de la inteligencia! Y yo soy su supremo sacerdote! Vosotros estáis profanando su sagrado recinto. Yo siempre he sido, diga lo que diga el proverbio, un profeta en mi propio país. Venceréis, pero no convenceréis. Venceréis porque tenéis sobrada fuerza bruta; pero no convenceréis, porque convencer significa persuadir. Y para persuadir necesitáis algo que os falta: razón y derecho en la lucha. Me parece inútil pediros que penséis en España. He dicho.”
quinta-feira, 12 de março de 2009
António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
terça-feira, 10 de março de 2009

Auto Retrato
Cecília Meireles por Apard Szènes
Reparei que a poeira se misturava às nuvens
Reparei que a poeira se misturava às nuvens,
e, sem pôr o ouvido na terra,
senti a pressa dos que chegavam.
Disse-me de repente: "Eis que o tropel avança".
Mas todos me olhavam como surdos,
e deixavam-me sem responder nada.
Vi as nuvens tornarem-se vermelhas
e reperti: "Eis que os incêndios se aproximam".
(Mas não havia mais interlocutores.)
"Eles vêm, eles não podem deixar de vir",
balbuciei para a solidão, para o ermo.
E já por detrás dos montes subiam chamas altas;
ou eram estandartes ou eram labaredas.
Perguntei: "Que me avle ter casa, parentes, vida?
Sou a terra que estremece? Ou a multidão que avança?
Ó solidão minha, ó limites da criatura!
Meu nome está em mim? No passado ou no futuro?
Ninguém responde. E o fogo avança para meu pequeno enigma".
Apenas um anjo negro entreabriu seus lábios,
verdadeiramente, como um botão de rosa.
"Death".
DEATH?
Por que me falas nesse idioma?, perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.
Cecília Meireles
segunda-feira, 9 de março de 2009
Arcebispada
Composição: José Afonso
Pregais o Cristo de Braga
Fazeis a guerra na rua
Sempre virados prò céu
Sempre virados prà Virgem
A Santa Cruzada manda
Matar o chivo vermelho
Contra a foice e o martelo
Contra a alfabetização
Curai de ganhar agora
Os vossos novos clientes
Além do pide e do bufo
Amigos do usurário
Além do latifundiário
Amigo do Capelão
"Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação"
"A medicina é ateia
Não cuida da salvação"
Que o diga o facultativo
Que o diga o cirurgião
Que o digam as criancinhas
"Rezas sim, parteiras não"
Se o Pinochet concordasse
Já em Fátima haveria
Mais de trinta mil vermelhos
A arder de noite e de dia
Caridade, a quanto obrigas
Só trinta mil voluntários
"Cristo reina Cristo vinga"
Nos vossos santos ovários
E também nos lampadários
E também nos trintanários
Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação
Ó Carnaval da capela
Ó liturgia do altar
Já lá vem Camilo Torres
Com o seu fusil a sangrar
Igreja dos privilégios
Mataste o Cristo a galope
Também Franco, o assassino
Mandou benzer o garrote
Pregais o Cristo de Braga
Fazeis a guerra na rua
Sempre virados prò céu
Sempre virados prà Virgem
A Santa Cruzada manda
Matar o chivo vermelho
Contra a foice e o martelo
Contra a alfabetização
Curai de ganhar agora
Os vossos novos clientes
Além do pide e do bufo
Amigos do usurário
Além do latifundiário
Amigo do Capelão
"Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação"
"A medicina é ateia
Não cuida da salvação"
Que o diga o facultativo
Que o diga o cirurgião
Que o digam as criancinhas
"Rezas sim, parteiras não"
Se o Pinochet concordasse
Já em Fátima haveria
Mais de trinta mil vermelhos
A arder de noite e de dia
Caridade, a quanto obrigas
Só trinta mil voluntários
"Cristo reina Cristo vinga"
Nos vossos santos ovários
E também nos lampadários
E também nos trintanários
Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação
Ó Carnaval da capela
Ó liturgia do altar
Já lá vem Camilo Torres
Com o seu fusil a sangrar
Igreja dos privilégios
Mataste o Cristo a galope
Também Franco, o assassino
Mandou benzer o garrote
domingo, 8 de março de 2009
(Amor em Dias de Cólera )
... "Melhor seria começar pelo fim. Melhor seria nem começar.
