Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz
quinta-feira, 23 de abril de 2009
terça-feira, 21 de abril de 2009
(Oscar Wilde, in "De Profundis")
Encontro, algures na minha natureza, alguma coisa que me diz que não há nada no mundo que seja desprovido de sentido, e muito menos o sofrimento. Essa qualquer coisa, escondida no mais fundo de mim, como um tesouro num campo, é a humildade. É a última coisa que me resta, e a melhor (...). Ela veio-me de dentro de mim mesmo e sei que veio no bom momento. Não teria podido vir mais cedo nem mais tarde. Se alguém me tivesse falado dela, tê-la-ia rejeitado. Se ma tivessem oferecido, tê-la-ia rejeitado (...). É a única coisa que contém os elementos da vida, de uma vida nova (...). Entre todas as coisas ela é a mais estranha (...). É somente quando perdemos todas as coisas, que sabemos que a possuímos.
Machado de Assis
Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!
Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!
Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!
segunda-feira, 20 de abril de 2009
AMOR VIVO
Amar! mas de um amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
D’uma doída cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar – delírios e desejos –
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?
Antero de Qental
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
D’uma doída cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar – delírios e desejos –
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?
Antero de Qental
sábado, 18 de abril de 2009
Crespúsculo
É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
David Mourão Ferreira
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
David Mourão Ferreira
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Álvaro de Campos
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...
terça-feira, 14 de abril de 2009
Surdo, Subterrâneo Rio
Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
Eugénio de Andrade
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
Eugénio de Andrade
quinta-feira, 2 de abril de 2009
GRACIAS À LA VIDA
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto
.
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
.
de Violeta Parra
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto
.
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
.
de Violeta Parra
sábado, 21 de março de 2009
DISSE-TE ADEUS, E MORRI (fado)
Disse-te adeus e morri
E o cais, vazio de ti,
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos
Roubaram dos meus sentidos
A gaivota que tu és.
Gaivota de asas paradas
Que não sente as madrugadas
E acorda à noite a chorar,
Gaivota que faz o ninho
Porque perdeu o caminho
Onde aprendeu a sonhar.
Presa no ventre do mar
O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas,
Pois na ausencia que deixaste,
Meu amor, como ficaste,
Meu amor, como demoras!
Autores: Vasco de Lima Couto/ José António Sabrosa
E o cais, vazio de ti,
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos
Roubaram dos meus sentidos
A gaivota que tu és.
Gaivota de asas paradas
Que não sente as madrugadas
E acorda à noite a chorar,
Gaivota que faz o ninho
Porque perdeu o caminho
Onde aprendeu a sonhar.
Presa no ventre do mar
O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas,
Pois na ausencia que deixaste,
Meu amor, como ficaste,
Meu amor, como demoras!
Autores: Vasco de Lima Couto/ José António Sabrosa
sexta-feira, 20 de março de 2009
Rumo
Rumo
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra ...
Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!
Vamos, companheiro ...
É tempo!
Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!
Vamos!
que outro oceano nos inflama.. .
Ouves?
É a Terra que nos chama ...
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
ALDA LARA
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra ...
Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!
Vamos, companheiro ...
É tempo!
Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!
Vamos!
que outro oceano nos inflama.. .
Ouves?
É a Terra que nos chama ...
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
ALDA LARA
quinta-feira, 19 de março de 2009
Eu E Ela
Coberto de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura:
Num mimoso jardim, ó pomba mansa
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados
Beijarão meigamente a tua trança.
Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias
E a loucura dos vinhos atrevidos.
Não teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas
Onde havemos de entrar antes de velhos.
Outras vezes buscando distracção
Leremos bons romances galhofeiros.
Gozaremos assim dias inteiros
Formando unicamente um coração.
Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Faublas.
CESARIO VERDE
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura:
Num mimoso jardim, ó pomba mansa
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados
Beijarão meigamente a tua trança.
Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias
E a loucura dos vinhos atrevidos.
Não teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas
Onde havemos de entrar antes de velhos.
Outras vezes buscando distracção
Leremos bons romances galhofeiros.
Gozaremos assim dias inteiros
Formando unicamente um coração.
Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Faublas.
CESARIO VERDE
quarta-feira, 18 de março de 2009
Eugénio de Andrade
As Amoras
O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")
O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")
terça-feira, 17 de março de 2009
Poesia
Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
domingo, 15 de março de 2009
Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tude se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Mário de Sá Carneiro
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tude se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Mário de Sá Carneiro
sábado, 14 de março de 2009
DISCURSO DE SALAMANCA
Miguel de UNAMUNO
(12 de octubre del 1936)
Reconstitucion del discurso :
«Voy a ser breve. La verdad es más verdad cuando se manifiesta desnuda, libre de adornos y palabrería. Quisiera comentar el discurso, por llamarlo de algún modo, del general Millán Astray, quien se encuentra entre nosotros. Dejemos aparte el insulto personal que supone la repentina explosión de ofensas contra vascos y catalanes. Yo nací en Bilbao, en medio de los bombardeos de la segunda guerra carlista. Más adelante me case con esta ciudad de Salamanca, tan querida, pero sin olvidar jamás mi ciudad natal... »
(Primera interrupción, « Viva la muerte ! » )
Acabo de oír el grito necrófilo e insensato de “Viva la muerte”! Esto me suena lo mismo que “Muera la vida!” Y yo, que me he pasado toda la vida creando paradojas que provocaron el enojo de quienes no las comprendieron, he de deciros, con autoridad en la materia, que esta ridícula paradoja me parece repelente. Puesto que fue proclamada en homenaje al último orador, entiendo que fue dirigida a él, si bien de una forma excesiva y tortuosa, como testimonio de que él mismo es un símbolo de la muerte. Y otra cosa! [Unamuno comienza a exaltarse con sus propias palabras] El general Millán Astray es un inválido. No es preciso decirlo en un tono más bajo. Es un inválido de guerra.
También lo fue Cervantes. Pero los extremos no sirven como norma. Desgraciadamente hay hoy en día demasiados inválidos. Y pronto habrá más si Dios no nos ayuda.
Me duele pensar que el general Millán Astray pueda dictar las normas de sicología de las masas. Un inválido que carezca de la grandeza espiritual de Cervantes, que era un hombre, no un superhombre, viril y completo a pesar de sus mutilaciones, un inválido como dije, que carezca de esa superioridad del espíritu, suele sentirse aliviado viendo como aumenta el número de mutilados alrededor de él [...]”
(En este momento Millán Astray comienza a gritar “Abajo la inteligencia !”)
“Este es el templo de la inteligencia! Y yo soy su supremo sacerdote! Vosotros estáis profanando su sagrado recinto. Yo siempre he sido, diga lo que diga el proverbio, un profeta en mi propio país. Venceréis, pero no convenceréis. Venceréis porque tenéis sobrada fuerza bruta; pero no convenceréis, porque convencer significa persuadir. Y para persuadir necesitáis algo que os falta: razón y derecho en la lucha. Me parece inútil pediros que penséis en España. He dicho.”
