sábado, 28 de fevereiro de 2009

A PAVOROSA

EPISTOLA.

Pavorosa illusão da eternidade,
Terror dos vivos, carcere dos mortos,
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Systema da politica oppressora,
Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas;
Dogma funesto, detestavel crença
Que envenenas delicias innocentes,
Taes como aquellas que no céo se fingem.
Furias, cerastes, dragos, centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chamma;
Incompativeis producções do engano,
Do sempiterno horror terrivel quadro
(Só terrivel aos olhos da ignorancia)
Não, não me assombram tuas negras côres:
Dos homens o pincel e a mão conheço.
Trema de ouvir sacrilego ameaço
Quem de um Deos, quando quer, faz um tyranno.
Trema a superstição; lagrimas, preces,
Votos, suspiros, arquejando espalhe;
Cosa as faces co'a terra, os peitos fira:
Vergonhosa piedade, inutil venia.
Espere ás plantas do impostor sagrado,
Q'ora os infernos abre, ora os ferrolha;
Que as leis e propensões da natureza
Eternas, immutaveis, necessarias,
Chama espantosos, voluntarios crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Aborrece nos mais, nos mais fulmina;
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despotica voz á carne arbítra;
E nos ares traçando a futil benção,
Vai do gran'tribunal desenfadar-se
Em sordido prazer, venaes delicias,
Escandalo de amor, que dá, não vende.
Ó Deus! não oppressor, não vingativo,
Não vibrando c'o a dextra o raio ardente
Contra o suave instincto que nos déste;
Não carrancudo, rispido arrojando
Sobre os mortaes a rispida sentença;
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te ama, que te incensa, e crê que és duro:
Monstros de vis paixões, damnados peitos,
Pungidos pelo sofrego interesse,
Alto, impassivel numen, te attribuem
A colera, a vingança, os vicios todos;
Negros enxames, que lhe fervem n'alma.
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror de barbaras cruezas;
Cobrir de véo compacto e venerando,
Atroz satisfação d'antiguos odios,
Que a mira poem no estrago da innocencia:
Ou quer manter asperrimo dominio,
Que os vaivens da razão franqueia e nutre.
Eil-o em sancto furor todo abrasado,
Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,
A maldição na bôcca, o fel na espuma;
Eil-o cheio de um Deus tam mau como elle;
Eil-o citando os horridos exemplos,
Em que aterrada observa a phantasia
Um Deus o algoz, a victima o seu povo.
No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,
Involto em nuvens, em trovões, em raios,
D'Israel o tyranno omnipotente
Lá brama do Sinai, lá treme a terra.
O torvo executor dos seus decretos,
Hypocrita feroz, Moysés astuto
Ouve o terrivel Deus, que assim troveja:
"Vai, ministro fiel dos meus furores,
Corre, vôa a vingar-me, e seja a raiva
D'esfaimados leões menor que a tua.
Meu poder, minhas forças te confio;
Minha tocha invisivel te precede;
Dos impios, dos ingratos, que me offendem
Na rebelde cerviz o ferro ensopa.
Extermina, destroe, reduz a cinzas
Dam a frageis metaes, a deuses surdos.
Sepulta as minhas victimas no inferno;
E treme se a vingança me retardas."
Não lh'a retarda o rabido propheta.
Já corre, já vozeia, já diffunde
Pelos brutos attonitos sequazes
A peste do implacavel fanatismo.
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam.
Que sanha, que furor, que atrocidade!
Foge dos corações a natureza.
Os consortes, os paes, as mães, os filhos,
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricidio.
Os campos de cadaveres se alastram;
Susurra pela terra o sangue em rios.
Ah! barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serêna o phrenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores que derramas
Para fundar o imperio dos tyrannos,
Para deixar-lhe o feio e duro exemplo
D'opprimir seus iguaes com ferreo jugo.
Não profanes, sacrilego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto.
Esse, de quem te ostentas tam valido,
He Deus, do teu furor, Deus do teu genio;
Deus creado por ti, Deus necessario
Aos tyrannos da terra, aos que te imitam,
E áquelles que não crêem que Deus existe.
N'este quadro fatal bem vês, Marilia,
Que, em tenebrosos seculos involta,
Desde aquelles crueis, nefandos tempos,
Dolosa tradição correu aos nossos.
Do coração, da ideia, ah! desarraiga
De astutos mestres a fallaz doutrina,
E de credulos paes preoccupados
As chimeras, visões, phantasmas, sonhos.
Ha Deus; mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pae dos homens, não flagello;
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo;
Que só não leva a bem o abuso d'ellas;
Porque á nossa existencia não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida.
Amor he lei do Eterno, he lei suave:
As mais sam invenções; sam quasi todas
Contrarias á razão e á natureza,
Proprias ao bem de alguns, e ao mal de muitos.
Natureza e razão jámais differem:
Natureza e razão movem, conduzem
A dar soccorro ao pallido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do afflicto,
E a remir a innocencia consternada,
Quando nos debeis, magoados pulsos
Lhe roxeía o vergão de vís algemas.
Natureza e razão jámais approvam
O abuso das paixões, aquella insania
Que, pondo os homens a nivel dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando a nossos iguaes, quando huns aos outros
Traçamos fero damno, injustos males,
Em nossos corações, em nossas mentes
És, ó remorso! o precursor do crime;
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe;
Pois não póde evitar-se o pensamento.
He innocente a mão que se arrepende.
Não vêem só d'um principio acções oppostas,
Taes dimanam de um Deus, e taes do exemplo,
Ou do cego furor, molestia d'alma.
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto
Que te anceiam phantasticos terrores,
Prégados pelo ardil, pelo interesse
Só de infestos mortaes na voz, n'astucia.
A bem da tyrannia está o inferno:
Esse que pintam bárathro de angustias
Sería o galardão, sería o fructo
Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse.
Escuta o coração, Marilia bella,
Escuta o coração, que te não mente;
Mil vezes te dirá; "Se a rigorosa,
Carrancuda oppressão de um pae severo
Te não deixa chegar ao caro amante
Pelo perpetuo nó que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na ideia,
Para tambem de amor dar leis ao mundo;
Se obter não pódes a união solemne,
Que allucina os mortaes; porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que em lagrimas, em ais te estou pedindo?
Reclama o teu poder e os teus direitos
De justiça despotica extorquidos.
Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chamma da ternura os afogueia.
Eia pois, do temor sacode o jugo,
Acanhada donzella, e no teu pejo,
Destra illudindo as vigilantes guardas,
Pelas sombras da noite, a amor propicias,
Demanda os braços do ancioso Elmano;
Ao risonho prazer franqueia os lares.
Consista o laço na união das almas;
Do ditoso hymeneu as venerandas,
Caladas trevas testemunhas sejam;
Seja ministro amor, a terra o templo,
Pois que o templo do Eterno he toda a terra.
Entrega-te depois aos teus transportes,
Os oppressos desejos desaffoga,
Mata o pejo importuno; incita, incita
O que só de prazer merece o nome.
Verás como, involvendo-se as vontades,
Gostos iguaes se dam e se recebem.
Do jubilo ha-de a força amortecer-te;
Do jubilo ha-de a força aviventar-te:
Sentirás suspirar, morrer o amante;
Com os teus confundir os seus suspiros:
Has-de morrer e reviver com elle.
De tam alta ventura, ah! não te prives,
Ah! não prives, insana, a quem te adora."
Eis o que has-de escutar-lhe, ó doce amada!
Se á voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado,
Ás preces que te envia eu uno as minhas.
Ah! faze-me ditoso, e sê ditosa.
Amar he um dever além de um gosto;
Uma necessidade, não um crime
Qual a impostura horrisona pregoa.
Ceos não existem, não existe inferno.
O premio da virtude he a virtude;
He castigo do vicio o proprio vicio.