Navegar é preciso, viver não é preciso. Seguindo a barca de Fermina Daza e Florentino Ariza, navegando rio acima e cabeceira abaixo, os atributos da navegação são recuperados (ou seriam do amor?). Um ato em si mesmo, amore fati. Atos irracionais, sentido em si mesmo?
Como um eterno retorno, como se houvesse um ciclo, um tempo próprio, inalterado, único, sempre o mesmo. Vai e vem. São 51 anos, 9 meses e 4 dias. Vai e vem.
Como se fosse um único dia, um único instante... como se nada houvesse passado entre o hoje e o ontem. Como se o tempo tivesse parado. Mas ele sabia que não havia parado porque lembrava cada instante em que viveu sem ela. Cada minuto do que experimentou e que ela não.
Como expressar 51 anos, 9 meses e 4 dias? Como fazê-la entender que viveu e não-viveu por ela? Como fazê-la sentir cada busca de olhar que o alimentava por mais 10 anos? Como compartilhar a experiência de ouvi-la rir, falar, caminhar sem ele durante 51 anos, 9 meses e 4 dias?
Rio abaixo, rio acima.
Gosto de tempo; tempo de velhos, pele seca, enrugada, mal-cheirosa, cheiro de tempo.
Como encantar quem não sabe que foi esperada e que durante todo esse pequeno longo tempo encantou?
Como dizer-lhe que a espera é parte do amor? Que não lhe importa ou incomoda ter esperado 51 anos, 9 meses e 4 dias. Faz parte. Ele esperava por isso.
Como dizer-lhe que não importa a pele, o cheiro... ou melhor, importa sim! Porque afinal esperou e acompanhou cada ruga que teve, cada cheiro que ganhou, cada passo que deu.
Como dizer que esperou por essas rugas? Que amou cada marca e que viveu por acompanhar cada momento? Viveu intensamente esses 51 anos, 9 meses e 4 dias. Junto a ela estava.
A preocupação dele, agora, é como ela vai suportar as marcas dele.
Fermina Daza não tem 51 anos, 9 meses e 4 dias.
Fermina Daza não esperou.
Rio acima, rio abaixo."
Navegar é preciso, viver não é preciso. Seguindo a barca de Fermina Daza e Florentino Ariza, navegando rio acima e cabeceira abaixo, os atributos da navegação são recuperados (ou seriam do amor?). Um ato em si mesmo, amore fati. Atos irracionais, sentido em si mesmo?
Como um eterno retorno, como se houvesse um ciclo, um tempo próprio, inalterado, único, sempre o mesmo. Vai e vem. São 51 anos, 9 meses e 4 dias. Vai e vem.
Como se fosse um único dia, um único instante... como se nada houvesse passado entre o hoje e o ontem. Como se o tempo tivesse parado. Mas ele sabia que não havia parado porque lembrava cada instante em que viveu sem ela. Cada minuto do que experimentou e que ela não.
Como expressar 51 anos, 9 meses e 4 dias? Como fazê-la entender que viveu e não-viveu por ela? Como fazê-la sentir cada busca de olhar que o alimentava por mais 10 anos? Como compartilhar a experiência de ouvi-la rir, falar, caminhar sem ele durante 51 anos, 9 meses e 4 dias?
Rio abaixo, rio acima.
Gosto de tempo; tempo de velhos, pele seca, enrugada, mal-cheirosa, cheiro de tempo.
Como encantar quem não sabe que foi esperada e que durante todo esse pequeno longo tempo encantou?
Como dizer-lhe que a espera é parte do amor? Que não lhe importa ou incomoda ter esperado 51 anos, 9 meses e 4 dias. Faz parte. Ele esperava por isso.
Como dizer-lhe que não importa a pele, o cheiro... ou melhor, importa sim! Porque afinal esperou e acompanhou cada ruga que teve, cada cheiro que ganhou, cada passo que deu.
Como dizer que esperou por essas rugas? Que amou cada marca e que viveu por acompanhar cada momento? Viveu intensamente esses 51 anos, 9 meses e 4 dias. Junto a ela estava.