(12 de octubre del 1936)
Reconstitucion del discurso :
«Voy a ser breve. La verdad es más verdad cuando se manifiesta desnuda, libre de adornos y palabrería. Quisiera comentar el discurso, por llamarlo de algún modo, del general Millán Astray, quien se encuentra entre nosotros. Dejemos aparte el insulto personal que supone la repentina explosión de ofensas contra vascos y catalanes. Yo nací en Bilbao, en medio de los bombardeos de la segunda guerra carlista. Más adelante me case con esta ciudad de Salamanca, tan querida, pero sin olvidar jamás mi ciudad natal... »
(Primera interrupción, « Viva la muerte ! » )
Acabo de oír el grito necrófilo e insensato de “Viva la muerte”! Esto me suena lo mismo que “Muera la vida!” Y yo, que me he pasado toda la vida creando paradojas que provocaron el enojo de quienes no las comprendieron, he de deciros, con autoridad en la materia, que esta ridícula paradoja me parece repelente. Puesto que fue proclamada en homenaje al último orador, entiendo que fue dirigida a él, si bien de una forma excesiva y tortuosa, como testimonio de que él mismo es un símbolo de la muerte. Y otra cosa! [Unamuno comienza a exaltarse con sus propias palabras] El general Millán Astray es un inválido. No es preciso decirlo en un tono más bajo. Es un inválido de guerra.
También lo fue Cervantes. Pero los extremos no sirven como norma. Desgraciadamente hay hoy en día demasiados inválidos. Y pronto habrá más si Dios no nos ayuda.
Me duele pensar que el general Millán Astray pueda dictar las normas de sicología de las masas. Un inválido que carezca de la grandeza espiritual de Cervantes, que era un hombre, no un superhombre, viril y completo a pesar de sus mutilaciones, un inválido como dije, que carezca de esa superioridad del espíritu, suele sentirse aliviado viendo como aumenta el número de mutilados alrededor de él [...]”
(En este momento Millán Astray comienza a gritar “Abajo la inteligencia !”)
“Este es el templo de la inteligencia! Y yo soy su supremo sacerdote! Vosotros estáis profanando su sagrado recinto. Yo siempre he sido, diga lo que diga el proverbio, un profeta en mi propio país. Venceréis, pero no convenceréis. Venceréis porque tenéis sobrada fuerza bruta; pero no convenceréis, porque convencer significa persuadir. Y para persuadir necesitáis algo que os falta: razón y derecho en la lucha. Me parece inútil pediros que penséis en España. He dicho.”
quinta-feira, 12 de março de 2009
António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
terça-feira, 10 de março de 2009

Auto Retrato
Cecília Meireles por Apard Szènes
Reparei que a poeira se misturava às nuvens
Reparei que a poeira se misturava às nuvens,
e, sem pôr o ouvido na terra,
senti a pressa dos que chegavam.
Disse-me de repente: "Eis que o tropel avança".
Mas todos me olhavam como surdos,
e deixavam-me sem responder nada.
Vi as nuvens tornarem-se vermelhas
e reperti: "Eis que os incêndios se aproximam".
(Mas não havia mais interlocutores.)
"Eles vêm, eles não podem deixar de vir",
balbuciei para a solidão, para o ermo.
E já por detrás dos montes subiam chamas altas;
ou eram estandartes ou eram labaredas.
Perguntei: "Que me avle ter casa, parentes, vida?
Sou a terra que estremece? Ou a multidão que avança?
Ó solidão minha, ó limites da criatura!
Meu nome está em mim? No passado ou no futuro?
Ninguém responde. E o fogo avança para meu pequeno enigma".
Apenas um anjo negro entreabriu seus lábios,
verdadeiramente, como um botão de rosa.
"Death".
DEATH?
Por que me falas nesse idioma?, perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.
Cecília Meireles
segunda-feira, 9 de março de 2009
Arcebispada
Composição: José Afonso
Pregais o Cristo de Braga
Fazeis a guerra na rua
Sempre virados prò céu
Sempre virados prà Virgem
A Santa Cruzada manda
Matar o chivo vermelho
Contra a foice e o martelo
Contra a alfabetização
Curai de ganhar agora
Os vossos novos clientes
Além do pide e do bufo
Amigos do usurário
Além do latifundiário
Amigo do Capelão
"Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação"
"A medicina é ateia
Não cuida da salvação"
Que o diga o facultativo
Que o diga o cirurgião
Que o digam as criancinhas
"Rezas sim, parteiras não"
Se o Pinochet concordasse
Já em Fátima haveria
Mais de trinta mil vermelhos
A arder de noite e de dia
Caridade, a quanto obrigas
Só trinta mil voluntários
"Cristo reina Cristo vinga"
Nos vossos santos ovários
E também nos lampadários
E também nos trintanários
Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação
Ó Carnaval da capela
Ó liturgia do altar
Já lá vem Camilo Torres
Com o seu fusil a sangrar
Igreja dos privilégios
Mataste o Cristo a galope
Também Franco, o assassino
Mandou benzer o garrote
Pregais o Cristo de Braga
Fazeis a guerra na rua
Sempre virados prò céu
Sempre virados prà Virgem
A Santa Cruzada manda
Matar o chivo vermelho
Contra a foice e o martelo
Contra a alfabetização
Curai de ganhar agora
Os vossos novos clientes
Além do pide e do bufo
Amigos do usurário
Além do latifundiário
Amigo do Capelão
"Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação"
"A medicina é ateia
Não cuida da salvação"
Que o diga o facultativo
Que o diga o cirurgião
Que o digam as criancinhas
"Rezas sim, parteiras não"
Se o Pinochet concordasse
Já em Fátima haveria
Mais de trinta mil vermelhos
A arder de noite e de dia
Caridade, a quanto obrigas
Só trinta mil voluntários
"Cristo reina Cristo vinga"
Nos vossos santos ovários
E também nos lampadários
E também nos trintanários
Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação
Ó Carnaval da capela
Ó liturgia do altar
Já lá vem Camilo Torres
Com o seu fusil a sangrar
Igreja dos privilégios
Mataste o Cristo a galope
Também Franco, o assassino
Mandou benzer o garrote
domingo, 8 de março de 2009
(Amor em Dias de Cólera )
... "Melhor seria começar pelo fim. Melhor seria nem começar.
Navegar é preciso, viver não é preciso. Seguindo a barca de Fermina Daza e Florentino Ariza, navegando rio acima e cabeceira abaixo, os atributos da navegação são recuperados (ou seriam do amor?). Um ato em si mesmo, amore fati. Atos irracionais, sentido em si mesmo?
Como um eterno retorno, como se houvesse um ciclo, um tempo próprio, inalterado, único, sempre o mesmo. Vai e vem. São 51 anos, 9 meses e 4 dias. Vai e vem.
Como se fosse um único dia, um único instante... como se nada houvesse passado entre o hoje e o ontem. Como se o tempo tivesse parado. Mas ele sabia que não havia parado porque lembrava cada instante em que viveu sem ela. Cada minuto do que experimentou e que ela não.
Como expressar 51 anos, 9 meses e 4 dias? Como fazê-la entender que viveu e não-viveu por ela? Como fazê-la sentir cada busca de olhar que o alimentava por mais 10 anos? Como compartilhar a experiência de ouvi-la rir, falar, caminhar sem ele durante 51 anos, 9 meses e 4 dias?
Rio abaixo, rio acima.
Gosto de tempo; tempo de velhos, pele seca, enrugada, mal-cheirosa, cheiro de tempo.
Como encantar quem não sabe que foi esperada e que durante todo esse pequeno longo tempo encantou?
Como dizer-lhe que a espera é parte do amor? Que não lhe importa ou incomoda ter esperado 51 anos, 9 meses e 4 dias. Faz parte. Ele esperava por isso.
Como dizer-lhe que não importa a pele, o cheiro... ou melhor, importa sim! Porque afinal esperou e acompanhou cada ruga que teve, cada cheiro que ganhou, cada passo que deu.
