segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Pequeno-almoço

Deitou o café
Na chávena
Deitou o leite
Na chávena de café
Pôs açúcar no café com leite
Com a pequena colher
Mexeu
Bebeu o café com leite
Pousou a chávena
Sem falar
Acendeu
Um cigarro
Fez círculos
Do fumo
Meteu as cinzas
No cinzeiro
Sem me falar
Sem olhar para mim
Levantou-se
Pôs o chapéu na cabeça
Colocou
O impermeável
Porque chovia
E foi-se
Sem uma palavra
Sem olhar para mim
E eu peguei
Na cabeça com a mão
E chorei

Jacques Prévert
Paroles

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Os meninos do Huambo

Com fios feitos de lágrimas passadas
Os meninos de Huambo fazem alegria
Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas
E no céu descobrem estrelas de magia

Com os lábios de dizer nova poesia
Soletram as estrelas como letras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Com os sorrisos mais lindos do planalto
Fazem continhas engraçadas de somar
Somam beijos com flores e com suor
E subtraem manhã cedo por luar

Dividem a chuva miudinha pelo milho
Multiplicam o vento pelo mar
Soltam ao céu as estrelas já escritas
Constelações que brilham sempre sem parar

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Palavras sempre novas, sempre novas
Palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

Assim contentes à voltinha da fogueira
Juntam palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

Rui Monteiro

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Parasitas

No meio de uma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar em cima de um jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploram assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos bassos,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos :
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu ao ver aquel quadro, apóstolos romanos,

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,
Que andais pelos universo, há mil e tantos anos,
Exibindo e explorando, o corpo de Jesus.

A Velhice do Padre Eterno
Guerra Junqueiro

domingo, 11 de janeiro de 2009

A morte saiu à rua

A morte saiu à rua num dia assim,
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim,
Uma gota rubra sobre a calçada cai,
E um rio de sangue do peito aberto sai.

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice de uma ceifeira de Portugal,
E o som da bigorna, como o clarim do céu,
Vão dizendo dizendo em toda à parte « o pintor morreu ».

Teu sangue, pintor, reclama outra morte igual,
Só olho por olho e dente por dente vale,
A lei assassina, a morte que te matou,
Teu corpo pertence à terra que te abraçou.

Aqui te afirmamos, dente por dente assim,
Que um dia rirá quem rirá por fim,
Da curva da estrada há feitas no chão,
E em todas florirão rosas por uma nação.

Zeca Afonso

sábado, 10 de janeiro de 2009

O Carvalho e o Junco

O Carvalho, um dia disse ao Junco :
«Você tem muitas razões par se dar com a natureza ;
Uma carriça para si, é um pesado fardo
O mínimo vento, que por ventura,
Faça enrugar, a superfície da água,
Obriga-vos a baixar a cabeça:
Entretanto a minha testa, igual a um Cáucaso
Não contente de parar os raios do sol,
Desafia o esforço da tempestade.
Tudo o que para si, é impetuoso vento do Norte
Me parece a mim, brisa ligeira e agradável.
Ainda se nascesse ao abrigo da folhagem
Com que cubro a vizinhança,
Não sofreria tanto :
Eu o defenderia da trovoada;
Mas como nasce a maior parte das vezes
Nas margens húmidas do reino do vento…
A natureza para consigo parece-me injusta.
- A sua compaixão, respondeu-lhe o arbusto,
Parte de um bom natural ; mas não se apoquente.
Os ventos são-me menos, que para si, medonhos
Eu vergo, mas não parto. Até agora,
Contra os seus temíveis golpes
Tem resistido sem dobrar as costas:
Mas esperemos o fim». Enquanto dizia estas palavras,
Do outro lado do horizonte chegava furioso
O mais terrível dos filhos
Que o norte tivesse levado no seu ventre.
A Arvore aguentou-se ; o Junco dobrou-se.
O vento redobra os seus esforços,
Tanto e tão bem que desenraíza
Aquele que tinha o céu por vizinho
E de quem os pés, tocavam o império dos mortos.