A preocupação dele, agora, é como ela vai suportar as marcas dele.
Fermina Daza não tem 51 anos, 9 meses e 4 dias.
Fermina Daza não esperou.
Rio acima, rio abaixo."
quarta-feira, 4 de março de 2009
Antonio Aleixo
São parvos, não rias deles,
deixa-os ser, que não são sós:
Às vezes rimos daqueles,
que valem mais do que nós.
deixa-os ser, que não são sós:
Às vezes rimos daqueles,
que valem mais do que nós.
terça-feira, 3 de março de 2009
VI
Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putissimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado;
Dido foi puta, e puta de um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c’roa;
Tu, Lucécia com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado;
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh, Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.
Publicado em várias edições em nome de bocage
Este soneto é da autoria de João Vicente Pimentel Maldonado.
Puta tem sido muita gente boa;
Putissimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado;
Dido foi puta, e puta de um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c’roa;
Tu, Lucécia com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado;
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh, Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.
Publicado em várias edições em nome de bocage
Este soneto é da autoria de João Vicente Pimentel Maldonado.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Cão como nós
Como nós eras altivo
Fiel mas como nós
Desobediente.
Gostavas de estar connosco a sós
Mas não cativo
E sempre presente-ausente
Como nós
Cão que não querias
Ser cão
E não lembias
A mão
E não respondias
A voz.
Cão
Como nós.
Lisboa, 22-02-2002
Manuel Alegre
Fiel mas como nós
Desobediente.
Gostavas de estar connosco a sós
Mas não cativo
E sempre presente-ausente
Como nós
Cão que não querias
Ser cão
E não lembias
A mão
E não respondias
A voz.
Cão
Como nós.
Lisboa, 22-02-2002
Manuel Alegre
domingo, 1 de março de 2009
Mamã negra
(À memória do poeta haitiano Jacques Roumain)
Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!
Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
[dos seringais dos algodoais!...
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos
[das pampas das minas!
Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
Lord God, what will have we done
- Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén...
Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
[amaciando as mais ricas terras do mundo!
Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no "tronco", pendentes da
[forca, caídos por Lynch!
Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos...
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
...do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...
Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos poetas e sábios...
Outras gentes... não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo...
Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo (Oh! se vejo!...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
[olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza...
cintilantemente firme - como a Esperança...
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando -
o dia da humanidade
O DIA DA HUMANIDADE!...
Viriato da Cruz
Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!
Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
[dos seringais dos algodoais!...
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos
[das pampas das minas!
Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
Lord God, what will have we done
- Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén...
Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
[amaciando as mais ricas terras do mundo!
Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no "tronco", pendentes da
[forca, caídos por Lynch!
Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos...
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
...do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...
Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos poetas e sábios...
Outras gentes... não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo...
Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo (Oh! se vejo!...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
[olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza...
cintilantemente firme - como a Esperança...
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando -
o dia da humanidade
O DIA DA HUMANIDADE!...
Viriato da Cruz
sábado, 28 de fevereiro de 2009
A PAVOROSA
EPISTOLA.
Pavorosa illusão da eternidade,
Terror dos vivos, carcere dos mortos,
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Systema da politica oppressora,
Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas;
Dogma funesto, detestavel crença
Que envenenas delicias innocentes,
Taes como aquellas que no céo se fingem.
Furias, cerastes, dragos, centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chamma;
Incompativeis producções do engano,
Do sempiterno horror terrivel quadro
(Só terrivel aos olhos da ignorancia)
Não, não me assombram tuas negras côres:
Dos homens o pincel e a mão conheço.
Trema de ouvir sacrilego ameaço
Quem de um Deos, quando quer, faz um tyranno.
Trema a superstição; lagrimas, preces,
Votos, suspiros, arquejando espalhe;
Cosa as faces co'a terra, os peitos fira:
Vergonhosa piedade, inutil venia.
Espere ás plantas do impostor sagrado,
Q'ora os infernos abre, ora os ferrolha;
Que as leis e propensões da natureza
Eternas, immutaveis, necessarias,
Chama espantosos, voluntarios crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Aborrece nos mais, nos mais fulmina;
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despotica voz á carne arbítra;
E nos ares traçando a futil benção,
Vai do gran'tribunal desenfadar-se
Em sordido prazer, venaes delicias,
Escandalo de amor, que dá, não vende.