Como dizer que esperou por essas rugas? Que amou cada marca e que viveu por acompanhar cada momento? Viveu intensamente esses 51 anos, 9 meses e 4 dias. Junto a ela estava.
A preocupação dele, agora, é como ela vai suportar as marcas dele.
Fermina Daza não tem 51 anos, 9 meses e 4 dias.
Fermina Daza não esperou.
Rio acima, rio abaixo."
Navegar é preciso, viver não é preciso. Seguindo a barca de Fermina Daza e Florentino Ariza, navegando rio acima e cabeceira abaixo, os atributos da navegação são recuperados (ou seriam do amor?). Um ato em si mesmo, amore fati. Atos irracionais, sentido em si mesmo?
Como um eterno retorno, como se houvesse um ciclo, um tempo próprio, inalterado, único, sempre o mesmo. Vai e vem. São 51 anos, 9 meses e 4 dias. Vai e vem.
Como se fosse um único dia, um único instante... como se nada houvesse passado entre o hoje e o ontem. Como se o tempo tivesse parado. Mas ele sabia que não havia parado porque lembrava cada instante em que viveu sem ela. Cada minuto do que experimentou e que ela não.
Como expressar 51 anos, 9 meses e 4 dias? Como fazê-la entender que viveu e não-viveu por ela? Como fazê-la sentir cada busca de olhar que o alimentava por mais 10 anos? Como compartilhar a experiência de ouvi-la rir, falar, caminhar sem ele durante 51 anos, 9 meses e 4 dias?
Rio abaixo, rio acima.
Gosto de tempo; tempo de velhos, pele seca, enrugada, mal-cheirosa, cheiro de tempo.
Como encantar quem não sabe que foi esperada e que durante todo esse pequeno longo tempo encantou?
Como dizer-lhe que a espera é parte do amor? Que não lhe importa ou incomoda ter esperado 51 anos, 9 meses e 4 dias. Faz parte. Ele esperava por isso.
Como dizer-lhe que não importa a pele, o cheiro... ou melhor, importa sim! Porque afinal esperou e acompanhou cada ruga que teve, cada cheiro que ganhou, cada passo que deu.
Como dizer que esperou por essas rugas? Que amou cada marca e que viveu por acompanhar cada momento? Viveu intensamente esses 51 anos, 9 meses e 4 dias. Junto a ela estava.
A preocupação dele, agora, é como ela vai suportar as marcas dele.
Fermina Daza não tem 51 anos, 9 meses e 4 dias.
Fermina Daza não esperou.
Rio acima, rio abaixo."
quarta-feira, 4 de março de 2009
Antonio Aleixo
São parvos, não rias deles,
deixa-os ser, que não são sós:
Às vezes rimos daqueles,
que valem mais do que nós.
deixa-os ser, que não são sós:
Às vezes rimos daqueles,
que valem mais do que nós.
terça-feira, 3 de março de 2009
VI
Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putissimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado;
Dido foi puta, e puta de um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c’roa;
Tu, Lucécia com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado;
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh, Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.
Publicado em várias edições em nome de bocage
Este soneto é da autoria de João Vicente Pimentel Maldonado.
Puta tem sido muita gente boa;
Putissimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado;
Dido foi puta, e puta de um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c’roa;
Tu, Lucécia com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado;
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh, Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.
Publicado em várias edições em nome de bocage
Este soneto é da autoria de João Vicente Pimentel Maldonado.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Cão como nós
Como nós eras altivo
Fiel mas como nós
Desobediente.
Gostavas de estar connosco a sós
Mas não cativo
E sempre presente-ausente
Como nós
Cão que não querias
Ser cão
E não lembias
A mão
E não respondias
A voz.
Cão
Como nós.
Lisboa, 22-02-2002
Manuel Alegre
Fiel mas como nós
Desobediente.
Gostavas de estar connosco a sós
Mas não cativo
E sempre presente-ausente
Como nós
Cão que não querias
Ser cão
E não lembias
A mão
E não respondias
A voz.
Cão
Como nós.
Lisboa, 22-02-2002
Manuel Alegre
domingo, 1 de março de 2009
Mamã negra
(À memória do poeta haitiano Jacques Roumain)
Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!
Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
[dos seringais dos algodoais!...
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos
[das pampas das minas!
Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
Lord God, what will have we done
- Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén...
Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
[amaciando as mais ricas terras do mundo!
Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no "tronco", pendentes da
[forca, caídos por Lynch!
Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos...
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
...do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...
Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos poetas e sábios...
Outras gentes... não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo...
Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo (Oh! se vejo!...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
[olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza...
cintilantemente firme - como a Esperança...
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando -
o dia da humanidade
O DIA DA HUMANIDADE!...
Viriato da Cruz
Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!
Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
[dos seringais dos algodoais!...
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos
[das pampas das minas!
Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
Lord God, what will have we done
- Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén...
Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
[amaciando as mais ricas terras do mundo!
Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no "tronco", pendentes da
[forca, caídos por Lynch!
Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos...
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
...do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...
Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos poetas e sábios...
Outras gentes... não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo...
Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo (Oh! se vejo!...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
[olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza...
cintilantemente firme - como a Esperança...
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando -
o dia da humanidade
O DIA DA HUMANIDADE!...
Viriato da Cruz
sábado, 28 de fevereiro de 2009
A PAVOROSA
EPISTOLA.
Pavorosa illusão da eternidade,
Terror dos vivos, carcere dos mortos,
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Systema da politica oppressora,
Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas;
Dogma funesto, detestavel crença
Que envenenas delicias innocentes,
Taes como aquellas que no céo se fingem.
Furias, cerastes, dragos, centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chamma;
Incompativeis producções do engano,
Do sempiterno horror terrivel quadro
(Só terrivel aos olhos da ignorancia)
Não, não me assombram tuas negras côres:
Dos homens o pincel e a mão conheço.
Trema de ouvir sacrilego ameaço
Quem de um Deos, quando quer, faz um tyranno.
Trema a superstição; lagrimas, preces,
Votos, suspiros, arquejando espalhe;
Cosa as faces co'a terra, os peitos fira:
Vergonhosa piedade, inutil venia.
Espere ás plantas do impostor sagrado,
Q'ora os infernos abre, ora os ferrolha;
Que as leis e propensões da natureza
Eternas, immutaveis, necessarias,
Chama espantosos, voluntarios crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Aborrece nos mais, nos mais fulmina;
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despotica voz á carne arbítra;
E nos ares traçando a futil benção,
Vai do gran'tribunal desenfadar-se
Em sordido prazer, venaes delicias,
Escandalo de amor, que dá, não vende.
Ó Deus! não oppressor, não vingativo,
Não vibrando c'o a dextra o raio ardente
Contra o suave instincto que nos déste;
Não carrancudo, rispido arrojando
Sobre os mortaes a rispida sentença;
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te ama, que te incensa, e crê que és duro:
Monstros de vis paixões, damnados peitos,
Pungidos pelo sofrego interesse,
Alto, impassivel numen, te attribuem
A colera, a vingança, os vicios todos;
Negros enxames, que lhe fervem n'alma.
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror de barbaras cruezas;
Cobrir de véo compacto e venerando,
Atroz satisfação d'antiguos odios,
Que a mira poem no estrago da innocencia:
Ou quer manter asperrimo dominio,
Que os vaivens da razão franqueia e nutre.