M. M. B. DU BOCAGE

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Carrasquinho Sentimental

Boby Lapointe

Sentimental bourreau
Paroles et Musique: Boby Lapointe 1969
© Editions Presses Artisanes


Era uma vez
Um lindo carrasquinho
Grande como três nozes
E um quase nada mais gordo
De altas e baixas obras
Executador
e para as baixas obras
estava sempre à boa altura
nunca pedia trégua
ainda menos descanso
em vez de greve
executava conscientemente o seu trabalho

No entanto cortar cabeças
dizia, aborrece-me
é algo idiota
suja o meu cepo
para alimentar a minha mãezinha
sangro Paulo e Pedro
o gesto talvez seja brutal
mas nunca pensando mal
carrasquinho sentimental
Aï, aï, aï,... aï, aï, aï,...

Um dia à sua janela
a mulher do coveiro
Chamou : -Olá, homem das cabeças!
Abriu-lhe o coração
Há muito tempo ressequido
Sem embalo de amor
A si quero-me entregar
Carrasquinho vigoroso!
Deito-lhe uma corda
Do alto do meu balcão
Suba, é uma ordem
Vamos, execução!

Para partilhar o seu leito
A bela o convidou
Em meia dúzia de machadadas
Ele o partilhou
O esposo ouvindo o alarde
Apareceu, algo inquieto
Logo partilhou o marido
Para guardar apenas a sua metade
Como a dama se inquietava
Sugerindo : partamos!
Cortou-lhe a cabeça
Depois cortou o próprio pescoço

Príncipes tomem cuidado
Com a doce Isabel
Não venha ela precisar
Do carinho de um carrasquinho

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O anjo de pedra

Tinha os olhos abertos mas não via.
O corpo era todo saudade
De alguém que o modelara e não sabia
Que o tocara de maio e claridade.

Parava o seu gesto onde pára tudo :
No limiar das coisas por saber
-e ficara surdo e cego e mudo
Para que tudo fosse grave no seu ser

Eugénio de Andrade
As mãos e os frutos

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

NOITE

Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tungurúluas pelos ares!...
..........................................................................
Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...
..........................................................................
Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...
E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...
Por isso as noites são tristes...
Endoidadas, tenebrosas, langorosas,
mas tristes... como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...
É que os meninos brancos...,
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...
Os meninos-brancos... esqueceram!...

ALDA LARA
1948-Outubro (Poemas1966)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Juro que não nasci pra isso, mas vou cumprindo como posso o que represento com minhas somas e perdas. Ando caminhando meus palmos e plumas dentro do que não me pertence, mas que está em mim e que guardo como se guarda um pássaro no vôo. Vou...

(Lau Siqueira )

domingo, 22 de fevereiro de 2009

de Vinicius de Morais

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Fogo e Ritmo

Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.

Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas

Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!

Agostinho Neto

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Mãe Negra

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela …
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro …
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada …
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar? …
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar? …
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar? …
Mãe-Negra não sabe nada …
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra! …
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar …
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar! …
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada.

poema de Alda Lara

PABLO NERUDA




Te recuerdo como eras en el último otoño.
Eras la boina gris y el corazón en calma.
En tus ojos peleaban las llamas del crepúsculo.
Y las hojas caían en el agua de tu alma.

Apegada a mis brazos como una enredadera,
las hojas recogían tu voz lenta y en calma.
Hoguera de estupor en que mi sed ardía.
Dulce jacinto azul torcido sobre mi alma.