Ó Deus! não oppressor, não vingativo,
Não vibrando c'o a dextra o raio ardente
Contra o suave instincto que nos déste;
Não carrancudo, rispido arrojando
Sobre os mortaes a rispida sentença;
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te ama, que te incensa, e crê que és duro:
Monstros de vis paixões, damnados peitos,
Pungidos pelo sofrego interesse,
Alto, impassivel numen, te attribuem
A colera, a vingança, os vicios todos;
Negros enxames, que lhe fervem n'alma.
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror de barbaras cruezas;
Cobrir de véo compacto e venerando,
Atroz satisfação d'antiguos odios,
Que a mira poem no estrago da innocencia:
Ou quer manter asperrimo dominio,
Que os vaivens da razão franqueia e nutre.
Eil-o em sancto furor todo abrasado,
Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,
A maldição na bôcca, o fel na espuma;
Eil-o cheio de um Deus tam mau como elle;
Eil-o citando os horridos exemplos,
Em que aterrada observa a phantasia
Um Deus o algoz, a victima o seu povo.
No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,
Involto em nuvens, em trovões, em raios,
D'Israel o tyranno omnipotente
Lá brama do Sinai, lá treme a terra.
O torvo executor dos seus decretos,
Hypocrita feroz, Moysés astuto
Ouve o terrivel Deus, que assim troveja:
"Vai, ministro fiel dos meus furores,
Corre, vôa a vingar-me, e seja a raiva
D'esfaimados leões menor que a tua.
Meu poder, minhas forças te confio;
Minha tocha invisivel te precede;
Dos impios, dos ingratos, que me offendem
Na rebelde cerviz o ferro ensopa.
Extermina, destroe, reduz a cinzas
Dam a frageis metaes, a deuses surdos.
Sepulta as minhas victimas no inferno;
E treme se a vingança me retardas."
Não lh'a retarda o rabido propheta.
Já corre, já vozeia, já diffunde
Pelos brutos attonitos sequazes
A peste do implacavel fanatismo.
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam.
Que sanha, que furor, que atrocidade!
Foge dos corações a natureza.
Os consortes, os paes, as mães, os filhos,
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricidio.
Os campos de cadaveres se alastram;
Susurra pela terra o sangue em rios.
Ah! barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serêna o phrenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores que derramas
Para fundar o imperio dos tyrannos,
Para deixar-lhe o feio e duro exemplo
D'opprimir seus iguaes com ferreo jugo.
Não profanes, sacrilego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto.
Esse, de quem te ostentas tam valido,
He Deus, do teu furor, Deus do teu genio;
Deus creado por ti, Deus necessario
Aos tyrannos da terra, aos que te imitam,
E áquelles que não crêem que Deus existe.
N'este quadro fatal bem vês, Marilia,
Que, em tenebrosos seculos involta,
Desde aquelles crueis, nefandos tempos,
Dolosa tradição correu aos nossos.
Do coração, da ideia, ah! desarraiga
De astutos mestres a fallaz doutrina,
E de credulos paes preoccupados
As chimeras, visões, phantasmas, sonhos.
Ha Deus; mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pae dos homens, não flagello;
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo;
Que só não leva a bem o abuso d'ellas;
Porque á nossa existencia não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida.
Amor he lei do Eterno, he lei suave:
As mais sam invenções; sam quasi todas
Contrarias á razão e á natureza,
Proprias ao bem de alguns, e ao mal de muitos.
Natureza e razão jámais differem:
Natureza e razão movem, conduzem
A dar soccorro ao pallido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do afflicto,
E a remir a innocencia consternada,
Quando nos debeis, magoados pulsos
Lhe roxeía o vergão de vís algemas.
Natureza e razão jámais approvam
O abuso das paixões, aquella insania
Que, pondo os homens a nivel dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando a nossos iguaes, quando huns aos outros
Traçamos fero damno, injustos males,
Em nossos corações, em nossas mentes
És, ó remorso! o precursor do crime;
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe;
Pois não póde evitar-se o pensamento.