Eil-o em sancto furor todo abrasado,
Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,
A maldição na bôcca, o fel na espuma;
Eil-o cheio de um Deus tam mau como elle;
Eil-o citando os horridos exemplos,
Em que aterrada observa a phantasia
Um Deus o algoz, a victima o seu povo.
No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,
Involto em nuvens, em trovões, em raios,
D'Israel o tyranno omnipotente
Lá brama do Sinai, lá treme a terra.
O torvo executor dos seus decretos,
Hypocrita feroz, Moysés astuto
Ouve o terrivel Deus, que assim troveja:
"Vai, ministro fiel dos meus furores,
Corre, vôa a vingar-me, e seja a raiva
D'esfaimados leões menor que a tua.
Meu poder, minhas forças te confio;
Minha tocha invisivel te precede;
Dos impios, dos ingratos, que me offendem
Na rebelde cerviz o ferro ensopa.
Extermina, destroe, reduz a cinzas
Dam a frageis metaes, a deuses surdos.
Sepulta as minhas victimas no inferno;
E treme se a vingança me retardas."
Não lh'a retarda o rabido propheta.
Já corre, já vozeia, já diffunde
Pelos brutos attonitos sequazes
A peste do implacavel fanatismo.
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam.
Que sanha, que furor, que atrocidade!
Foge dos corações a natureza.
Os consortes, os paes, as mães, os filhos,
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricidio.
Os campos de cadaveres se alastram;
Susurra pela terra o sangue em rios.
Ah! barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serêna o phrenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores que derramas
Para fundar o imperio dos tyrannos,
Para deixar-lhe o feio e duro exemplo
D'opprimir seus iguaes com ferreo jugo.
Não profanes, sacrilego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto.
Esse, de quem te ostentas tam valido,
He Deus, do teu furor, Deus do teu genio;
Deus creado por ti, Deus necessario
Aos tyrannos da terra, aos que te imitam,
E áquelles que não crêem que Deus existe.
N'este quadro fatal bem vês, Marilia,
Que, em tenebrosos seculos involta,
Desde aquelles crueis, nefandos tempos,
Dolosa tradição correu aos nossos.
Do coração, da ideia, ah! desarraiga
De astutos mestres a fallaz doutrina,
E de credulos paes preoccupados
As chimeras, visões, phantasmas, sonhos.
Ha Deus; mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pae dos homens, não flagello;
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo;
Que só não leva a bem o abuso d'ellas;
Porque á nossa existencia não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida.
Amor he lei do Eterno, he lei suave:
As mais sam invenções; sam quasi todas
Contrarias á razão e á natureza,
Proprias ao bem de alguns, e ao mal de muitos.
Natureza e razão jámais differem:
Natureza e razão movem, conduzem
A dar soccorro ao pallido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do afflicto,
E a remir a innocencia consternada,
Quando nos debeis, magoados pulsos
Lhe roxeía o vergão de vís algemas.
Natureza e razão jámais approvam
O abuso das paixões, aquella insania
Que, pondo os homens a nivel dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando a nossos iguaes, quando huns aos outros
Traçamos fero damno, injustos males,
Em nossos corações, em nossas mentes
És, ó remorso! o precursor do crime;
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe;
Pois não póde evitar-se o pensamento.
He innocente a mão que se arrepende.
Não vêem só d'um principio acções oppostas,
Taes dimanam de um Deus, e taes do exemplo,
Ou do cego furor, molestia d'alma.
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto
Que te anceiam phantasticos terrores,
Prégados pelo ardil, pelo interesse
Só de infestos mortaes na voz, n'astucia.
A bem da tyrannia está o inferno:
Esse que pintam bárathro de angustias
Sería o galardão, sería o fructo
Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse.
Escuta o coração, Marilia bella,
Escuta o coração, que te não mente;
Mil vezes te dirá; "Se a rigorosa,
Carrancuda oppressão de um pae severo
Te não deixa chegar ao caro amante
Pelo perpetuo nó que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na ideia,
Para tambem de amor dar leis ao mundo;
Se obter não pódes a união solemne,
Que allucina os mortaes; porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que em lagrimas, em ais te estou pedindo?
Reclama o teu poder e os teus direitos
De justiça despotica extorquidos.
Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chamma da ternura os afogueia.
Eia pois, do temor sacode o jugo,
Acanhada donzella, e no teu pejo,
Destra illudindo as vigilantes guardas,
Pelas sombras da noite, a amor propicias,
Demanda os braços do ancioso Elmano;
Ao risonho prazer franqueia os lares.
Consista o laço na união das almas;
Do ditoso hymeneu as venerandas,
Caladas trevas testemunhas sejam;
Seja ministro amor, a terra o templo,
Pois que o templo do Eterno he toda a terra.
Entrega-te depois aos teus transportes,
Os oppressos desejos desaffoga,
Mata o pejo importuno; incita, incita
O que só de prazer merece o nome.
Verás como, involvendo-se as vontades,
Gostos iguaes se dam e se recebem.
Do jubilo ha-de a força amortecer-te;
Do jubilo ha-de a força aviventar-te:
Sentirás suspirar, morrer o amante;
Com os teus confundir os seus suspiros:
Has-de morrer e reviver com elle.
De tam alta ventura, ah! não te prives,
Ah! não prives, insana, a quem te adora."
Eis o que has-de escutar-lhe, ó doce amada!
Se á voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado,
Ás preces que te envia eu uno as minhas.
Ah! faze-me ditoso, e sê ditosa.
Amar he um dever além de um gosto;
Uma necessidade, não um crime
Qual a impostura horrisona pregoa.
Ceos não existem, não existe inferno.
O premio da virtude he a virtude;
He castigo do vicio o proprio vicio.
M. M. B. DU BOCAGE
Pavorosa illusão da eternidade,
Terror dos vivos, carcere dos mortos,
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Systema da politica oppressora,
Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas;
Dogma funesto, detestavel crença
Que envenenas delicias innocentes,
Taes como aquellas que no céo se fingem.
Furias, cerastes, dragos, centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chamma;
Incompativeis producções do engano,
Do sempiterno horror terrivel quadro
(Só terrivel aos olhos da ignorancia)
Não, não me assombram tuas negras côres:
Dos homens o pincel e a mão conheço.
Trema de ouvir sacrilego ameaço
Quem de um Deos, quando quer, faz um tyranno.
Trema a superstição; lagrimas, preces,
Votos, suspiros, arquejando espalhe;
Cosa as faces co'a terra, os peitos fira:
Vergonhosa piedade, inutil venia.
Espere ás plantas do impostor sagrado,
Q'ora os infernos abre, ora os ferrolha;
Que as leis e propensões da natureza
Eternas, immutaveis, necessarias,
Chama espantosos, voluntarios crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Aborrece nos mais, nos mais fulmina;
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despotica voz á carne arbítra;
E nos ares traçando a futil benção,
Vai do gran'tribunal desenfadar-se
Em sordido prazer, venaes delicias,
Escandalo de amor, que dá, não vende.
Ó Deus! não oppressor, não vingativo,
Não vibrando c'o a dextra o raio ardente
Contra o suave instincto que nos déste;
Não carrancudo, rispido arrojando
Sobre os mortaes a rispida sentença;
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te ama, que te incensa, e crê que és duro:
Monstros de vis paixões, damnados peitos,
Pungidos pelo sofrego interesse,
Alto, impassivel numen, te attribuem
A colera, a vingança, os vicios todos;
Negros enxames, que lhe fervem n'alma.