Jean de La Fontaine
Fables

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Vicente




Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. E no espírito claro ou brumoso de cada um, este dilema, apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco - a total autonomia da criatura em relação ao criador -, ou, submerso o ponto de apoio, morria Vicente, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.
Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu.

Bichos
Miguel Torga

Un saxo en la néboa




Un home necesitaba diñero con urxencia para pagar-se unha paxage a América. Este home era amigo do meu pai e tiña un saxofón. O meu pai era carpinteiro e facía carros do país con rodas de carballo e eixo de ameneiro.
Cando os facía, asobiaba. Inflaba as meixelas como peitos de paparroibo e soaba moi ben, a frauta e o violín, acompañado pola percusión nobre das ferramentas na madeira. O meu pai fixolle un carro a un labrador rico, sobriño de crego, e logo, prestoulle o diñero ao amigo que quería ir a America.
Este amigo tocara tempo atrás, cando había un sindicato obreiro e este sindicato tiña unha banda de música. E regaloullo ao meu pai o día en que se embarcou para américa. E o meu pai pousoumo nas mans con moito coidado, como se fora de cristal.
-A ver se algún día chegas a tocar o Francisco alegre, corazón mío.
Gustabálle moito aquel pasodobre.

Manuel Rivas
¿Que me queres amor ?

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

LA POESÍA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO

Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmado,
como un pulso que golpea las tinieblas,
cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.
Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,
piden ley para aquello que sienten excesivo.
Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte
en lo idéntico a sí mismo.
Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.
Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo.
Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.
Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
personales, me ensancho.
Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España en sus aceros.
Tal es mi poesía: poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo
con que te apunto al pecho.
No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos
y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.
Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.

Gabriel Celaya

domingo, 4 de janeiro de 2009

"Monangamba"

Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!
Perguntem as aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo? quem vai a tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipoia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdem
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?
Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
maquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
- Quem?
E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- "Monangambééé..."
Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
- "Monangambéé...'"
António Jacinto (Poeta angolano, 1924-1991) de Poemas, 1961 cantado por rui mingas

sábado, 3 de janeiro de 2009

Se necessitas

Nada compreendeste

Se necessitas comboios para alcançar a aventura
E brancos navios que te possam levar
Procurar um sol, a meter nos teus olhos
Procurar canções que possas cantar

Então…

Se necessitas a alvorada para acreditar no amanhã
E amanhãs para poder esperar
Reencontrar a esperança que te escorregou entre os dedos
Reencontrar a mão que a tua mão deixar

Então…

Se necessitares palavras ditas pelos anciãos
Para justificar todas as tuas renuncias
Se para ti a poesia já nada é mais que um jogo
Se toda a tua vida se resume a envelhecimento

Então…

Se necessitas o aborrecimento para pareceres profundo
E o barulho das cidades para embebedar os teus remorsos
A fraqueza para pareceres bom
E depois a ira para pareceres forte

Então nada compreendeste.

Jacques Brel
Paris, 1956

A palmada

Uma viúva ou um órfão ; haverá mais comovente?
Um velho amigo de escola, tendo morrido sem filhos,
Deixou neste mundo uma surpreendente esposa,
Indo eu fazer uma visita à desesperada
Não sabendo, depois, como terminar a noitada
Fiz-lhe companhia na câmara-ardente.

Para conter as suas lágrimas, para acalmar as suas dores,
Pus-me a contar balelas e ditos espirituosos,
Todos os meios são bons para sarar as almas…
Rapidamente, graças a estas pilhérias,
A viúva as mãos sobre os quadris, graças a Deus!
Riamos tal e qual dois perdidos.

O meu cachimbo saía um pouco do meu casaco,
De modo agradável, incentivou-me : enchei-o!
Que nenhum imperativo moral o pare!
Se o meu pobre marido detestava o tabaco
Agora já nem o fumo o incomoda.
-Mas, onde pus eu, a minha cigarrilha?

A meia-noite, com uma doce voz de serafim
Perguntou-me se não tinha fome.
-Fazia-o voltar, acrescentou,
Prolongar a piedade até a inanição?
Que diríeis vós de uma frugal consoada?
Tomamos uma pequena ceia à luz dos círios.