He innocente a mão que se arrepende.
Não vêem só d'um principio acções oppostas,
Taes dimanam de um Deus, e taes do exemplo,
Ou do cego furor, molestia d'alma.
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto
Que te anceiam phantasticos terrores,
Prégados pelo ardil, pelo interesse
Só de infestos mortaes na voz, n'astucia.
A bem da tyrannia está o inferno:
Esse que pintam bárathro de angustias
Sería o galardão, sería o fructo
Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse.
Escuta o coração, Marilia bella,
Escuta o coração, que te não mente;
Mil vezes te dirá; "Se a rigorosa,
Carrancuda oppressão de um pae severo
Te não deixa chegar ao caro amante
Pelo perpetuo nó que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na ideia,
Para tambem de amor dar leis ao mundo;
Se obter não pódes a união solemne,
Que allucina os mortaes; porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que em lagrimas, em ais te estou pedindo?
Reclama o teu poder e os teus direitos
De justiça despotica extorquidos.
Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chamma da ternura os afogueia.
Eia pois, do temor sacode o jugo,
Acanhada donzella, e no teu pejo,
Destra illudindo as vigilantes guardas,
Pelas sombras da noite, a amor propicias,
Demanda os braços do ancioso Elmano;
Ao risonho prazer franqueia os lares.
Consista o laço na união das almas;
Do ditoso hymeneu as venerandas,
Caladas trevas testemunhas sejam;
Seja ministro amor, a terra o templo,
Pois que o templo do Eterno he toda a terra.
Entrega-te depois aos teus transportes,
Os oppressos desejos desaffoga,
Mata o pejo importuno; incita, incita
O que só de prazer merece o nome.
Verás como, involvendo-se as vontades,
Gostos iguaes se dam e se recebem.
Do jubilo ha-de a força amortecer-te;
Do jubilo ha-de a força aviventar-te:
Sentirás suspirar, morrer o amante;
Com os teus confundir os seus suspiros:
Has-de morrer e reviver com elle.
De tam alta ventura, ah! não te prives,
Ah! não prives, insana, a quem te adora."
Eis o que has-de escutar-lhe, ó doce amada!
Se á voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado,
Ás preces que te envia eu uno as minhas.
Ah! faze-me ditoso, e sê ditosa.
Amar he um dever além de um gosto;
Uma necessidade, não um crime
Qual a impostura horrisona pregoa.
Ceos não existem, não existe inferno.
O premio da virtude he a virtude;
He castigo do vicio o proprio vicio.
M. M. B. DU BOCAGE
Pavorosa illusão da eternidade,
Terror dos vivos, carcere dos mortos,
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Systema da politica oppressora,
Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas;
Dogma funesto, detestavel crença
Que envenenas delicias innocentes,
Taes como aquellas que no céo se fingem.
Furias, cerastes, dragos, centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chamma;
Incompativeis producções do engano,
Do sempiterno horror terrivel quadro
(Só terrivel aos olhos da ignorancia)
Não, não me assombram tuas negras côres:
Dos homens o pincel e a mão conheço.
Trema de ouvir sacrilego ameaço
Quem de um Deos, quando quer, faz um tyranno.
Trema a superstição; lagrimas, preces,
Votos, suspiros, arquejando espalhe;
Cosa as faces co'a terra, os peitos fira:
Vergonhosa piedade, inutil venia.
Espere ás plantas do impostor sagrado,
Q'ora os infernos abre, ora os ferrolha;
Que as leis e propensões da natureza
Eternas, immutaveis, necessarias,
Chama espantosos, voluntarios crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Aborrece nos mais, nos mais fulmina;
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despotica voz á carne arbítra;
E nos ares traçando a futil benção,
Vai do gran'tribunal desenfadar-se
Em sordido prazer, venaes delicias,
Escandalo de amor, que dá, não vende.