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror de barbaras cruezas;
Cobrir de véo compacto e venerando,
Atroz satisfação d'antiguos odios,
Que a mira poem no estrago da innocencia:
Ou quer manter asperrimo dominio,
Que os vaivens da razão franqueia e nutre.
Eil-o em sancto furor todo abrasado,
Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,
A maldição na bôcca, o fel na espuma;
Eil-o cheio de um Deus tam mau como elle;
Eil-o citando os horridos exemplos,
Em que aterrada observa a phantasia
Um Deus o algoz, a victima o seu povo.
No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,
Involto em nuvens, em trovões, em raios,
D'Israel o tyranno omnipotente
Lá brama do Sinai, lá treme a terra.
O torvo executor dos seus decretos,
Hypocrita feroz, Moysés astuto
Ouve o terrivel Deus, que assim troveja:
"Vai, ministro fiel dos meus furores,
Corre, vôa a vingar-me, e seja a raiva
D'esfaimados leões menor que a tua.
Meu poder, minhas forças te confio;
Minha tocha invisivel te precede;
Dos impios, dos ingratos, que me offendem
Na rebelde cerviz o ferro ensopa.
Extermina, destroe, reduz a cinzas
Dam a frageis metaes, a deuses surdos.
Sepulta as minhas victimas no inferno;
E treme se a vingança me retardas."
Não lh'a retarda o rabido propheta.
Já corre, já vozeia, já diffunde
Pelos brutos attonitos sequazes
A peste do implacavel fanatismo.
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam.
Que sanha, que furor, que atrocidade!
Foge dos corações a natureza.
Os consortes, os paes, as mães, os filhos,
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricidio.
Os campos de cadaveres se alastram;
Susurra pela terra o sangue em rios.
Ah! barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serêna o phrenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores que derramas
Para fundar o imperio dos tyrannos,
Para deixar-lhe o feio e duro exemplo
D'opprimir seus iguaes com ferreo jugo.
Não profanes, sacrilego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto.
Esse, de quem te ostentas tam valido,
He Deus, do teu furor, Deus do teu genio;
Deus creado por ti, Deus necessario
Aos tyrannos da terra, aos que te imitam,
E áquelles que não crêem que Deus existe.
N'este quadro fatal bem vês, Marilia,
Que, em tenebrosos seculos involta,
Desde aquelles crueis, nefandos tempos,
Dolosa tradição correu aos nossos.
Do coração, da ideia, ah! desarraiga
De astutos mestres a fallaz doutrina,
E de credulos paes preoccupados
As chimeras, visões, phantasmas, sonhos.
Ha Deus; mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pae dos homens, não flagello;
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo;
Que só não leva a bem o abuso d'ellas;
Porque á nossa existencia não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida.
Amor he lei do Eterno, he lei suave:
As mais sam invenções; sam quasi todas
Contrarias á razão e á natureza,
Proprias ao bem de alguns, e ao mal de muitos.
Natureza e razão jámais differem:
Natureza e razão movem, conduzem
A dar soccorro ao pallido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do afflicto,
E a remir a innocencia consternada,
Quando nos debeis, magoados pulsos
Lhe roxeía o vergão de vís algemas.
Natureza e razão jámais approvam
O abuso das paixões, aquella insania
Que, pondo os homens a nivel dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando a nossos iguaes, quando huns aos outros
Traçamos fero damno, injustos males,
Em nossos corações, em nossas mentes
És, ó remorso! o precursor do crime;
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe;
Pois não póde evitar-se o pensamento.
He innocente a mão que se arrepende.
Não vêem só d'um principio acções oppostas,
Taes dimanam de um Deus, e taes do exemplo,
Ou do cego furor, molestia d'alma.
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto
Que te anceiam phantasticos terrores,
Prégados pelo ardil, pelo interesse
Só de infestos mortaes na voz, n'astucia.
A bem da tyrannia está o inferno:
Esse que pintam bárathro de angustias
Sería o galardão, sería o fructo
Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse.
Escuta o coração, Marilia bella,
Escuta o coração, que te não mente;
Mil vezes te dirá; "Se a rigorosa,
Carrancuda oppressão de um pae severo
Te não deixa chegar ao caro amante
Pelo perpetuo nó que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na ideia,
Para tambem de amor dar leis ao mundo;
Se obter não pódes a união solemne,
Que allucina os mortaes; porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que em lagrimas, em ais te estou pedindo?
Reclama o teu poder e os teus direitos
De justiça despotica extorquidos.
Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chamma da ternura os afogueia.
Eia pois, do temor sacode o jugo,
Acanhada donzella, e no teu pejo,
Destra illudindo as vigilantes guardas,
Pelas sombras da noite, a amor propicias,
Demanda os braços do ancioso Elmano;
Ao risonho prazer franqueia os lares.
Consista o laço na união das almas;
Do ditoso hymeneu as venerandas,
Caladas trevas testemunhas sejam;
Seja ministro amor, a terra o templo,
Pois que o templo do Eterno he toda a terra.
Entrega-te depois aos teus transportes,
Os oppressos desejos desaffoga,
Mata o pejo importuno; incita, incita
O que só de prazer merece o nome.
Verás como, involvendo-se as vontades,
Gostos iguaes se dam e se recebem.
Do jubilo ha-de a força amortecer-te;
Do jubilo ha-de a força aviventar-te:
Sentirás suspirar, morrer o amante;
Com os teus confundir os seus suspiros:
Has-de morrer e reviver com elle.
De tam alta ventura, ah! não te prives,
Ah! não prives, insana, a quem te adora."
Eis o que has-de escutar-lhe, ó doce amada!
Se á voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado,
Ás preces que te envia eu uno as minhas.
Ah! faze-me ditoso, e sê ditosa.
Amar he um dever além de um gosto;
Uma necessidade, não um crime
Qual a impostura horrisona pregoa.
Ceos não existem, não existe inferno.
O premio da virtude he a virtude;
He castigo do vicio o proprio vicio.
M. M. B. DU BOCAGE
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Carrasquinho Sentimental
Boby Lapointe
Sentimental bourreau
Paroles et Musique: Boby Lapointe 1969
© Editions Presses Artisanes
Era uma vez
Um lindo carrasquinho
Grande como três nozes
E um quase nada mais gordo
De altas e baixas obras
Executador
e para as baixas obras
estava sempre à boa altura
nunca pedia trégua
ainda menos descanso
em vez de greve
executava conscientemente o seu trabalho
No entanto cortar cabeças
dizia, aborrece-me
é algo idiota
suja o meu cepo
para alimentar a minha mãezinha
sangro Paulo e Pedro
o gesto talvez seja brutal
mas nunca pensando mal
carrasquinho sentimental
Aï, aï, aï,... aï, aï, aï,...
Um dia à sua janela
a mulher do coveiro
Chamou : -Olá, homem das cabeças!
Abriu-lhe o coração
Há muito tempo ressequido
Sem embalo de amor
A si quero-me entregar
Carrasquinho vigoroso!
Deito-lhe uma corda
Do alto do meu balcão
Suba, é uma ordem
Vamos, execução!
Para partilhar o seu leito
A bela o convidou
Em meia dúzia de machadadas
Ele o partilhou
O esposo ouvindo o alarde
Apareceu, algo inquieto
Logo partilhou o marido
Para guardar apenas a sua metade
Como a dama se inquietava
Sugerindo : partamos!