Siento viajar tus ojos y es distante el otoño:
boina gris, voz de pájaro y corazón de casa
hacia donde emigraban mis profundos anhelos
y caían mis besos alegres como brasas.

Cielo desde un navío. Campo desde los cerros.
Tu recuerdo es de luz, de humo, de estanque en calma!
Más allá de tus ojos ardían los crepúsculos.
Hojas secas de otoño giraban en tu alma.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

VI





Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
O teu sorriso puro,
A tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
O mesmo bicho sadio
Embriagado na alegria
Da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor me apetece.
Porque o feno amadurece
Nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
Por vê-los nus e suados.

Eugénio de Andrade
In “As mãos e os frutos”

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

In "DIA DO MAR"




Bebido o luar, ébrios de horizontes,
julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem a flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Porquê jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Porquê o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuzes capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 15 de fevereiro de 2009

(Fernando Pessoa)

"Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis."

TROVA DO VENTO QUE PASSA

Perguntei ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.

Adriano Correia de Oliveira

MARIA MADALENA

Quem por amor se perdeu

Não chore, nao tenha pena,

Que uma das santas do céu

Foi Maria Madalena.



Desse amor que nos encanta

Até Cristo padeceu

Para poder tornar santa

Quem por amor se perdeu.



Jesus só nos quis mostrar

Que o amor nao se condena,

Por isso quem sabe amar

Não chore, nao tenha pena.



A Virgem Nossa Senhora

Quando o amor conheceu,

Fez da maior pecadora

Uma das santas do céu.



E de tanta que pecou,

Da maior à mais pequena,

Aquela que mais amou

Foi Maria Madalena.






Autores: Grabriel de Oliveira/Fado Das Horas

sábado, 14 de fevereiro de 2009

FEIRA DA LADRA

Fui à Feira da Ladra, a mais bizarra

Das feiras com a marca do passado,

E vi num ferro-velho uma guitarra

De tampo, sujo, negro, desgrudado.



No fundo uma etiqueta já sem cor

Ocultava um retrato que ficou

E que era de um famoso tocador

Que a morte há muitos anos já levou.



Quatro cordas em rugas de cantigas

Se mais nada fizessem recordar,

Lembravam quatro décimas antigas

À volta de uma quadra popular.



Comprei aquela jóia que se encuadra

Em tudo o que são velhas raridades,

Inda é preciso haver Feira da Ladra

P’ra nos mostrar o preço das saudades.





Autores: Carlos Conde/Fado Zé Grande

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

"Pingos de Chuva"

"Pingos de Chuva"

O cacau está em flor
o café está em flor
a vida toda está em flor

a ilha verde-esmeralda é agora um lago de cristal
onde as lágrimas da chuva ganham brancas asas
na vastidão das noites
que meus avós derramaram nos mares da escravatura
que disso sabem também Simão Andreza
Amador
Yon-Gato
Lázaro
Adão Prata
Duarte Amarroco
e tantos
tantos outros a quem a vida
decepou a esperança
na tela da sua juventude.

Passavam por vezes nos portos das gaivotas navios negreiros
transportando peças humanas
escalando enseadas de outras terras virginais...
não eram corações que iam dentro dos navios
eram apenas eles
os sem nome e sem história
arrancados brutalmente
à palpitação do ventre natal
seguindo destino ignoto onde
um cortejo infindável de sofrimento e dor
caminhava a passos largos
para dentro do seu peito
que tinha nascido livre.

Levavam nada mais que a robustez e a força
para fazerem giraras rodas dos engenhos
levantarem palácios e monumentos
construírem estradas e pontes
roças e fazendas.

Quem já se lembrou de lhes erigir uma estátua?

E meus avós plantados nas escarpas do cacau
acenavam ansiosos aos rostos de ébano que como eles
murmuravam em uníssono
cânticos hossânicos
aos deuses esquecidos das terras de Mãe-África.
Nunca viajaram
só os olhos se perderam nas caravelas impossíveis
da sua insularidade
construindo astrolábios de ternura
nos quadrantes de uma sensualidade recalcada.

Olinda Beja in "Pingos de Chuva"

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O que é bom...




deve-se partilhar.

Uma onda vai



Outras ondas vêm...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O que une a fidelidade à paixão é uma luz invisível
no centro de um rosto, filigranas, telas de uma memoria

difícil. O que une a fidelidade à fidelidade da

paixão é o limite em que se adormece. Mas não

se desperta dessa luz. Se me prendes, eu fujo no

mar, corro nas falésias, nos perigos da morte e do entardecer.
Se eu te prendo, morro repentinamente

sem dizer toda a verdade sobre o que o mar oculta.

Francisco José Viegas

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Espremendo quem trabalha se "ceba" quem desperdiça




Finalmente é sempre dos mesmos que se apertam as porcas...

Foto de François Kollar dans "La France travaille"

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Descaminhos

Me perdoa essa falta de tempo
Que por vezes chega a me desesperar
Esse meu desatino, nossos descaminhos
E a vontade louca de ficar.

Me perdoa essa falta de sono
Que por vezes chega a me desanimar
Queria te encontrar nesse meu abandono
E não ter que depois desapegar.

Te queria sem pressa, sem medo
Na loucura de um dia qualquer
Te tragar no silêncio da noite
Nos teus braços me sentir mulher.

Mas a falta de tempo é tamanha
Que essa ausência de mim te devora
Me perdoa esse jeito cigano
De partir sempre antes da hora.

Te queria sem pressa, sem medo
Na loucura de um dia qualquer
Te tragar no silêncio da noite
Nos teus braços me sentir mulher.

Mas a falta de tempo é tamanha
Que essa ausência de mim te devora
Me perdoa esse jeito cigano
De partir sempre antes da hora.