Ó Deus! não oppressor, não vingativo,
Não vibrando c'o a dextra o raio ardente
Contra o suave instincto que nos déste;
Não carrancudo, rispido arrojando
Sobre os mortaes a rispida sentença;
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te ama, que te incensa, e crê que és duro:
Monstros de vis paixões, damnados peitos,
Pungidos pelo sofrego interesse,
Alto, impassivel numen, te attribuem
A colera, a vingança, os vicios todos;
Negros enxames, que lhe fervem n'alma.
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror de barbaras cruezas;
Cobrir de véo compacto e venerando,
Atroz satisfação d'antiguos odios,
Que a mira poem no estrago da innocencia:
Ou quer manter asperrimo dominio,
Que os vaivens da razão franqueia e nutre.
Eil-o em sancto furor todo abrasado,
Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,
A maldição na bôcca, o fel na espuma;
Eil-o cheio de um Deus tam mau como elle;
Eil-o citando os horridos exemplos,
Em que aterrada observa a phantasia
Um Deus o algoz, a victima o seu povo.
No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,
Involto em nuvens, em trovões, em raios,
D'Israel o tyranno omnipotente
Lá brama do Sinai, lá treme a terra.
O torvo executor dos seus decretos,
Hypocrita feroz, Moysés astuto
Ouve o terrivel Deus, que assim troveja:
"Vai, ministro fiel dos meus furores,
Corre, vôa a vingar-me, e seja a raiva
D'esfaimados leões menor que a tua.
Meu poder, minhas forças te confio;
Minha tocha invisivel te precede;
Dos impios, dos ingratos, que me offendem
Na rebelde cerviz o ferro ensopa.
Extermina, destroe, reduz a cinzas
Dam a frageis metaes, a deuses surdos.
Sepulta as minhas victimas no inferno;
E treme se a vingança me retardas."
Não lh'a retarda o rabido propheta.
Já corre, já vozeia, já diffunde
Pelos brutos attonitos sequazes
A peste do implacavel fanatismo.
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam.
Que sanha, que furor, que atrocidade!
Foge dos corações a natureza.
Os consortes, os paes, as mães, os filhos,
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricidio.
Os campos de cadaveres se alastram;
Susurra pela terra o sangue em rios.
Ah! barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serêna o phrenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores que derramas
Para fundar o imperio dos tyrannos,
Para deixar-lhe o feio e duro exemplo
D'opprimir seus iguaes com ferreo jugo.
Não profanes, sacrilego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto.
Esse, de quem te ostentas tam valido,
He Deus, do teu furor, Deus do teu genio;
Deus creado por ti, Deus necessario
Aos tyrannos da terra, aos que te imitam,
E áquelles que não crêem que Deus existe.
N'este quadro fatal bem vês, Marilia,
Que, em tenebrosos seculos involta,
Desde aquelles crueis, nefandos tempos,
Dolosa tradição correu aos nossos.
Do coração, da ideia, ah! desarraiga
De astutos mestres a fallaz doutrina,
E de credulos paes preoccupados
As chimeras, visões, phantasmas, sonhos.
Ha Deus; mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pae dos homens, não flagello;
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo;
Que só não leva a bem o abuso d'ellas;
Porque á nossa existencia não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida.
Amor he lei do Eterno, he lei suave:
As mais sam invenções; sam quasi todas
Contrarias á razão e á natureza,
Proprias ao bem de alguns, e ao mal de muitos.
Natureza e razão jámais differem:
Natureza e razão movem, conduzem
A dar soccorro ao pallido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do afflicto,
E a remir a innocencia consternada,
Quando nos debeis, magoados pulsos
Lhe roxeía o vergão de vís algemas.
Natureza e razão jámais approvam
O abuso das paixões, aquella insania
Que, pondo os homens a nivel dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando a nossos iguaes, quando huns aos outros
Traçamos fero damno, injustos males,
Em nossos corações, em nossas mentes
És, ó remorso! o precursor do crime;
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe;
Pois não póde evitar-se o pensamento.
He innocente a mão que se arrepende.
Não vêem só d'um principio acções oppostas,
Taes dimanam de um Deus, e taes do exemplo,
Ou do cego furor, molestia d'alma.
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto
Que te anceiam phantasticos terrores,
Prégados pelo ardil, pelo interesse
Só de infestos mortaes na voz, n'astucia.