Cortou-lhe a cabeça
Depois cortou o próprio pescoço
Príncipes tomem cuidado
Com a doce Isabel
Não venha ela precisar
Do carinho de um carrasquinho
Sentimental bourreau
Paroles et Musique: Boby Lapointe 1969
© Editions Presses Artisanes
Era uma vez
Um lindo carrasquinho
Grande como três nozes
E um quase nada mais gordo
De altas e baixas obras
Executador
e para as baixas obras
estava sempre à boa altura
nunca pedia trégua
ainda menos descanso
em vez de greve
executava conscientemente o seu trabalho
No entanto cortar cabeças
dizia, aborrece-me
é algo idiota
suja o meu cepo
para alimentar a minha mãezinha
sangro Paulo e Pedro
o gesto talvez seja brutal
mas nunca pensando mal
carrasquinho sentimental
Aï, aï, aï,... aï, aï, aï,...
Um dia à sua janela
a mulher do coveiro
Chamou : -Olá, homem das cabeças!
Abriu-lhe o coração
Há muito tempo ressequido
Sem embalo de amor
A si quero-me entregar
Carrasquinho vigoroso!
Deito-lhe uma corda
Do alto do meu balcão
Suba, é uma ordem
Vamos, execução!
Para partilhar o seu leito
A bela o convidou
Em meia dúzia de machadadas
Ele o partilhou
O esposo ouvindo o alarde
Apareceu, algo inquieto
Logo partilhou o marido
Para guardar apenas a sua metade
Como a dama se inquietava
Sugerindo : partamos!
Cortou-lhe a cabeça
Depois cortou o próprio pescoço
Príncipes tomem cuidado
Com a doce Isabel
Não venha ela precisar
Do carinho de um carrasquinho
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
O anjo de pedra
Tinha os olhos abertos mas não via.
O corpo era todo saudade
De alguém que o modelara e não sabia
Que o tocara de maio e claridade.
Parava o seu gesto onde pára tudo :
No limiar das coisas por saber
-e ficara surdo e cego e mudo
Para que tudo fosse grave no seu ser
Eugénio de Andrade
As mãos e os frutos
O corpo era todo saudade
De alguém que o modelara e não sabia
Que o tocara de maio e claridade.
Parava o seu gesto onde pára tudo :
No limiar das coisas por saber
-e ficara surdo e cego e mudo
Para que tudo fosse grave no seu ser
Eugénio de Andrade
As mãos e os frutos
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
NOITE
Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tungurúluas pelos ares!...
..........................................................................
Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...
..........................................................................
Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...
E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...
Por isso as noites são tristes...
Endoidadas, tenebrosas, langorosas,
mas tristes... como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...
É que os meninos brancos...,
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...
Os meninos-brancos... esqueceram!...
ALDA LARA
1948-Outubro (Poemas1966)
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tungurúluas pelos ares!...
..........................................................................
Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...
..........................................................................
Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...
E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...
Por isso as noites são tristes...
Endoidadas, tenebrosas, langorosas,
mas tristes... como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...
É que os meninos brancos...,
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...
Os meninos-brancos... esqueceram!...
ALDA LARA
1948-Outubro (Poemas1966)
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
domingo, 22 de fevereiro de 2009
de Vinicius de Morais
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora!
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora!
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Fogo e Ritmo
Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.
Ó vozes dolorosas de África!
Agostinho Neto
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.
Ó vozes dolorosas de África!
Agostinho Neto
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Mãe Negra
Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela …
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro …
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada …
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar? …
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar? …
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar? …
Mãe-Negra não sabe nada …
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra! …
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar …
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar! …
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada.
poema de Alda Lara
Mãe-Negra, desce com ela …
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro …
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada …
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar? …
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar? …
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar? …
Mãe-Negra não sabe nada …
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra! …
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar …
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar! …
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada.
poema de Alda Lara
PABLO NERUDA

Te recuerdo como eras en el último otoño.
Eras la boina gris y el corazón en calma.
En tus ojos peleaban las llamas del crepúsculo.
Y las hojas caían en el agua de tu alma.
Apegada a mis brazos como una enredadera,
las hojas recogían tu voz lenta y en calma.
Hoguera de estupor en que mi sed ardía.
Dulce jacinto azul torcido sobre mi alma.
Siento viajar tus ojos y es distante el otoño:
boina gris, voz de pájaro y corazón de casa
hacia donde emigraban mis profundos anhelos
y caían mis besos alegres como brasas.
Cielo desde un navío. Campo desde los cerros.
Tu recuerdo es de luz, de humo, de estanque en calma!
Más allá de tus ojos ardían los crepúsculos.
Hojas secas de otoño giraban en tu alma.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
VI

Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
O teu sorriso puro,
A tua graça animal.
Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
O mesmo bicho sadio
Embriagado na alegria
Da tua vinha sem vinho.
Canto porque o amor me apetece.
Porque o feno amadurece
Nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
Por vê-los nus e suados.
Eugénio de Andrade
In “As mãos e os frutos”
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
In "DIA DO MAR"

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem a flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Porquê jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Porquê o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuzes capazes de os viver.
Sophia de Mello Breyner Andresen
domingo, 15 de fevereiro de 2009
(Fernando Pessoa)
"Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis."
TROVA DO VENTO QUE PASSA
Perguntei ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.
Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.
Adriano Correia de Oliveira
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.
Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.
Adriano Correia de Oliveira
MARIA MADALENA
Quem por amor se perdeu
Não chore, nao tenha pena,
Que uma das santas do céu
Foi Maria Madalena.
Desse amor que nos encanta
Até Cristo padeceu
Para poder tornar santa
Quem por amor se perdeu.
Jesus só nos quis mostrar
Que o amor nao se condena,
Por isso quem sabe amar
Não chore, nao tenha pena.
A Virgem Nossa Senhora
Quando o amor conheceu,
Fez da maior pecadora
Uma das santas do céu.
E de tanta que pecou,
Da maior à mais pequena,
Aquela que mais amou
Foi Maria Madalena.
Autores: Grabriel de Oliveira/Fado Das Horas
Não chore, nao tenha pena,
Que uma das santas do céu
Foi Maria Madalena.
Desse amor que nos encanta
Até Cristo padeceu
Para poder tornar santa
Quem por amor se perdeu.
Jesus só nos quis mostrar
Que o amor nao se condena,
Por isso quem sabe amar
Não chore, nao tenha pena.
A Virgem Nossa Senhora
Quando o amor conheceu,
Fez da maior pecadora
Uma das santas do céu.
E de tanta que pecou,
Da maior à mais pequena,
Aquela que mais amou
Foi Maria Madalena.
Autores: Grabriel de Oliveira/Fado Das Horas
sábado, 14 de fevereiro de 2009
FEIRA DA LADRA
Fui à Feira da Ladra, a mais bizarra
Das feiras com a marca do passado,
E vi num ferro-velho uma guitarra
De tampo, sujo, negro, desgrudado.
No fundo uma etiqueta já sem cor
Ocultava um retrato que ficou
E que era de um famoso tocador
Que a morte há muitos anos já levou.
Quatro cordas em rugas de cantigas
Se mais nada fizessem recordar,
Lembravam quatro décimas antigas
À volta de uma quadra popular.
Comprei aquela jóia que se encuadra
Em tudo o que são velhas raridades,
Inda é preciso haver Feira da Ladra
P’ra nos mostrar o preço das saudades.
Autores: Carlos Conde/Fado Zé Grande
Das feiras com a marca do passado,
E vi num ferro-velho uma guitarra
De tampo, sujo, negro, desgrudado.