Joanna

sábado, 7 de fevereiro de 2009

PROFANA CONFISSÃO

Eu
Pecadora
Me confesso

Sim
É verdade
Quebrei todos os votos
Que te fiz por amor
Num impulso de fraqueza
Que me inquietou a alma...

As promessas
A dedicação plena
De só a ti pertencer

Desculpa-me Senhor
Mas não consegui

A tentação foi maior
E rendi-me ao desejo
Pois queria tanto conhecer
O paladar do pecado
Queria tanto saber
Se era doce ou amargo
Ousei
Provei
E... gostei!

Juro-te que falo a verdade
Nem sequer
Te rogo o meu perdão

Pois se pequei
Se vendi a alma ao Diabo
Num acesso de loucura
E paixão
Castiga-me por favor
Eu sei... bem o mereço!

Senhor...

Nada mais poderei fazer
Pois tudo o que eu fiz
Foi de total e livre vontade
Insana entrega
No leito da luxúria
E no deleite
Dos prazeres da carne

E sabes Senhor
Vou-te confessar um segredo
Não conheço melhor sabor
Do que o sabor do pecado
Pisar o risco
E ousar
Desafiar os limites
Do certo e do errado

Por isso
E se ainda me quiseres
Senhor
Terás de me partilhar
Com o demónio que me possuiu

Carregando com o peso do meu segredo!

E este desejo...
Que ainda me escalda a pele
Por debaixo deste hábito
Que encolheu
E já não me chega
Para me livrar da queda
Na alcova da tentação

Aqui estou
Senhor
À mercê do teu castigo
Pela minha redenção...
[/i]

"Cleo"

L.D.
________________________________________
*...VIVO NA RENOVAÇÃO DOS SENTIDOS, JUNTO DA ANTIGUIDADE DAS LEMBRANÇAS, EM FRENTE DAS EMOÇÕES...*
http://impulsosdalma.blogspot.com/
http://flashs-impulsos.blogspot.com/

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Walt Whitman

En su país de hierro vive el gran viejo
Bello como un patriarca, sereno y santo.
Tiene la arruga olímpica de su entrecejo
Algo que impera y vence con noble encanto.

Su alma del infinito parece espejo ;
Son sus cansados ombros dignos del manto ;
Y con arpa labrada de un roble añejo,
Como un profeta nuevo canta su canto ;

Sacerdote que alienta soplo divino,
Anuncia en el futuro, tiempo mejor.
Dice al águila : « ¡ Vuela !» ; « ¡ Boga !» al marino,

Y « ¡ Trabaja !» al robusto trabajador.
¡Así va ese poeta por su camino,
Con su soberbio rostro de emperador !

Rubén Dario

Azul...Cantos de vida y esperanza

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A águia negra

Um belo dia, ou talvez uma noite
Junto a um lago, deixei-me adormecer
Quando subitamente parecendo romper o céu
Vinda de nenhum lado
Surgiu uma águia negra

Docemente, as asas desdobradas
Docemente, vi-a rodopiar
Pertinho de mim, em um murmúrio de asas
Como caída do céu
A ave veio pousar

Tinha os olhos cor de rubi
E as penas da cor da noite
A testa brilhava como mil chamas
A ave, coroada rainha
Trazia um diamante azul

Com o bico, tocou-me a bochecha
Na minha mão pousou o seu pescoço
E foi então que o reconheci
Surgindo do passado
Tinha-me voltado

Diz-me pássaro. Dis-me, levo-te…
Voltemos ao país do passado
Como antes, nos meus sonhos de criança
Para colher tremendo
Estrelas nas estrelas

Como antes, nos meus sonhos de criança
Como antes sobre uma nuvem branca
Como antes de acender o sol
Ser fazedor de chuva
E construir maravilhas

A águia negra, num murmúrio de asas
pos-se a voar para ganhar o céu

Quatro penas da cor da noite
Uma lágrima, ou talvez um rubi
Tinha frio, nada me restava
A ave deixou-me
A sós com a minha dor

A grande BARBARA

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A "merda" da guerra



14 de Julho
Festa Nacional
Parada militar em Paris, onde claro abundam pombos
O autor, Robert Doisneau, soube colher o instante exacto em que as naves
parecem "borrar" as musas.
A indecencia sujando a inocência

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Não , nada lamento

Não , nada de nada
Não , nada lamento
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, tudo isso me é indiferente

Não , nada de nada
Não , nada lamento
Esta pago, varrido, esquecido
Não quero saber do passado

Com as minhas lembranças
Acendi uma fogueira
Os desgostos, os prazeres
Já não preciso deles

Varridos os amores
Com todos os seus «trémulos»
Varridos para sempre
Torno a partir, a zero

Letra da canção : Non je ne regrette rien, Edith Piaf

domingo, 1 de fevereiro de 2009

PALABRAS PARA JULIA

Tu no puedes volver atrás,
porque la vida ya te empuja,
como un aullido interminable,
interminable.
Te sentirás acorralada,
te sentirás, perdida o sola,
tal vez querrás no haber nacido,
no haber nacido.
Pero tu siempre acuérdate
de lo que un dia yo escribí
pensando en ti, pensando en ti,
como ahora pienso.
La vida es bella ya verás,
como a pesar de los pesares,
tendras amigos, tendras amor,
tendras amigos.
Un nombre solo, una mujer,
asi tomados, de uno en uno,
son como polvo, no son nada,
no son nada.
Entonces siempre acuérdate,
de lo que un dia yo escribí,
pensando en ti, pensando en ti,
como ahora pienso.
Nunca te entregues, ni te apartes,
junto al camino, nunca digas
no puedo mas y aqui me quedo,
y aqui me quedo.