A bem da tyrannia está o inferno:
Esse que pintam bárathro de angustias
Sería o galardão, sería o fructo
Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse.
Escuta o coração, Marilia bella,
Escuta o coração, que te não mente;
Mil vezes te dirá; "Se a rigorosa,
Carrancuda oppressão de um pae severo
Te não deixa chegar ao caro amante
Pelo perpetuo nó que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na ideia,
Para tambem de amor dar leis ao mundo;
Se obter não pódes a união solemne,
Que allucina os mortaes; porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que em lagrimas, em ais te estou pedindo?
Reclama o teu poder e os teus direitos
De justiça despotica extorquidos.
Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chamma da ternura os afogueia.
Eia pois, do temor sacode o jugo,
Acanhada donzella, e no teu pejo,
Destra illudindo as vigilantes guardas,
Pelas sombras da noite, a amor propicias,
Demanda os braços do ancioso Elmano;
Ao risonho prazer franqueia os lares.
Consista o laço na união das almas;
Do ditoso hymeneu as venerandas,
Caladas trevas testemunhas sejam;
Seja ministro amor, a terra o templo,
Pois que o templo do Eterno he toda a terra.
Entrega-te depois aos teus transportes,
Os oppressos desejos desaffoga,
Mata o pejo importuno; incita, incita
O que só de prazer merece o nome.
Verás como, involvendo-se as vontades,
Gostos iguaes se dam e se recebem.
Do jubilo ha-de a força amortecer-te;
Do jubilo ha-de a força aviventar-te:
Sentirás suspirar, morrer o amante;
Com os teus confundir os seus suspiros:
Has-de morrer e reviver com elle.
De tam alta ventura, ah! não te prives,
Ah! não prives, insana, a quem te adora."
Eis o que has-de escutar-lhe, ó doce amada!
Se á voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado,
Ás preces que te envia eu uno as minhas.
Ah! faze-me ditoso, e sê ditosa.
Amar he um dever além de um gosto;
Uma necessidade, não um crime
Qual a impostura horrisona pregoa.
Ceos não existem, não existe inferno.
O premio da virtude he a virtude;
He castigo do vicio o proprio vicio.
M. M. B. DU BOCAGE
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Carrasquinho Sentimental
Boby Lapointe
Sentimental bourreau
Paroles et Musique: Boby Lapointe 1969
© Editions Presses Artisanes
Era uma vez
Um lindo carrasquinho
Grande como três nozes
E um quase nada mais gordo
De altas e baixas obras
Executador
e para as baixas obras
estava sempre à boa altura
nunca pedia trégua
ainda menos descanso
em vez de greve
executava conscientemente o seu trabalho
No entanto cortar cabeças
dizia, aborrece-me
é algo idiota
suja o meu cepo
para alimentar a minha mãezinha
sangro Paulo e Pedro
o gesto talvez seja brutal
mas nunca pensando mal
carrasquinho sentimental
Aï, aï, aï,... aï, aï, aï,...
Um dia à sua janela
a mulher do coveiro
Chamou : -Olá, homem das cabeças!
Abriu-lhe o coração
Há muito tempo ressequido
Sem embalo de amor
A si quero-me entregar
Carrasquinho vigoroso!
Deito-lhe uma corda
Do alto do meu balcão
Suba, é uma ordem
Vamos, execução!
Para partilhar o seu leito
A bela o convidou
Em meia dúzia de machadadas
Ele o partilhou
O esposo ouvindo o alarde
Apareceu, algo inquieto
Logo partilhou o marido
Para guardar apenas a sua metade
Como a dama se inquietava
Sugerindo : partamos!
Cortou-lhe a cabeça
Depois cortou o próprio pescoço
Príncipes tomem cuidado
Com a doce Isabel
Não venha ela precisar
Do carinho de um carrasquinho
Sentimental bourreau
Paroles et Musique: Boby Lapointe 1969
© Editions Presses Artisanes
Era uma vez
Um lindo carrasquinho
Grande como três nozes
E um quase nada mais gordo
De altas e baixas obras
Executador
e para as baixas obras
estava sempre à boa altura
nunca pedia trégua
ainda menos descanso
em vez de greve
executava conscientemente o seu trabalho
No entanto cortar cabeças
dizia, aborrece-me
é algo idiota
suja o meu cepo
para alimentar a minha mãezinha
sangro Paulo e Pedro
o gesto talvez seja brutal
mas nunca pensando mal
carrasquinho sentimental
Aï, aï, aï,... aï, aï, aï,...