No fundo uma etiqueta já sem cor
Ocultava um retrato que ficou
E que era de um famoso tocador
Que a morte há muitos anos já levou.
Quatro cordas em rugas de cantigas
Se mais nada fizessem recordar,
Lembravam quatro décimas antigas
À volta de uma quadra popular.
Comprei aquela jóia que se encuadra
Em tudo o que são velhas raridades,
Inda é preciso haver Feira da Ladra
P’ra nos mostrar o preço das saudades.
Autores: Carlos Conde/Fado Zé Grande
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
"Pingos de Chuva"
"Pingos de Chuva"
O cacau está em flor
o café está em flor
a vida toda está em flor
a ilha verde-esmeralda é agora um lago de cristal
onde as lágrimas da chuva ganham brancas asas
na vastidão das noites
que meus avós derramaram nos mares da escravatura
que disso sabem também Simão Andreza
Amador
Yon-Gato
Lázaro
Adão Prata
Duarte Amarroco
e tantos
tantos outros a quem a vida
decepou a esperança
na tela da sua juventude.
Passavam por vezes nos portos das gaivotas navios negreiros
transportando peças humanas
escalando enseadas de outras terras virginais...
não eram corações que iam dentro dos navios
eram apenas eles
os sem nome e sem história
arrancados brutalmente
à palpitação do ventre natal
seguindo destino ignoto onde
um cortejo infindável de sofrimento e dor
caminhava a passos largos
para dentro do seu peito
que tinha nascido livre.
Levavam nada mais que a robustez e a força
para fazerem giraras rodas dos engenhos
levantarem palácios e monumentos
construírem estradas e pontes
roças e fazendas.
Quem já se lembrou de lhes erigir uma estátua?
E meus avós plantados nas escarpas do cacau
acenavam ansiosos aos rostos de ébano que como eles
murmuravam em uníssono
cânticos hossânicos
aos deuses esquecidos das terras de Mãe-África.
Nunca viajaram
só os olhos se perderam nas caravelas impossíveis
da sua insularidade
construindo astrolábios de ternura
nos quadrantes de uma sensualidade recalcada.
Olinda Beja in "Pingos de Chuva"
O cacau está em flor
o café está em flor
a vida toda está em flor
a ilha verde-esmeralda é agora um lago de cristal
onde as lágrimas da chuva ganham brancas asas
na vastidão das noites
que meus avós derramaram nos mares da escravatura
que disso sabem também Simão Andreza
Amador
Yon-Gato
Lázaro
Adão Prata
Duarte Amarroco
e tantos
tantos outros a quem a vida
decepou a esperança
na tela da sua juventude.
Passavam por vezes nos portos das gaivotas navios negreiros
transportando peças humanas
escalando enseadas de outras terras virginais...
não eram corações que iam dentro dos navios
eram apenas eles
os sem nome e sem história
arrancados brutalmente
à palpitação do ventre natal
seguindo destino ignoto onde
um cortejo infindável de sofrimento e dor
caminhava a passos largos
para dentro do seu peito
que tinha nascido livre.
Levavam nada mais que a robustez e a força
para fazerem giraras rodas dos engenhos
levantarem palácios e monumentos
construírem estradas e pontes
roças e fazendas.
Quem já se lembrou de lhes erigir uma estátua?
E meus avós plantados nas escarpas do cacau
acenavam ansiosos aos rostos de ébano que como eles
murmuravam em uníssono
cânticos hossânicos
aos deuses esquecidos das terras de Mãe-África.
Nunca viajaram
só os olhos se perderam nas caravelas impossíveis
da sua insularidade
construindo astrolábios de ternura
nos quadrantes de uma sensualidade recalcada.
Olinda Beja in "Pingos de Chuva"
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
O que une a fidelidade à paixão é uma luz invisível
no centro de um rosto, filigranas, telas de uma memoria
difícil. O que une a fidelidade à fidelidade da
paixão é o limite em que se adormece. Mas não
se desperta dessa luz. Se me prendes, eu fujo no
mar, corro nas falésias, nos perigos da morte e do entardecer.
Se eu te prendo, morro repentinamente
sem dizer toda a verdade sobre o que o mar oculta.
Francisco José Viegas
no centro de um rosto, filigranas, telas de uma memoria
difícil. O que une a fidelidade à fidelidade da
paixão é o limite em que se adormece. Mas não
se desperta dessa luz. Se me prendes, eu fujo no
mar, corro nas falésias, nos perigos da morte e do entardecer.
Se eu te prendo, morro repentinamente
sem dizer toda a verdade sobre o que o mar oculta.
Francisco José Viegas
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Espremendo quem trabalha se "ceba" quem desperdiça
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Descaminhos
Me perdoa essa falta de tempo
Que por vezes chega a me desesperar
Esse meu desatino, nossos descaminhos
E a vontade louca de ficar.
Me perdoa essa falta de sono
Que por vezes chega a me desanimar
Queria te encontrar nesse meu abandono
E não ter que depois desapegar.
Te queria sem pressa, sem medo
Na loucura de um dia qualquer
Te tragar no silêncio da noite
Nos teus braços me sentir mulher.
Mas a falta de tempo é tamanha
Que essa ausência de mim te devora
Me perdoa esse jeito cigano
De partir sempre antes da hora.
Te queria sem pressa, sem medo
Na loucura de um dia qualquer
Te tragar no silêncio da noite
Nos teus braços me sentir mulher.
Mas a falta de tempo é tamanha
Que essa ausência de mim te devora
Me perdoa esse jeito cigano
De partir sempre antes da hora.
Joanna
Que por vezes chega a me desesperar
Esse meu desatino, nossos descaminhos
E a vontade louca de ficar.
Me perdoa essa falta de sono
Que por vezes chega a me desanimar
Queria te encontrar nesse meu abandono
E não ter que depois desapegar.
Te queria sem pressa, sem medo
Na loucura de um dia qualquer
Te tragar no silêncio da noite
Nos teus braços me sentir mulher.
Mas a falta de tempo é tamanha
Que essa ausência de mim te devora
Me perdoa esse jeito cigano
De partir sempre antes da hora.
Te queria sem pressa, sem medo
Na loucura de um dia qualquer
Te tragar no silêncio da noite
Nos teus braços me sentir mulher.
Mas a falta de tempo é tamanha
Que essa ausência de mim te devora
Me perdoa esse jeito cigano
De partir sempre antes da hora.
Joanna
sábado, 7 de fevereiro de 2009
PROFANA CONFISSÃO
Eu
Pecadora
Me confesso
Sim
É verdade
Quebrei todos os votos
Que te fiz por amor
Num impulso de fraqueza
Que me inquietou a alma...
As promessas
A dedicação plena
De só a ti pertencer
Desculpa-me Senhor
Mas não consegui
A tentação foi maior
E rendi-me ao desejo
Pois queria tanto conhecer
O paladar do pecado
Queria tanto saber
Se era doce ou amargo
Ousei
Provei
E... gostei!
Juro-te que falo a verdade
Nem sequer
Te rogo o meu perdão
Pois se pequei
Se vendi a alma ao Diabo
Num acesso de loucura
E paixão
Castiga-me por favor
Eu sei... bem o mereço!
Senhor...
Nada mais poderei fazer
Pois tudo o que eu fiz
Foi de total e livre vontade
Insana entrega
No leito da luxúria
E no deleite
Dos prazeres da carne
E sabes Senhor
Vou-te confessar um segredo
Não conheço melhor sabor
Do que o sabor do pecado
Pisar o risco
E ousar
Desafiar os limites
Do certo e do errado
Por isso
E se ainda me quiseres
Senhor
Terás de me partilhar
Com o demónio que me possuiu
Carregando com o peso do meu segredo!