Otros esperan que résistas,
que les ayude tu alegría,
que les ayude tu canción,
entre sus canciones,
Entonces siempre acuérdate
de lo que un dia yo escribí,
pensando en ti, pensando en ti,
como ahora pienso.
La vida es bella ya veràs,
como a pesar de los pesares,
tendras amigos, tendras amor,
tendras amigos.
No se decirte nada mas,
pero tu debes comprender,
que yo aùn estoy en el camino,
en el camino.
Pero tu siempre acuérdate
de lo que un dia yo escribí,
pensando en ti, pensando en ti,
como ahora pienso.

Letra, JOSE AGUSTIN GOYTISOLO
Musica y interpretación, Paco Ibañez

sábado, 31 de janeiro de 2009

QUANDO TE CONHECI

Quando te conheci
estalaram fogos de artifício no céu do meu espanto
e meu coração abriu-se em flor
papoila vermelha
desabrochando ao quente sol de agosto
desta paixão.

E houve coros de Anjos e responsos profanos
Hossanas e Aleluias e saudações à Natureza!

Quando te conheci
reescreveu-se a beleza das cores e os pontos cardeais
renasceram as procissões
os passeios a pé, aos domingos
e as bandas a tocarem nos coretos das praças!

Quando te conheci
rebentaram os diques da tristeza
a alegria jorrou nos coretos dos jardins
e foi a festa!

Quando te conheci
reinventou-se a Felicidade!...

" Lume"
Maria Mamede

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Solidão

Na minha terra há um rio
Que nunca vai ter ao mar
Trago-o dentro do meu peito
O meu corpo é o seu leito
Onde ele se pode espraiar.

Na minha terra há um pranto
Duma mãe que não secou
Escorre nas minhas veias
Como o mar por entre areias
Que o Oceano afundou.

Na minha terra há um porto
Com barcos por atracar
As amarras trago-as eu
No destino que me deu
Outro porto para embarcar.

Na minha terra há um mundo
Diferente deste onde estou.
Mas não o trago comigo
Ficou para meu castigo
No canto do ossobô*

*passaro que anuncia a chuva

Maria Olinda Beja (São Tomé)

Sarah

A mulher que esta na minha cama
Já não tem 20 anos, há muito tempo
Os olhos pisados
Pelos anos
Pelos amores
Dia após dia
A boca usada
Pelos beijos
Amiúde, mas
Muito mal dados
A cor do rosto, pálida
Não obstante a maquilhagem
Mais pálida que uma
Nódoa de lua

A mulher que esta na minha cama
Já não tem 20 anos, há muito tempo
Os seios pesados
De tanto amor
Já não merecem
Que lhes chamem isco
O corpo enfastiado
Demasiado acarinhado
Amiúde, mas
Demasiado mal-amado
O dorso corcunda
Parece suportar
Lembranças de quem
Teve que fugir

A mulher que esta na minha cama
Já não tem 20 anos, há muito tempo
Não riais
Não toqueis
Guardai as vossas lágrimas
Os vossos sarcasmos pois
Quando a noite
Nos reúne
O seu corpo, as suas mãos
Oferecem-se aos meus
E é o seu coração
Coberto de lágrimas
E de feridas
Que me serena

Georges Moustaki

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Mulher

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher

José Carlos Ary dos Santos

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A volta do Boémio

A volta do Boémio

Boémia
Aqui me tens de regresso
E suplicante te peço
A minha nova inscrição
Voltei
Para rever os amigos que um dia
Deixei a chorar de alegria
Me acompanha o meu violão

Boémia
Sabendo que andei distante
Sei que essa gente falante
Vai agora ironizar
Ele voltou
O boémio voltou novamente
Partiu daqui tão contente
Por que razão quer voltar ?

Acontece que a mulher que floriu o meu caminho
De ternura meiguice e carinho
Sendo a vida do meu coração
Compreendeu e abraçou-me a sorrir
Meu amor, você pode partir
Não esqueça o seu violão
Va rever os teus rios
Teus montes, cascatas
Va sonhar com nova serenata
E abraçar seus amigos leais
Va embora
Pois me resta o consolo e a alegria
De saber que depois da boémia
E de mim
Que você gosta mais…

Adelino Moreira

domingo, 25 de janeiro de 2009

AUTOPSICOGRAFIA



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

sábado, 24 de janeiro de 2009

Lily

Encontravam-na até bonita Lily
Vinha da Somália Lily
Num barco cheio de imigrantes
Que vinham de boa vontade
Esvaziar o lixo de Paris
Julgava que éramos todos iguais Lily
No país de Voltaire e Victor Hugo Lily
Mas por exemplo para Debussy
É preciso duas negras para uma branca
É isso a grande diferença
Adorava de tal maneira a liberdade Lily
Sonhava com fraternidade Lily
No hotel rua Secréton
Disseram-lhe logo ao chegar
Que ali só recebiam brancos.