Olha como é belo! Parece apenas dormir.
Ele ao menos, não diria que não tenho razão
Em afogar a minha dor numa cascata de Champanhe.
Quando terminamos o segundo Magno,
A viúva comovida, em nome do pequeno Jesus
O seu espírito pronto a começar a batalha…

Meu Deus, o que apenas somos… !
Suspirava sentando-se no meu colo.
E após ter colado o beiço ao meu lábio
-Agora fico tranquila! Disse ; tinha medo
que, debaixo do teu bigode tipo sapador
não escondesses um lábio-rachado.

Bigode tipo sapador! O meu bigode? Imagina!
Essa comparação merecia uma palmada.
Levantei-lhe a saia, e sem dizer mais nada
Seguro de cumprir, com certeza, o meu dever
Mas fechando os olhos para demais não ver
Paf ! Sentiu a mão da vingança cair sobre a sua nádega.

Aí ! Partiu-me o rabo em dois!
Gemeu e eu, beijei-lhe a testa, envergonhado,
Temendo ter batido de modo exagerado, brutal
No entanto, mais tarde, vim a saber, o que me entusiasma
Que o dito, assim era já à bastante tempo
Mentirosa! A racha simplesmente congénita…

Quando levantei a mão, pela segunda vez
Já quase sem vontade, tinha perdido a fé
Sobretudo, ela era requintada a marota!
-O amigo reparou que eu tinha um magnífico cu?
A mão da vingança caindo, sem malícia…
O terceiro golpe, nada mais foi que carícia.

Traduction arrangée du texte original en français
"La fessée"
George Brassens

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A INTERNACIONAL

De pé, ó vítimas da fome!
De pé, famélicos da terra!
Da ideia a chama já consome,
A crosta bruta que a soterra.
Cortai o mal bem pelo fundo!
De pé, de pé, não mais senhores!
Se nada somos neste mundo,
Sejamos tudo, ó produtores!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!
Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!

Messias, Deus, chefes supremos,
Nada esperemos de nenhum!
Sejamos nós quem conquistemos
A Terra-Mãe livre e comum!
Para não ter protestos vãos,
Para sair deste antro estreito,
Façamos nós por nossas mãos
Tudo o que a nós diz respeito!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!
Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!

Crime de rico a lei o cobre,
O Estado esmaga o oprimido.
Não há direitos para o pobre,
Ao rico tudo é permitido.
À opressão não mais sujeitos!
Somos iguais todos os seres.
Não mais deveres sem direitos,
Não mais direitos sem deveres!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!
Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!

Abomináveis na grandeza,
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha!
Todo o produto de quem sua
A corja rica o recolheu.
Querendo que ela o restitua,
O povo só quer o que é seu!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!
Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!

Fomos de fumo embriagados,
Paz entre nós, guerra aos senhores!
Façamos greve de soldados!
Somos irmãos, trabalhadores!
Se a raça vil, cheia de galas,
Nos quer à força canibais,
Logo verá que as nossas balas
São para os nossos generais!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!
Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!

Somos o povo dos activos
Trabalhador forte e fecundo.
Pertence a Terra aos produtivos;
Ó parasitas, deixai o mundo!
Ó parasita que te nutres
Do nosso sangue a gotejar,
Se nos faltarem os abutres
Não deixa o sol de fulgurar!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!
Bem unidos façamos,
Nesta luta final!
Uma terra sem amos
A Internacional!

Canção do carcereiro



Quand il est mort le poète

Onde vais belo carcereiro
Com essa chave manchada de sangue
Vou libertar aquela que amo
Se ainda é tempo
E que fechei
Com ternura, cruelmente
No mais secreto dos meus desejos
No mais profundo dos meus tormentos
Nas mentiras sobre o futuro
Na parvoíce dos juramentos
Quero liberta-la
Quero que seja livre
Até de me esquecer
Até de voltar
E voltar a amar-me
Ou de amar outrem
Se outrem lhe agradar
E se ficar sozinho
E ela se for
Guardarei somente
Guardarei para sempre
Nas minhas duas mãos em concha
Até ao fim dos meus dias
O doce dos seus seios
Modelados pelo amor

Jacques Prévert
Paroles