E este desejo...
Que ainda me escalda a pele
Por debaixo deste hábito
Que encolheu
E já não me chega
Para me livrar da queda
Na alcova da tentação
Aqui estou
Senhor
À mercê do teu castigo
Pela minha redenção...
[/i]
"Cleo"
L.D.
________________________________________
*...VIVO NA RENOVAÇÃO DOS SENTIDOS, JUNTO DA ANTIGUIDADE DAS LEMBRANÇAS, EM FRENTE DAS EMOÇÕES...*
http://impulsosdalma.blogspot.com/
http://flashs-impulsos.blogspot.com/
Pecadora
Me confesso
Sim
É verdade
Quebrei todos os votos
Que te fiz por amor
Num impulso de fraqueza
Que me inquietou a alma...
As promessas
A dedicação plena
De só a ti pertencer
Desculpa-me Senhor
Mas não consegui
A tentação foi maior
E rendi-me ao desejo
Pois queria tanto conhecer
O paladar do pecado
Queria tanto saber
Se era doce ou amargo
Ousei
Provei
E... gostei!
Juro-te que falo a verdade
Nem sequer
Te rogo o meu perdão
Pois se pequei
Se vendi a alma ao Diabo
Num acesso de loucura
E paixão
Castiga-me por favor
Eu sei... bem o mereço!
Senhor...
Nada mais poderei fazer
Pois tudo o que eu fiz
Foi de total e livre vontade
Insana entrega
No leito da luxúria
E no deleite
Dos prazeres da carne
E sabes Senhor
Vou-te confessar um segredo
Não conheço melhor sabor
Do que o sabor do pecado
Pisar o risco
E ousar
Desafiar os limites
Do certo e do errado
Por isso
E se ainda me quiseres
Senhor
Terás de me partilhar
Com o demónio que me possuiu
Carregando com o peso do meu segredo!
E este desejo...
Que ainda me escalda a pele
Por debaixo deste hábito
Que encolheu
E já não me chega
Para me livrar da queda
Na alcova da tentação
Aqui estou
Senhor
À mercê do teu castigo
Pela minha redenção...
[/i]
"Cleo"
L.D.
________________________________________
*...VIVO NA RENOVAÇÃO DOS SENTIDOS, JUNTO DA ANTIGUIDADE DAS LEMBRANÇAS, EM FRENTE DAS EMOÇÕES...*
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Walt Whitman
En su país de hierro vive el gran viejo
Bello como un patriarca, sereno y santo.
Tiene la arruga olímpica de su entrecejo
Algo que impera y vence con noble encanto.
Su alma del infinito parece espejo ;
Son sus cansados ombros dignos del manto ;
Y con arpa labrada de un roble añejo,
Como un profeta nuevo canta su canto ;
Sacerdote que alienta soplo divino,
Anuncia en el futuro, tiempo mejor.
Dice al águila : « ¡ Vuela !» ; « ¡ Boga !» al marino,
Y « ¡ Trabaja !» al robusto trabajador.
¡Así va ese poeta por su camino,
Con su soberbio rostro de emperador !
Rubén Dario
Azul...Cantos de vida y esperanza
Bello como un patriarca, sereno y santo.
Tiene la arruga olímpica de su entrecejo
Algo que impera y vence con noble encanto.
Su alma del infinito parece espejo ;
Son sus cansados ombros dignos del manto ;
Y con arpa labrada de un roble añejo,
Como un profeta nuevo canta su canto ;
Sacerdote que alienta soplo divino,
Anuncia en el futuro, tiempo mejor.
Dice al águila : « ¡ Vuela !» ; « ¡ Boga !» al marino,
Y « ¡ Trabaja !» al robusto trabajador.
¡Así va ese poeta por su camino,
Con su soberbio rostro de emperador !
Rubén Dario
Azul...Cantos de vida y esperanza
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
A águia negra
Um belo dia, ou talvez uma noite
Junto a um lago, deixei-me adormecer
Quando subitamente parecendo romper o céu
Vinda de nenhum lado
Surgiu uma águia negra
Docemente, as asas desdobradas
Docemente, vi-a rodopiar
Pertinho de mim, em um murmúrio de asas
Como caída do céu
A ave veio pousar
Tinha os olhos cor de rubi
E as penas da cor da noite
A testa brilhava como mil chamas
A ave, coroada rainha
Trazia um diamante azul
Com o bico, tocou-me a bochecha
Na minha mão pousou o seu pescoço
E foi então que o reconheci
Surgindo do passado
Tinha-me voltado
Diz-me pássaro. Dis-me, levo-te…
Voltemos ao país do passado
Como antes, nos meus sonhos de criança
Para colher tremendo
Estrelas nas estrelas
Como antes, nos meus sonhos de criança
Como antes sobre uma nuvem branca
Como antes de acender o sol
Ser fazedor de chuva
E construir maravilhas
A águia negra, num murmúrio de asas
pos-se a voar para ganhar o céu
Quatro penas da cor da noite
Uma lágrima, ou talvez um rubi
Tinha frio, nada me restava
A ave deixou-me
A sós com a minha dor
A grande BARBARA
Junto a um lago, deixei-me adormecer
Quando subitamente parecendo romper o céu
Vinda de nenhum lado
Surgiu uma águia negra
Docemente, as asas desdobradas
Docemente, vi-a rodopiar
Pertinho de mim, em um murmúrio de asas
Como caída do céu
A ave veio pousar
Tinha os olhos cor de rubi
E as penas da cor da noite
A testa brilhava como mil chamas
A ave, coroada rainha
Trazia um diamante azul
Com o bico, tocou-me a bochecha
Na minha mão pousou o seu pescoço
E foi então que o reconheci
Surgindo do passado
Tinha-me voltado
Diz-me pássaro. Dis-me, levo-te…
Voltemos ao país do passado
Como antes, nos meus sonhos de criança
Para colher tremendo
Estrelas nas estrelas
Como antes, nos meus sonhos de criança
Como antes sobre uma nuvem branca
Como antes de acender o sol
Ser fazedor de chuva
E construir maravilhas
A águia negra, num murmúrio de asas
pos-se a voar para ganhar o céu
Quatro penas da cor da noite
Uma lágrima, ou talvez um rubi
Tinha frio, nada me restava
A ave deixou-me
A sós com a minha dor
A grande BARBARA
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
A "merda" da guerra
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Não , nada lamento
Não , nada de nada
Não , nada lamento
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, tudo isso me é indiferente
Não , nada de nada
Não , nada lamento
Esta pago, varrido, esquecido
Não quero saber do passado
Com as minhas lembranças
Acendi uma fogueira
Os desgostos, os prazeres
Já não preciso deles
Varridos os amores
Com todos os seus «trémulos»
Varridos para sempre
Torno a partir, a zero
Letra da canção : Non je ne regrette rien, Edith Piaf
Não , nada lamento
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, tudo isso me é indiferente
Não , nada de nada
Não , nada lamento
Esta pago, varrido, esquecido
Não quero saber do passado
Com as minhas lembranças
Acendi uma fogueira
Os desgostos, os prazeres
Já não preciso deles
Varridos os amores
Com todos os seus «trémulos»
Varridos para sempre
Torno a partir, a zero
Letra da canção : Non je ne regrette rien, Edith Piaf
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