Descarregou caixotes Lily
Executou os trabalhos mais sujos Lily
Gritou para vender couve-flor
Na rua, os seus irmãos de cor
Acompanhavam-na com o som dos martelos pneumáticos
E quando lhe chamavam Branca de neve
Não caia na armadilha Lily
Encontrava que era divertido Lily
Mesmo se era necessário apertar os dentes
Ficariam demasiado satisfeitos
Amou um loiro de caracóis Lily
Que desejava casar com ela Lily
Mas os sogros disseram-lhe
Não somos racistas nem por um vintém
Mas não queremos cá disso na família

Experimentou a América Lily
O grande país da democracia Lily
Senão tivesse visto, não teria acreditado
Que a cor do desespero
Ali também fosse o negro
Mas numa manifestação em Memphis Lily
Em que viu Angela Davis Lily
Que lhe disse, vem minha irmã
Juntos teremos menos medo
Dos lobos que esperam o caçador
Para enfrentar os seus medos Lily
Levantou o seu punho com raiva Lily
E a criança que nascera um dia
Terá a cor do amor
Contra a qual ninguém pode nada

Emcontravam-na até bonita lily
Vinha da Somália lily
Num barco cheio de imigrantes
Que vinham da sua própria vontade
Vazar o lixo de Paris

Pierre Perret
"du rire aux larmes"

Clandestino

Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Para burlar la ley.
Perdido en el corazón
De la grande Babylon
Me dicen el clandestino
Por no llevar papel.
Pa' una ciudad del norte
Yo me fui a trabajar
Mi vida la dejé
Entre Ceuta y Gibraltar
Soy una raya en el mar
Fantasma en la ciudad.
Mi vida va prohibida
Dice la autoridad
Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Por no llevar papel
Perdido en el corazón
De la grande Babylon
Me dicen el clandestino
Yo soy el quiebra ley
Mano Negra, clandestina
Peruano, clandestino
Africano, clandestino
Marijuana, ilegal.

Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Para burlar la ley.
Perdido en el corazón
De la grande Babylon
Me dicen el clandestino
Por no llevar papel
ad
Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Por no llevar papel

Manu Chao

Dedicado a todos los imigrantes

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O Gorila

Era através de fortes grades
Que as fêmeas do conselho
Contemplavam um potente gorila
Sem recear os dizeres das mas línguas
Sem pudor estas comadres
Espreitavam um ponto preciso
Que do modo mais severo a minha mãezinha
Me proibiu de nomear aqui

Atenção! Gorila

Subitamente a prisão tão segura
Onde vivia o belo animal
Abre-se sem saber porquê (suponho
Que a tinham fechado mal)
O símio saindo da jaula
Diz :” é hoje que a vou perder!”
Falava da sua virgindade
Devem ter adivinhado, espero!

Atenção! Gorila

O dono do jardim zoológico
Perdido, gritava: “Ai meu Deus!”
De medo, pois o gorila,
Jamais ainda vira uma macaca!
Logo que a gente feminina
Soube que o símio era virgem
Em vez de aproveitar a ocasião
Largou! Parando só dois fusos horários mais longe

Atenção! Gorila

Aquelas mesmas que outrora
O chocavam de um olho decidido
Fugiram, provando que não tinham
Nenhuma constância nas ideias
Vão era o seu temor!
O gorila é um brincalhão
Bem superior ao homem no amor
Não se contam as mulheres que o confirmarão

Atenção! Gorila

Todo este mundo se precipita
Fora de alcance deste símio em cio
Salvo uma velha desdentada
E um jovem juiz em madeira bruta
Vendo que todas se recusavam
O quadrúpede acelera coitado
O seu balancear na direcção dos vestidos
Da velha e do magistrado

Atenção! Gorila

“Ahhhh! Suspira a centenária...
que ainda me possam desejar
seria algo extraordinário
e a bem dizer inesperado”
o juiz, ele, pensava sereno
“Tomar-me por uma macaca
é completamente impossível...”
O que segue demonstra o contrário




Atenção! Gorila

Imaginai que um de vós possa ser
Como o símio obrigado a
Escolher entre um juiz e uma anciã
Qual preferíeis entre os dois?
Se uma alternativa dessas me calhasse
Um desses dias
Seria, tenho a certeza, a velha
De quem mais eu iria gostar

Atenção! Gorila

Mas, por desgraça, se o gorila
No campo do amor vale o seu preço
Sabe-se que ao contrário ele não brilha
Nem pelo seu gosto nem pelo seu espírito
Então, em vez de escolher a velha
Como teria feito não importa quem
Pegou no juiz pela orelha
E levou-o para o mato, oiçam bem...

Atenção! Gorila

O que segue seria delicado
É pena, mas não poderei
Dizer e lamento
Riríeis sem dúvida um pouco
Pois o juiz no momento supremo
Gritava “mamã” chorava sem parar
Como o infeliz a quem, nesse mesmo dia
Tinha mandado a cabeça cortar...

Atenção! Goriiiiiiiiiiilaaaaaaaaaaaaaaa!

George Brassens

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Não me deixes

Não me deixes

Não me deixes
É necessário esquecer
Tudo se pode esquecer
Já se esta a apagar…
Esquecer o tempo
O mal entendido
O tempo perdido
A procurar porquê
Esquecer as horas
Que matam por vezes
Com golpes de como
O coração, a felicidade
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes

Não me deixes
Ofertar-te-ei
Pérolas de chuva
Vindas de países
Onde nem sequer chove
Lavarei a terra
Até que eu morra
Para cobrir o teu corpo
De ouro e de luz
Construirei um recanto
Onde o amor é rei
Onde o amor é lei
Onde serás a rainha
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes

Não me deixes
Inventar-te-ei
Palavras insanas
Que compreenderas
Falar-te-ei
Daqueles amantes
Que por duas vezes
Viram os seus corações abraçarem-se
Contar-te-ei a história daquele rei
Que se deixou morrer
Por não ter podido encontrar-te
Não me deixes
Não me deixes Não me deixes
Não me deixes

Não me deixes
Já se viu tantas vezes
Reaparecerem as chamas
De um antigo vulcão
Que julgava-mos demasiado ancião
Parece que as terras queimadas
Dão mais trigo
Que o melhor mês de Abril
E quando chega a noite
Para que o céu possa flamejar,
O vermelho e o negro,
Não são obrigados a se acasalarem?
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes

Não me deixes
Não chorarei mais
Não volto a falar
Esconder-me-ei
Para melhor te ver
Dançar e sorrir
Para te escutar
Cantando e rindo
Deixa que seja
A sombra da tua sombra
A sombra da tua mão
A sombra do teu cão
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes



Jacques Brel
Ne me quitte pas

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Conxuro

Mouchos, coruxas, sapos e bruxas.
Desmos e diaños das nevoadas veigas.
Corvos pintigas e meigas, feitizos das maneiñeiras.
Pobres cañotas furadas, fogar dos vermes e alimañas.
Lume das Santas Campañas, mal de ollo, negros meigallos, cheiro dos mortos,
tronos e raios.
Oubeo do can, pregón da morte ; fociño do sátiro e pe de coello.
Pecadora lingua da mala muller casada cun home vello.
Auverno de Satán e Belcebú lume dos cadávres ardentes, corpos mutilados dos inocentes, peidos dos infernales cús, muxido da mar embravecida.
Barriga inútil da muller solteira, falar dos gatos que andan a xaneira, quedella porca da cabra mal parida.
Con este fol levantarei as chamas deste lume que asemella ao do inferno, e fixirán as bruxas acaballo das suas escobas, índose bañar na praia das areias gordas . ¡oide, vide ! os ruxidos que dan as que non poden deixar de queimarse no aguardente quedando así purificadas.
E cando este brebaxe baixe polas nosas gorxas, quedaremos libres dos males da nosa ialma e de todo embruxamento.
Forzas do ar, terra mar e lume, a vós fago esta chamada : si é verdade que tendes máis poder que a humana xente, eiquí e agora, facede cos espritos dos amigos que están fora, participen cos nós desta queimada.

Popular Galego

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Pequeno-almoço

Deitou o café
Na chávena
Deitou o leite
Na chávena de café
Pôs açúcar no café com leite
Com a pequena colher
Mexeu
Bebeu o café com leite
Pousou a chávena
Sem falar
Acendeu
Um cigarro
Fez círculos
Do fumo
Meteu as cinzas
No cinzeiro
Sem me falar
Sem olhar para mim
Levantou-se
Pôs o chapéu na cabeça
Colocou
O impermeável
Porque chovia
E foi-se
Sem uma palavra
Sem olhar para mim
E eu peguei
Na cabeça com a mão
E chorei

Jacques Prévert
Paroles

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Os meninos do Huambo

Com fios feitos de lágrimas passadas
Os meninos de Huambo fazem alegria
Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas
E no céu descobrem estrelas de magia

Com os lábios de dizer nova poesia
Soletram as estrelas como letras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Com os sorrisos mais lindos do planalto
Fazem continhas engraçadas de somar
Somam beijos com flores e com suor
E subtraem manhã cedo por luar

Dividem a chuva miudinha pelo milho
Multiplicam o vento pelo mar
Soltam ao céu as estrelas já escritas
Constelações que brilham sempre sem parar

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Palavras sempre novas, sempre novas
Palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

Assim contentes à voltinha da fogueira
Juntam palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

Rui Monteiro

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Parasitas

No meio de uma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar em cima de um jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploram assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos bassos,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos :
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu ao ver aquel quadro, apóstolos romanos,

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,
Que andais pelos universo, há mil e tantos anos,
Exibindo e explorando, o corpo de Jesus.

A Velhice do Padre Eterno
Guerra Junqueiro

domingo, 11 de janeiro de 2009

A morte saiu à rua

A morte saiu à rua num dia assim,
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim,
Uma gota rubra sobre a calçada cai,
E um rio de sangue do peito aberto sai.

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice de uma ceifeira de Portugal,
E o som da bigorna, como o clarim do céu,
Vão dizendo dizendo em toda à parte « o pintor morreu ».

Teu sangue, pintor, reclama outra morte igual,
Só olho por olho e dente por dente vale,
A lei assassina, a morte que te matou,
Teu corpo pertence à terra que te abraçou.

Aqui te afirmamos, dente por dente assim,
Que um dia rirá quem rirá por fim,
Da curva da estrada há feitas no chão,
E em todas florirão rosas por uma nação.

Zeca Afonso

sábado, 10 de janeiro de 2009

O Carvalho e o Junco

O Carvalho, um dia disse ao Junco :
«Você tem muitas razões par se dar com a natureza ;
Uma carriça para si, é um pesado fardo
O mínimo vento, que por ventura,
Faça enrugar, a superfície da água,
Obriga-vos a baixar a cabeça:
Entretanto a minha testa, igual a um Cáucaso
Não contente de parar os raios do sol,
Desafia o esforço da tempestade.
Tudo o que para si, é impetuoso vento do Norte
Me parece a mim, brisa ligeira e agradável.
Ainda se nascesse ao abrigo da folhagem
Com que cubro a vizinhança,
Não sofreria tanto :
Eu o defenderia da trovoada;
Mas como nasce a maior parte das vezes
Nas margens húmidas do reino do vento…
A natureza para consigo parece-me injusta.
- A sua compaixão, respondeu-lhe o arbusto,
Parte de um bom natural ; mas não se apoquente.
Os ventos são-me menos, que para si, medonhos
Eu vergo, mas não parto. Até agora,
Contra os seus temíveis golpes
Tem resistido sem dobrar as costas:
Mas esperemos o fim». Enquanto dizia estas palavras,
Do outro lado do horizonte chegava furioso
O mais terrível dos filhos
Que o norte tivesse levado no seu ventre.
A Arvore aguentou-se ; o Junco dobrou-se.
O vento redobra os seus esforços,
Tanto e tão bem que desenraíza
Aquele que tinha o céu por vizinho
E de quem os pés, tocavam o império dos mortos.