Um dia à sua janela
a mulher do coveiro
Chamou : -Olá, homem das cabeças!
Abriu-lhe o coração
Há muito tempo ressequido
Sem embalo de amor
A si quero-me entregar
Carrasquinho vigoroso!
Deito-lhe uma corda
Do alto do meu balcão
Suba, é uma ordem
Vamos, execução!
Para partilhar o seu leito
A bela o convidou
Em meia dúzia de machadadas
Ele o partilhou
O esposo ouvindo o alarde
Apareceu, algo inquieto
Logo partilhou o marido
Para guardar apenas a sua metade
Como a dama se inquietava
Sugerindo : partamos!
Cortou-lhe a cabeça
Depois cortou o próprio pescoço
Príncipes tomem cuidado
Com a doce Isabel
Não venha ela precisar
Do carinho de um carrasquinho
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
O anjo de pedra
Tinha os olhos abertos mas não via.
O corpo era todo saudade
De alguém que o modelara e não sabia
Que o tocara de maio e claridade.
Parava o seu gesto onde pára tudo :
No limiar das coisas por saber
-e ficara surdo e cego e mudo
Para que tudo fosse grave no seu ser
Eugénio de Andrade
As mãos e os frutos
O corpo era todo saudade
De alguém que o modelara e não sabia
Que o tocara de maio e claridade.
Parava o seu gesto onde pára tudo :
No limiar das coisas por saber
-e ficara surdo e cego e mudo
Para que tudo fosse grave no seu ser
Eugénio de Andrade
As mãos e os frutos
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
NOITE
Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tungurúluas pelos ares!...
..........................................................................
Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...
..........................................................................
Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...
E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...
Por isso as noites são tristes...
Endoidadas, tenebrosas, langorosas,
mas tristes... como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...
É que os meninos brancos...,
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...
Os meninos-brancos... esqueceram!...
ALDA LARA
1948-Outubro (Poemas1966)
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tungurúluas pelos ares!...
..........................................................................
Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...
..........................................................................
Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...
E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...
Por isso as noites são tristes...
Endoidadas, tenebrosas, langorosas,
mas tristes... como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...
É que os meninos brancos...,
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...
Os meninos-brancos... esqueceram!...
ALDA LARA
1948-Outubro (Poemas1966)
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
domingo, 22 de fevereiro de 2009
de Vinicius de Morais
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora!
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora!
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Fogo e Ritmo
Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.
Ó vozes dolorosas de África!
Agostinho Neto
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.
Ó vozes dolorosas de África!
Agostinho Neto
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Mãe Negra
Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela …
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro …
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada …
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar? …
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar? …
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar? …
Mãe-Negra não sabe nada …
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra! …
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar …
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar! …
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada.
poema de Alda Lara
Mãe-Negra, desce com ela …
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro …
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada …
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar? …
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar? …
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar? …
Mãe-Negra não sabe nada …
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra! …
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar …
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar! …
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada.
poema de Alda Lara
PABLO NERUDA

Te recuerdo como eras en el último otoño.
Eras la boina gris y el corazón en calma.
En tus ojos peleaban las llamas del crepúsculo.
Y las hojas caían en el agua de tu alma.
Apegada a mis brazos como una enredadera,
las hojas recogían tu voz lenta y en calma.
Hoguera de estupor en que mi sed ardía.
Dulce jacinto azul torcido sobre mi alma.
Siento viajar tus ojos y es distante el otoño:
boina gris, voz de pájaro y corazón de casa
hacia donde emigraban mis profundos anhelos
y caían mis besos alegres como brasas.
Cielo desde un navío. Campo desde los cerros.
Tu recuerdo es de luz, de humo, de estanque en calma!
Más allá de tus ojos ardían los crepúsculos.
Hojas secas de otoño giraban en tu alma.
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