Jean de La Fontaine
Fables

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Vicente




Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. E no espírito claro ou brumoso de cada um, este dilema, apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco - a total autonomia da criatura em relação ao criador -, ou, submerso o ponto de apoio, morria Vicente, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.
Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu.

Bichos
Miguel Torga

Un saxo en la néboa




Un home necesitaba diñero con urxencia para pagar-se unha paxage a América. Este home era amigo do meu pai e tiña un saxofón. O meu pai era carpinteiro e facía carros do país con rodas de carballo e eixo de ameneiro.
Cando os facía, asobiaba. Inflaba as meixelas como peitos de paparroibo e soaba moi ben, a frauta e o violín, acompañado pola percusión nobre das ferramentas na madeira. O meu pai fixolle un carro a un labrador rico, sobriño de crego, e logo, prestoulle o diñero ao amigo que quería ir a America.
Este amigo tocara tempo atrás, cando había un sindicato obreiro e este sindicato tiña unha banda de música. E regaloullo ao meu pai o día en que se embarcou para américa. E o meu pai pousoumo nas mans con moito coidado, como se fora de cristal.
-A ver se algún día chegas a tocar o Francisco alegre, corazón mío.
Gustabálle moito aquel pasodobre.

Manuel Rivas
¿Que me queres amor ?

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

LA POESÍA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO

Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmado,
como un pulso que golpea las tinieblas,
cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.
Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,
piden ley para aquello que sienten excesivo.
Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte
en lo idéntico a sí mismo.
Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.
Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo.
Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.
Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
personales, me ensancho.
Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España en sus aceros.
Tal es mi poesía: poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo
con que te apunto al pecho.
No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos
y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.
Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.

Gabriel Celaya

domingo, 4 de janeiro de 2009

"Monangamba"

Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!
Perguntem as aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo? quem vai a tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipoia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdem
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?
Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
maquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
- Quem?
E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- "Monangambééé..."
Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
- "Monangambéé...'"
António Jacinto (Poeta angolano, 1924-1991) de Poemas, 1961 cantado por rui mingas

sábado, 3 de janeiro de 2009

Se necessitas

Nada compreendeste

Se necessitas comboios para alcançar a aventura
E brancos navios que te possam levar
Procurar um sol, a meter nos teus olhos
Procurar canções que possas cantar

Então…

Se necessitas a alvorada para acreditar no amanhã
E amanhãs para poder esperar
Reencontrar a esperança que te escorregou entre os dedos
Reencontrar a mão que a tua mão deixar

Então…

Se necessitares palavras ditas pelos anciãos
Para justificar todas as tuas renuncias
Se para ti a poesia já nada é mais que um jogo
Se toda a tua vida se resume a envelhecimento

Então…

Se necessitas o aborrecimento para pareceres profundo
E o barulho das cidades para embebedar os teus remorsos
A fraqueza para pareceres bom
E depois a ira para pareceres forte

Então nada compreendeste.

Jacques Brel
Paris, 1956

A palmada

Uma viúva ou um órfão ; haverá mais comovente?
Um velho amigo de escola, tendo morrido sem filhos,
Deixou neste mundo uma surpreendente esposa,
Indo eu fazer uma visita à desesperada
Não sabendo, depois, como terminar a noitada
Fiz-lhe companhia na câmara-ardente.

Para conter as suas lágrimas, para acalmar as suas dores,
Pus-me a contar balelas e ditos espirituosos,
Todos os meios são bons para sarar as almas…
Rapidamente, graças a estas pilhérias,
A viúva as mãos sobre os quadris, graças a Deus!
Riamos tal e qual dois perdidos.

O meu cachimbo saía um pouco do meu casaco,
De modo agradável, incentivou-me : enchei-o!
Que nenhum imperativo moral o pare!
Se o meu pobre marido detestava o tabaco
Agora já nem o fumo o incomoda.
-Mas, onde pus eu, a minha cigarrilha?

A meia-noite, com uma doce voz de serafim
Perguntou-me se não tinha fome.
-Fazia-o voltar, acrescentou,
Prolongar a piedade até a inanição?
Que diríeis vós de uma frugal consoada?
Tomamos uma pequena ceia à luz dos círios.

Olha como é belo! Parece apenas dormir.
Ele ao menos, não diria que não tenho razão
Em afogar a minha dor numa cascata de Champanhe.
Quando terminamos o segundo Magno,
A viúva comovida, em nome do pequeno Jesus
O seu espírito pronto a começar a batalha…

Meu Deus, o que apenas somos… !
Suspirava sentando-se no meu colo.
E após ter colado o beiço ao meu lábio
-Agora fico tranquila! Disse ; tinha medo
que, debaixo do teu bigode tipo sapador
não escondesses um lábio-rachado.

Bigode tipo sapador! O meu bigode? Imagina!
Essa comparação merecia uma palmada.
Levantei-lhe a saia, e sem dizer mais nada
Seguro de cumprir, com certeza, o meu dever
Mas fechando os olhos para demais não ver
Paf ! Sentiu a mão da vingança cair sobre a sua nádega.

Aí ! Partiu-me o rabo em dois!
Gemeu e eu, beijei-lhe a testa, envergonhado,
Temendo ter batido de modo exagerado, brutal
No entanto, mais tarde, vim a saber, o que me entusiasma
Que o dito, assim era já à bastante tempo
Mentirosa! A racha simplesmente congénita…

Quando levantei a mão, pela segunda vez
Já quase sem vontade, tinha perdido a fé
Sobretudo, ela era requintada a marota!
-O amigo reparou que eu tinha um magnífico cu?
A mão da vingança caindo, sem malícia…
O terceiro golpe, nada mais foi que carícia.

Traduction arrangée du texte original en français
"La fessée"
George Brassens